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Há portugueses que passam o verão inteiro a resmungar contra ela. Uns porque levanta a areia da praia, outros porque torna a água do Atlântico quase gelada quando o Mediterrâneo parece uma piscina aquecida. Há também quem a espere ansiosamente para praticar vela, windsurf ou kitesurf, e quem a tema por saber que um incêndio alimentado pela nortada pode tornar-se muito mais difícil de controlar. Poucos fenómenos meteorológicos fazem tão parte do quotidiano do país como este vento persistente de norte, que todos conhecem pelo nome, mas que poucos sabem realmente explicar como se forma e como é relevante.

Basta olhar para este verão para perceber a importância da nortada: durante várias semanas praticamente desapareceu da costa portuguesa, sobretudo a norte e centro, onde é mais ‘irritante’ para muitos. E sem este vento, o Atlântico deixou de fazer aquilo que faz todos os verões, que é renovar constantemente a água junto à costa com água fria vinda das profundezas. O resultado foi imediato e, depois de duas ondas de calor marinhas registadas ao largo do Algarve, a água começou também a aquecer junto à costa ocidental, com os modelos meteorológicos a apontar agora para temperaturas pouco habituais para julho: entre 21ºC e 23ºC do Mindelo a Sagres e até 25ºC no Algarve, valores vários graus acima do normal para esta época do ano. O fenómeno está a ser acompanhado por meteorologistas e oceanógrafos porque pode ter consequências muito para além de banhos mais agradáveis.

A nortada é, na prática, um dos grandes reguladores naturais do clima português. Sem ela, o litoral seria muito mais quente durante o verão, mas o mar também deixaria de funcionar como um gigantesco ar condicionado natural. A sua influência estende-se às temperaturas do ar, às noites tropicais, aos nevoeiros costeiros, à produtividade das pescas, à distribuição de espécies marinhas e até ao comportamento dos incêndios rurais. É um fenómeno tão importante que vários grupos de investigação portugueses lhe dedicaram estudos específicos, procurando perceber como se forma, porque sopra quase sempre de norte (e por isso tem o nome que tem) e de que forma poderá evoluir num clima em mudança.

Tudo começa com uma diferença de temperatura

Apesar de parecer apenas vento normal, a nortada é resultado de um mecanismo atmosférico muito mais complexo que envolve o oceano Atlântico, o aquecimento da Península Ibérica, o Anticiclone dos Açores e até a rotação da Terra. A explicação começa logo ao nascer do dia. O solo aquece muito mais depressa do que o mar e enquanto o interior do país pode atingir facilmente temperaturas superiores a 35ºC ou 40ºC durante uma tarde de verão, o Atlântico mantém-se muito mais fresco, normalmente entre 17ºC e 20ºC na costa ocidental. E esta diferença faz toda a diferença.

À medida que a superfície terrestre aquece, o ar imediatamente acima também aquece, torna-se menos denso e começa a subir. Sempre que o ar sobe, cria, junto ao solo, uma pequena diminuição da pressão atmosférica, uma espécie de vazio que precisa de ser preenchido (não há espaços vazios, uma das leis da Física, para quem ainda se lembra das aulas). O oceano responde imediatamente: sobre o Atlântico, onde o ar permanece mais fresco e mais denso, forma-se uma espécie de reservatório que começa naturalmente a deslocar-se em direção ao continente para ocupar esse espaço deixado pelo ar quente que subiu.

É este movimento contínuo que sentimos como vento. Em termos simples, a nortada representa a tentativa permanente da atmosfera de equilibrar o enorme contraste térmico que existe entre um oceano relativamente frio e uma Península Ibérica fortemente aquecida pelo Sol.

Porque sopra quase sempre de norte?

Se fosse apenas por causa da diferença de temperatura entre terra e mar, seria natural imaginar que o vento sopraria diretamente do oceano para terra, praticamente de oeste para leste. Mas quem vive na costa portuguesa sabe que isso raramente acontece. A nortada sopra sobretudo de norte ou noroeste. A explicação está muito acima da superfície, na circulação geral da atmosfera sobre o Atlântico Norte.

Durante o verão, instala-se normalmente sobre o Atlântico o Anticiclone dos Açores, o sistema de altas pressões semipermanente que constitui uma das peças fundamentais do clima da Europa Ocidental e impede a passagem de tempestades e frio (no inverno muda de posição e enfraquece e é assim que nos chegam o frio e as depressões). Ao mesmo tempo, o intenso aquecimento da Península Ibérica gera aquilo que os meteorologistas designam por depressão térmica ibérica, uma zona de baixas pressões que se forma porque o ar muito quente sobe continuamente sobre o interior de Espanha e Portugal, que juntos são muitas vezes conhecidos por “forno ibérico”.

