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Em frente ao Santa Maria, depois de se reunir com o conselho de administração do Hospital que é “o último reduto” e de onde saiu “impressionado”, Marcelo Rebelo de Sousa acenou com os gráficos da pandemia. A intenção é alertar pelo choque. Desde março, altura do primeiro confinamento, que os casos saltaram de 194 para mais de 10 mil, os internamentos que estavam nos 89, passaram para 4.889 e, por fim, os internamentos em UCI que estavam nos 20, passaram para 647. Em março os portugueses perceberam que era para ficar em casa, agora não. Por isso o candidato Marcelo puxa do fato de Presidente e avisou: “A situação não é crítica, é muito crítica, para os portugueses e para os políticos”. Garantiu, pelo meio, que estava coordenado e é feito “em conjunto” com o Governo, nomeadamente com a ministra da Saúde e o primeiro-ministro com quem tem estado “em contacto permanente”.

Já vinha com a dramatização preparada e avisou logo os jornalistas, ainda nos bombeiros do Dafundo que visitou ao início da tarde, que queria falar de saúde, sim, mas que o faria no Santa Maria, depois. E foi o que fez, com folhas a servir de apoio ao que tinha para dizer, avaliando que em março, “os portugueses perceberam, em março continuaram a perceber. Agora há portugueses que, pelo vistos, entendem, utilizando varias exceções, que o fecho é relativo“.

O candidato à Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa, após a visita ao Hospital Santa Maria onde teve uma reunião com o Conselho de Administração, no âmbito da campanha eleitoral para as eleições presidenciais, Lisboa, 17 de janeiro de 2021. MÁRIO CRUZ/LUSA

A pressão sobre a saúde é uma preocupação grande, com Marcelo a sublinhar que os atuais números ainda não refletem dias e dias de casos acima dos 10 mil. “Os internamentos vêm-se daqui por um dias”, disse apontando que “4% que sejam os casos a serem internados, isto significa centenas e centenas de novos internamentos a pressionarem as estruturas de saúde todas”.  E diz mais, que em março “havia camas disponíveis de doentes não-Covid e que essas deixaram de estar disponíveis”. É por isso que dali, à porta do maior hospital de Lisboa, o candidato que também é Presidente coordenou-se com o Governo (disse mais do que uma vez que estava coordenado) para  sugerir uma ponderação mais amiúde das medidas que não estão a ser levadas a sério, no seu entender. Horas depois o Governo anunciava um Conselho de Ministros extraordinário para reavaliar medidas de restrição. Marcelo apoia, como Presidente, dizendo que se for preciso fechar mais, fecha-se “como sinal à sociedade”. “Fechar é fechar e confinar é confinar a sério”, insistiu mesmo.

A situação é “muito crítica para os políticos porque tem de se analisar dia a dia, semana a semana. as medidas para ver se é necessário restringir ainda mais o confinamento, no que possa ser restringido”, disse Marcelo ao mesmo tempo que apontava (mais uma vez) o dedo aos portugueses porque “tem de compreender que estas semanas são determinantes”. Por isso deixou recados diretos para quem passeia o animal de companhia “4, 5 ou seis vezes por dias” ou quem faz “passeios higiénicos com famílias amplas e sem máscara”. “Há um problema de compreensão da gravidade da situação”, considerou por fim.

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Quando confrontado com a dramatização que teve, há dois anos, depois dos incêndios de 2017, dizendo que mais um ano trágico não de recandidataria, e o facto de na base do que está hoje a acontecer estar uma decisão sua — pelo menos já se responsabilizou publicamente por isso –, Marcelo assumiu mais uma vez que assume “máxima responsabilidade pela gestão da pandemia” e também: “Naturalmente estou sujeito ao escrutínio dos portugueses daqui a oito dias”.

Promessas em tempo de eleições. Marcelo falou com MAI para acelerar vacinação de bombeiros

Antes disso, tinha estado noutra frente de combate à Covid-19 (e não só), mas com o fato de candidato vestido. Nos Bombeiros do Dafundo, o comandante Carlos Jaime explicava a situação “catastrófica” que a corporação enfrenta, tendo em conta os inúmeros pedidos de auxílio que lhe chegam nesta altura. Marcelo Rebelo de Sousa interrompe:”É desde sempre, não é só no tempo da pandemia”. Sim. Carlos Jaime fazia-lhe a vontade embora dissesse que é “presentemente” que “a situação é tremenda”. De qualquer maneira estava ali a para revelar que conseguiu exercer a sua influência para “acelerar” o processo de vacinação dos bombeiros que têm contactos de risco no exercício do seu serviço.

“Informei-me junto do ministro da Administração Interna sobre a questão da vacinação”, disse o candidato-Presidente a dada altura, interrompendo o comandante que ia dizendo o quanto “está tudo entupido” nos serviços de urgência, sobretudo no Hospital de Santa Maria. Marcelo queria deixar ali um cheirinho do seu poder de influência, prometendo aos bombeiros que estão a criticar o facto de terem ficado para trás no processo de vacinação que vão entrar na próxima fase. Na verdade já entravam, tendo em conta que na segunda fase da vacinação entram os grupos de prestam serviços essenciais. Mas o candidato detalha que não se trata de uma antecipação, “mas antes de uma aceleração”.

E não falou só com Eduardo Cabrita, também esteve em contacto com o presidente da Liga dos Bombeiros, o social-democrata Jaime Marta Soares, e que soube que já tinha sido feito esse mesmo pedido ao Governo. “Foi pedida a aceleração do processo e vai acontecer”. O comandante confirmou que já estão a existir contactos nesse sentido por parte das estruturas de saúde locais.

Marcelo pode já nem ter tido influência nenhuma, mas fez o número, depois de ter pedido — qual mestre de cerimónias — que todos se juntassem para que pudesse ouvir explicações sobre a atividade dos bombeiros daquela corporação. “Aproximem-se mas sem ajuntamentos”.

Ajuntamento só no fim, para a selfie que lhe foi pedida, mas com o Presidente à distância, até porque já é mestre e é preciso um certo afastamento para enquadrar todos. Aqui está ela:

Ainda foi questionado, antes de seguir para o Hospital de Santa Maria, pela necessidade da requisição civil aos privados numa fase em que o SNS está cheio. Falou no que consta na lei do estado de emergência, que prevê esta situação. Mais um telefonema para um ministro, desta vez para a ministra da da Saúde, para garantir que “até agora tem havido acordo com os setores social e privado”. Mas também deixou logo ali o aviso: “Se um dia não houver acordo então é evidente que o Governo é o primeiro a saber que recorrerá a requisição civil”.

Sobre o voto antecipado, Marcelo Rebelo de Sousa contou que Eduardo Cabrita lhe transmitiu que estava tudo a correr bem. “O que me disse o senhor ministro da Administração Interna foi que havia uma influência muito elevada ao voto, pessoas que foram inclusive que foram às 06 para poder votar logo às 8h, mas a convicção é que não havia problemas em relação ao exercício de voto para todos os eleitores que o quisessem”, garantiu o candidato-Presidente. Marcelo acrescentou que esta “era a visão dele [o ministro] ao começo da tarde”, mas registava que “ainda falta algum tempo até ao encerramento das urnas”. Por isso, “vamos ver”.