Uma suposta citação atribuída à deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua tornou-se viral no Facebook. A publicação, partilhada a 5 de setembro por um utilizador do Facebook, teve mais de 87 mil visualizações e consiste numa fotografia da deputada com a seguinte citação: “Toda a proteção e preocupação para com os idosos e não vejo a mesma preocupação para com os presos que vivem em condições degradantes. Se necessário for deve o Estado nacionalizar um hospital ou dois privados para tratar com dignidade estas pessoas a quem foi retirada a sua liberdade”.

Trata-se, contudo, de uma publicação falsa, no sentido em que a frase não pode ser atribuída à deputada bloquista. O Observador questionou a deputada e a assessoria de imprensa do Bloco de Esquerda sobre a veracidade da citação, e ambos responderam que se trata de uma publicação “falsa”. Mariana Mortágua nunca disse que os presos deviam ter a mesma proteção que os idosos, em relação à Covid-19, comparando-os diretamente, nem que o Estado devia nacionalizar hospitais privados exclusivamente para tratar reclusos.

Publicação no Facebook atribui a Mariana Mortágua uma frase que não é da sua autoria

O primeiro indício de que se trata de uma citação erradamente atribuída a uma pessoa é o facto de a própria publicação não apontar nem o local nem a data em que a frase teria sido proferida. Em nenhuma pesquisa na internet se encontra, de resto, qualquer referência a um comentário semelhante por parte da deputada do Bloco de Esquerda.

Depois, é certo que o Bloco de Esquerda esteve ao lado do Governo quando, em abril, criou um regime excecional para a libertação de presos devido à sobrelotação das prisões e ao risco elevado de contágio da Covid-19 dentro das prisões. Mas nunca o Bloco de Esquerda, através de Mariana Mortágua ou de outro dirigente, comparou a proteção dada aos idosos com a proteção devida aos reclusos, nem sugeriu a nacionalização de hospitais privados para esse fim. A proposta do Governo que previa a hipótese de indultos, a redução de algumas penas ou a antecipação da liberdade condicional, assim com o perdão de penas de até dois anos ou a libertação antecipada de presos que só tivessem mais dois anos para cumprir, foi na altura aprovada com votos a favor do PS, BE, PCP e do PEV e a abstenção do PAN. A direita votou contra.

Na altura, no pico da pandemia, o líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, argumentava que se devia agir já para minimizar o alto contágio nas prisões, sob pena de isso se tornar num “problema de saúde pública” que viesse a fazer a crise “disparar”. “Temos que agir, não faz sentido manter-se tudo como está quando já vemos que há contaminações no espaço do universo prisional, que isso implica a existência de planos de contingência, a possibilidade de separação de presos infetados de outros presos, garantir áreas para esse plano, e que isso é extremamente difícil num contexto de sobrelotação das prisões”, disse Pedro Filipe Soares, no momento em que a lei estava a ser discutida.

A suposta defesa da nacionalização de hospitais privados para tratar presos com Covid-19 também não corresponde à verdade. Uma das batalhas do Bloco de Esquerda no pico da pandemia, em abril, foi a requisição dos hospitais privados por parte do Estado, de forma a retirar pressão ao internamento hospitalar público. Mas uma coisa nada tem a ver com a outra. Catarina Martins chegou a alertar, num vídeo então divulgado à comunicação social, que havia hospitais privados a fechar devido à Covid-19, como o SAMS (que fechou a 21 de março) ou o Hospital Trofa Saúde, em Famalicão. A coordenadora do Bloco sugeria, com isso, que o Estado devia avançar com uma requisição civil a essas clínicas e hospitais privados para tratar doentes Covid, em vez de o SNS estar sobrecarregado e de as autarquias estarem a montar hospitais de campanha em ginásios e outro tipo de instalações mais precárias.

Conclusão

A frase não pode ser atribuída a Mariana Mortágua, que não a disse nem nunca disse nada semelhante. O Bloco de Esquerda sempre defendeu que o Estado devia abrir caminho à requisição de hospitais privados — como o SAMS ou o Trofa Saúde, que fecharam portas na pandemia –, mas não para tratar reclusos. Também é verdade que o BE, assim como o PS, o PCP e o PEV, aprovou, em abril, a medida do governo de criação de um regime excecional para a libertação de presos devido à sobrelotação das prisões e ao risco elevado de contágio da Covid-19. Mas nunca o BE comparou os presos aos cuidados a ter com os idosos. A citação atribuída a Mariana Mortágua não tem data nem local em que terá sido proferida, o que também é um indício de que se trata de uma publicação falsa. Isso mesmo confirmou a deputada e a assessoria de imprensa do Bloco de Esquerda ao Observador.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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