Entre estas duas regiões estabelece-se um gradiente de pressão. O ar desloca-se naturalmente das altas para as baixas pressões. Só que esse movimento não acontece em linha reta.

A força invisível que muda a direção do vento

Há um segundo ingrediente que torna a nortada um fenómeno tão característico de Portugal: a força de Coriolis. Embora muitas vezes seja apresentada como uma força, trata-se, na realidade, de um efeito provocado pela rotação da Terra. Como o planeta roda continuamente sobre si próprio, qualquer massa de ar em movimento sofre um desvio. No hemisfério Norte, esse desvio faz-se para a direita da trajetória inicial.

É por isso que o ar que inicialmente tenderia a deslocar-se diretamente do Atlântico para o interior acaba por ser desviado, passando a circular paralelamente à costa portuguesa. Em conjunto com a forma da linha costeira e o relevo da Península Ibérica, este efeito canaliza assim o vento de norte para sul.

Foi precisamente este mecanismo que investigadores portugueses, entre eles Pedro Miranda, Rita Cardoso e Álvaro Semedo, estudaram em vários trabalhos dedicados ao chamado jato costeiro ibérico (Iberian Coastal Low-Level Jet), um corredor de vento intenso que se desenvolve frequentemente ao longo da costa ocidental durante o verão e que está intimamente ligado à nortada. Estudos apresentados na Assembleia Geral da União Europeia de Geociências (EGU) mostram que este jato costeiro constitui uma das características mais marcantes da climatologia de verão da Península Ibérica e desempenha um papel determinante na circulação atmosférica junto ao litoral português.

Porque aumenta quase sempre durante a tarde?

Quem frequenta as praias portuguesas conhece bem este horário. A manhã costuma começar relativamente calma. Depois do almoço, o vento vai aumentando e atinge normalmente o máximo de intensidade entre o meio e o final da tarde. Também para estes timings há uma explicação simples. Durante a manhã, o contraste de temperatura entre terra e oceano ainda é relativamente reduzido. À medida que o Sol aquece rapidamente o continente, esse contraste torna-se cada vez maior. Quanto maior for a diferença de temperatura, maior será também a diferença de pressão entre o oceano e o interior da Península. E quanto maior essa diferença de pressão, mais intenso será o vento que tenta compensá-la.

A nortada apresenta normalmente um ciclo diário muito regular, fortalecendo-se durante as horas mais quentes do dia e enfraquecendo novamente ao anoitecer, quando a superfície terrestre começa finalmente a arrefecer.

É a nortada que “liga o ar condicionado” do Atlântico

Se perguntarmos a um banhista porque é que a água do mar está gelada, a resposta mais frequente será: “Porque está vento”. Mas a realidade é outra. A nortada não arrefece diretamente a água do mar. O que faz é desencadear um dos fenómenos oceanográficos mais importantes da costa portuguesa: o afloramento costeiro, conhecido internacionalmente como upwelling.

Este processo foi descrito por vários oceanógrafos e climatologistas, entre eles José Alves, Pedro Miranda e Nuno Serra, num estudo publicado na revista Climate Dynamics, e é considerado um dos principais motores da produtividade biológica da costa ocidental da Península Ibérica. Quando a nortada sopra de forma persistente durante vários dias, empurra a camada superficial da água para o largo, para oceano aberto. Como essa água se afasta da costa, é imediatamente substituída por água muito mais fria que sobe das camadas profundas, rica em nutrientes acumulados durante meses ou anos. É este mecanismo que explica por que razão basta uma semana de nortada intensa para a temperatura da água descer vários graus em muitas praias portuguesas.

Este fenómeno é tão importante que a costa portuguesa integra um dos quatro grandes sistemas de upwelling da margem oriental dos oceanos, juntamente com as costas da Califórnia, Peru-Chile e Noroeste de África. Segundo a NOAA e vários estudos publicados na Annual Review of Marine Science, estes sistemas ocupam apenas uma pequena fração da superfície dos oceanos, mas são responsáveis por uma grande parte da produção mundial de peixe devido à enorme quantidade de nutrientes que fazem subir à superfície.

É precisamente por isso que o Atlântico português é muito mais produtivo do que seria de esperar para uma latitude semelhante. Sardinha, cavala, carapau e muitas outras espécies dependem, direta ou indiretamente, desta “injeção” contínua de nutrientes que a nortada ajuda a colocar à superfície.

