Talvez a teoria mais recente que tenha ouvido sobre George Soros seja a de que o milionário húngaro controla a jovem ativista pelo clima Greta Thunberg, mas, com o alastrar da pandemia de Covid-19 a todo o mundo e o impacto que terá na economia, começam a surgir novas teorias nas redes sociais. O Politifact, um site que faz a verificação de afirmações dos políticos norte-americanos, já desmentiu que George Soros fosse o dono do WuXi Pharma Lab onde alegadamente a Covid-19 foi desenvolvida e de onde “convenientemente” saiu.

Mas a publicação que circula agora no Facebook, partilhada já centenas de vezes, vai mais longe e monta uma história em torno dos alegados objetivos que o milionário húngaro teria para ter contribuído para o desenvolvimento do novo coronavírus.

Exemplo de publicação sobre o envolvimento de George Soros na disseminação da pandemia do novo coronavírus

Em primeiro lugar, importa clarificar que os cientistas já encontraram evidências de que o novo coronavírus, que dá origem à doença Covid-19, não foi desenvolvido em laboratório. Um novo estudo publicado na revista científica Nature indica que há pistas no genoma e na estrutura molecular do SARS-CoV-2 que comprovam que o vírus teve origem natural e que foi transmitido de um animal para a humanidade, sem a intervenção de qualquer cientista.

Desfeita uma das teorias da conspiração mais badaladas sobre o novo coronavírus, é também deitado por terra praticamente toda a narrativa que acompanha a publicação no Facebook. Provando a ciência de que não se trata de um vírus desenvolvido em laboratório, será impossível que Soros tenha tido qualquer influência no processo.

Ainda que George Soros seja acionista no WuXi AppTec Group, uma empresa farmacêutica e de biotecnologia, pouca relevância tem esse facto para a história montada em torno dessa participação na empresa, já que a ciência prova que o vírus não foi desenvolvido em qualquer laboratório. A empresa em questão trabalha essencialmente no desenvolvimento de dispositivos médicos e o presidente é Ge Li, de acordo com o site da empresa.

Mas há mais, mesmo no final do texto, o autor aponta que o exercício “Defender Europe 20” serviria de porta de entrada para os soldados americanos na Europa, “para impor os campos da FEMA para internação e eliminação de dissidentes”. Ora, a 11 de março — três dias antes desta publicação no Facebook — já o exercício Defender Europe 20 tinha sido cancelado. Porquê? Precisamente devido ao alastrar da pandemia Covid-19 na Europa.

O exercício previa a participação de cerca de 37 mil militares em exercícios conjuntos de 17 países aliados entre 20 de abril e 20 de maio, mas a decisão de o cancelar foi tomada como “medida de precaução”.

Outro dos pontos do texto diz que parte do plano previa “eliminar o dinheiro físico da circulação”, que teria como objetivo “descobrir quanto dinheiro as pessoas realmente têm fora dos bancos”, tendo a China a “obrigação de entregar notas e moedas para desinfeção”. O texto terá sido escrito já depois de serem conhecidas as medidas de prevenção tomadas pela China e que previam a desinfeção do dinheiro, porque na altura se acreditava que podia contribuir para a disseminação do vírus.

Mais recentemente, a OMS esclareceu que o dinheiro não é veículo de transmissão do novo coronavírus, mas sim o facto de haver muitas incertezas por parte da comunidade científica em torno da Covid-19 e sobre a sua forma de contágio levou a que o Banco da China tivesse mesmo realizado uma desinfeção às notas (não havendo, no entanto, qualquer registo de falta de dinheiro em circulação devido a esse processo).

Conclusão

A publicação composta por um extenso texto é toda baseada em falsas questões e argumentos facilmente desmentidos pela comunidade científica internacional. O vírus teve origem natural e não foi desenvolvido em qualquer empresa, George Soros é de facto acionista da empresa WuXi Pharma Lab, mas o cargo de presidente é ocupado por Ge Li. Os argumentos dados ao longo do texto para justificar os “objetivos sinistros” de Soros não se verificam, tendo sido inclusivamente alguns anulados pela própria pandemia — como é o caso do exercício militar “Defender Europe 20”.

Assim, de acordo com a classificação do Observador este conteúdo é:

Errado

De acordo com a classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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