Várias publicações amplamente partilhadas e comentadas no Facebook denunciam a suposta inação da ativista sueca Greta Thunberg, de 17 anos, perante os incêndios florestais na Austrália. Numa das imagens, partilhada por uma página portuguesa, o autor sugere que a jovem se indignou com os fogos na Amazónia, mas ignorou os da Austrália. A referida página chama-se “O Coveiro” e tem mais de 14 mil seguidores no Facebook. É falso: logo a 22 de dezembro a ativista criticou o governo australiano e a 23 o primeiro-ministro Scott Morrison respondeu-lhe.

A publicação portuguesa que critica Greta Thunberg

Além desta página, vários outros utilizadores — em particular apoiantes de Jair Bolsonaro no Brasil — denunciaram o suposto silêncio da ativista sobre o assunto, criticando ainda o presidente francês Emmanuel Macron e o Papa Francisco.

Um dos posts que critica também Macron e o Papa

Outro post, que fala também de Leonardo di Caprio

Uma ideia semelhante foi transmitida na semana passada pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que questionou se a ativista ambiental sueca e o seu homólogo francês, Emmanuel Macron, se pronunciaram sobre os incêndios na Austrália. “Aquela menina lá [Greta Thunberg], aquela pequeninha falou alguma coisa também? Não”, disse Bolsonaro, num vídeo partilhado nas redes sociais. Mas as duas referências ao silêncio da jovem estão erradas.

A verdade é que Greta Thunberg tem vindo a fazer várias publicações sobre os incêndios na Austrália e, à semelhança do que fez com os fogos na Amazónia, criticou os políticos australianos. Uma das críticas mais diretas foi feita no dia 22 de dezembro, no Twitter. “Nem mesmo catástrofes como esta parecem trazer ação política. Como é que isso é possível? Porque ainda não fazemos a ligação entre a crise climática e o aumento de eventos climáticos extremos e desastres da natureza como os incêndios na Austrália. É isso que tem de mudar. Agora”, afirmou, numa publicação em que partilhou um vídeo da Nine News Sydney sobre os incêndios.

As críticas da ativista motivaram até uma resposta por parte do primeiro-ministro australiano, que reagiu com estrondo logo no dia seguinte. Scott Morrison rejeitou os conselhos de Greta Thunberg, destacando que o governo estava a fazer o que “considera melhor para a Austrália“. O primeiro-ministro, citado pela Newsweek, disse ainda que não faz parte do seu trabalho “fazer comentários sobre o que aqueles fora da Austrália pensam que a Austrália deveria fazer”. E acrescentou que o seu trabalho não é “impressionar pessoas no exterior”, mas colocar os australianos em primeiro lugar.

Mas Greta Thunberg não ficou por aí. Nos dias seguintes, publicou vários tweets sobre os incêndios na Austrália. No dia 31, por exemplo, a jovem partilhou vários vídeos nos quais era visível o céu vermelho e as operações dos bombeiros, de forma a chamar a atenção para o problema.

Mais recentemente, no dia 5 de janeiro, Greta deixou um texto mais longo sobre este assunto no Instagram e no Facebook: “A Austrália está a arder. E o verão lá está apenas a começar. 2019 foi um ano de recorde de calor e recorde de seca. Hoje, a temperatura fora de Sydney era de 48,9ºC. É estimado que 500 milhões de animais tenham morrido por causa dos incêndios florestais”.

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Australia is on fire. And the summer there has only just begun. 2019 was a year of record heat and record drought. Today the temperature outside Sydney was 48,9°C. 500 million (!!) animals are estimated dead because of the bushfires. Over 20 people have died and thousands of homes have burned to ground. The fires have spewed 2/3 of the nations national annual CO2 emissions, according to the Sydney Morning Herald. The smoke has covered glaciers in distant New Zealand (!) making them warm and melt faster because of the albedo effect. And yet. All of this still has not resulted in any political action. Because we still fail to make the connection between the climate crisis and increased extreme weather events and nature disasters like the #AustraliaFires That has to change. And it has to change now. My thoughts are with the people of Australia and those affected by these devastating fires. (Photo: Matthew Abbott for The New York Times)

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Na mesma publicação, a ativista recorda que mais de 20 pessoas morreram e milhares de casas foram destruídas pelas chamas. “Os incêndios emitiram dois terços das emissões anuais de CO2, de acordo com o Sydney Morning Herald”, prossegue, destacando que o fumo atingiu os glaciares da Nova Zelândia.

Greta Thunberg aproveita, ainda, para voltar a criticar os decisores políticos: “Tudo isto ainda não resultou em nenhuma ação política”. Reforçando a necessidade de estabelecer uma relação entre a crise climática e os eventos extremos, a ativista diz que “isso tem de mudar”. “E tem de mudar agora. Os meus pensamentos estão com o povo da Austrália e com aqueles que foram afetados pelos incêndios devastadores”.

Já esta terça-feira, Greta usou o Twitter para partilhar um artigo do Huffpost, que diz que o número de animais mortos na sequência dos incêndios deverá ser superior a mil milhões.

Conclusão

A imagem, partilhada por mais de duas centenas de pessoas, sugere que Greta Thunberg ignorou os incêndios da Austrália, depois de se ter insurgido contra os fogos na Amazónia em agosto. Outras publicações idênticas circularam nas redes sociais, criticando o suposto silêncio da ativista. Mas a informação não está correta, uma vez que Greta tem feito vários comentários a criticar a falta de ação política relativamente a este tema. Mais do que isso: tal como Greta se envolveu numa troca de críticas com Bolsonaro, a ativista também criticou (e foi criticada) pelo primeiro-ministro australiano, Scott Morrisson.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

Errado

De acordo com o sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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