Então porque está o mar tão quente este verão?

A resposta está precisamente na ausência da nortada. Durante grande parte deste verão, o padrão atmosférico tem sido dominado por bloqueios anticiclónicos persistentes e por sucessivas ondas de calor. Ao mesmo tempo, a nortada surgiu muito mais fraca e irregular do que é habitual. Sem vento suficiente para empurrar a água superficial para alto mar, o mecanismo de upwelling enfraqueceu significativamente. Em vez de ser constantemente renovada por água fria das profundezas, a camada superficial do oceano permaneceu vários dias sob forte radiação solar, acumulando calor.

O resultado começou por ser observado ao largo do Algarve, onde foram identificadas as tais duas ondas de calor marinhas. Agora esse aquecimento começa também a sentir-se junto à costa ocidental. Os modelos meteorológicos apontam para temperaturas da água entre 21ºC e 23ºC em vários pontos e o Algarve volta aos 25ºC, valores pouco comuns para meados de julho e claramente acima da média.

Embora um mar mais quente possa parecer uma excelente notícia para quem vai à praia, os investigadores lembram que as consequências vão muito além do conforto dos banhistas e alteram a fauna e a flora por completo.

Um oceano mais quente muda muito mais do que os banhos

O oceano funciona como uma enorme bateria térmica. Quando aquece, aumenta a evaporação e disponibiliza mais vapor de água para a atmosfera. Esse excesso de humidade pode contribuir para noites mais quentes junto ao litoral e fornecer mais energia às trovoadas quando massas de ar frio chegam em altitude, como acontece frequentemente com as depressões isoladas em altitude, conhecidas em Portugal como depressões isoladas em altitude e popularmente em Espanha como DANAs ou “gotas frias”.

Ao mesmo tempo, temperaturas da água continuamente elevadas alteram os ecossistemas marinhos. Espécies tropicais ou subtropicais têm vindo a aparecer cada vez com maior frequência na costa portuguesa, enquanto algumas espécies adaptadas a águas mais frias tendem a deslocar-se para latitudes mais elevadas. O Copernicus e diversos trabalhos publicados nos últimos anos mostram que estas alterações já estão a modificar a distribuição de peixes, algas e invertebrados em várias regiões do Atlântico Nordeste.

A nortada e os incêndios

Se para muitos portugueses a nortada significa temperaturas mais suportáveis durante o verão (fora de água, claro está), para quem combate incêndios florestais representa frequentemente um motivo de preocupação. O vento fornece oxigénio às chamas, aumenta a velocidade de propagação do fogo e pode transportar partículas incandescentes a centenas de metros de distância, originando novos focos de incêndio muito à frente da frente principal. Não é por acaso que vários dos grandes incêndios registados na fachada atlântica portuguesa evoluíram rapidamente em dias de nortada intensa.

Também nas praias a relação é de amor e ódio. É a nortada que refresca os dias mais quentes, mas é também a responsável pela areia que parece nunca deixar toalhas e guarda-sóis em paz.

Para os praticantes de vela, surf, windsurf ou kitesurf, pelo contrário, é um dos ventos mais procurados do verão.

Está a nortada a mudar?

Durante décadas ganhou força a chamada hipótese de Bakun, proposta pelo oceanógrafo norte-americano Andrew Bakun, segundo a qual o aquecimento global poderia reforçar os ventos costeiros e intensificar o upwelling em várias regiões do mundo. A ideia era simples: se o continente aquecer mais depressa do que o oceano, aumenta o contraste térmico e, consequentemente, a circulação de vento junto à costa.

Voltam as noites tropicais: como a irritante nortada conta

Nos últimos anos, porém, a realidade mostrou que podia não ser assim. Estudos publicados na Climate Dynamics, na Frontiers in Marine Science e noutras revistas científicas mostram que a resposta depende de muitos fatores, incluindo a posição do Anticiclone dos Açores, da corrente de jato (jet stream), da circulação atmosférica de grande escala e das alterações regionais do clima. Em algumas zonas do planeta os ventos parecem intensificar-se; noutras diminuem ou tornam-se mais irregulares.

Para Portugal ainda não existe uma resposta definitiva. Trabalhos desenvolvidos no Instituto Dom Luiz sugerem que alterações na posição do Anticiclone dos Açores poderão modificar a frequência e intensidade da nortada ao longo do século XXI, mas os investigadores sublinham que continua a existir incerteza significativa.

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