A ideia é clara e consta da página 27 do relatório que a Estrutura de Monitorização do Estado de Emergência, coordenada pelo ministro da Administração Interna, entregou esta semana no Parlamento. “A população em geral não interiorizou a gravidade da situação vivida e a necessidade de cumprimento estrito das novas regras em vigor”, lê-se no documento.

O argumentário do documento apresentado pelo gabinete coordenado pelo ministro Eduardo Cabrita serve de justificação para a aplicação de medidas mais restritivas no início do atual período de confinamento, que entrou em vigor em meados de janeiro. O relatório refere que, apesar da “adoção de medidas mais restritivas no quadro do estado de emergência, e apesar de se verificar um crescimento de novos casos diários de contágio da doença”, a atitude da população não refletiu esse agravamento das medidas. “Constatou-se, numa fase inicial, que a população em geral não interiorizou a gravidade da situação vivida”, aponta o relatório.

Não é a única passagem em que Cabrita justifica o agravamento das medidas com aquilo que entende ser a falta de consciência da gravidade da situação por parte dos portugueses. Antes, e quando se refere às medidas tomadas no âmbito do segundo confinamento, o relatório refere que “veio o Governo a recuperar soluções já adotadas durante os meses de março e abril de 2020”. A diferença é que, assinala o documento, há uma ano, se verificou uma “conjugação” dessas medidas “com a adoção clara de comportamentos consonantes de todos os cidadãos” que “obtiveram resultados positivos”.

Agora, subentende-se deste excerto, essas mesmas medidas não obtiveram a mesma resposta dessa mesma população. Mais à frente, o documento concretiza a ideia que o crescimento exponencial da pandemia se deveu à falta de consciência “da gravidade da situação vivida”.

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A 17 de janeiro, domingo, já em pleno período de confinamento, o Governo reuniu-se em Conselho de Ministros para decidir de que forma podia tornar mais restritivas as medidas limitadoras da circulação que já estavam em vigor há alguns dias.

A pressão sobre os serviços de saúde que então se verificava — e o facto, sabe-se agora, de nessas semanas de janeiro se terem confirmado um quarto de todos os contágios em Portugal durante a pandemia — tiveram uma tradução prática: foi proibida a venda ou a entrega ao postigo de produtos em qualquer estabelecimento do ramo não alimentar, como em lojas de vestuário, foi proibida a venda ou entrega ao postigo de qualquer tipo de bebida, mesmo café, nos estabelecimentos alimentares autorizados à prática de take-away, foram encerrados todos os espaços de restauração em centros comerciais (que ficaram limitados ao serviço de entrega ao domicílio), foi proibida a permanência em espaços públicos, foi proibida a circulação entre concelhos ao fim de semana, escolas encerradas (a partir de 26 de janeiro), entre outras.

Marcelo puxa orelhas aos portugueses que ainda não perceberam “situação muito crítica”

Essas medidas tiveram o respaldo do Presidente da República. Aliás, o ‘puxão’ de orelhas do Governo, passado agora a letra escrita, já tinha sido feito por Marcelo Rebelo de Sousa. Nesse mesmo dia, 17 de janeiro, o então candidato às presidenciais dizia que “os portugueses perceberam, em março [de 2020] continuaram a perceber”. Mas isso tinha sido há um ano. ”Agora”, continuava um Marcelo “em contacto permanente” com o Governo, “há portugueses que, pelo vistos, entendem, utilizando varias exceções, que o fecho é relativo”.

O próprio Governo já tinha ensaiado este argumento. No início de fevereiro, em entrevista telefónica ao The New York Times, Pedro Siza Vieira dizia que o crescimento do número de infeções desde o início do ano se deviam ao facto de “muitas pessoas” em Portugal terem optado por visitar familiares durante o Natal e o Ano Novo. Fizeram-no, considerava o ministro, “ignorando as restrições” impostas pelo Governo — que, na verdade, considerou que na época do Natal, ao contrário do Ano Novo, a amarra devia ser aligeirada.

Siza Vieira haveria de recuar. Mais tarde, contactado pela Renascença, fonte do gabinete do ministro de Estado e da Economia acabaria por dizer que as declarações publicadas pelo jornal norte-americano resultavam da interpretação do jornalista. Siza Vieira não teria, afinal, imputado responsabilidades aos portugueses pela forma como circularam pelo país no período do Natal.

Conclusão

No relatório em que faz o balanço das medidas em vigor na segunda quinzena de janeiro (quando foram adotadas medidas mais restritivas de combate contra a pandemia), o ministro da Administração Interna defende que “a população em geral não interiorizou a gravidade da situação vivida” nesse momento.

Assim, segundo a escala de classificação do Observador, este conteúdo está:

CERTO

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VERDADEIRO: conteúdos que não contenham informações incorretas ou enganosas.

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