A série “Adolescência” já é uma das mais vistas de todos os tempos na plataforma de streaming em que está disponível, a Netflix. Popularizou-se nas últimas semanas, de tal forma que se tornou tema de conversa em quase todo o lado. Nas redes sociais, é debatido o seu conteúdo e, mais concretamente, a inspiração para a sua criação.

“Adolescência aborda os desafios enfrentados por um pai cujo filho é preso pelo assassinato de uma adolescente em Liverpool, na Inglaterra”, destaca-se numa publicação no Instagram, datada de 21 de março.

Alega-se ainda que é “inspirada nos assassinatos de Ava White e Elianne Andam” e que “a produção modificou aspetos essenciais de uma dessas histórias: na vida real, Elianne foi morta por um homem negro viciado em drogas“.

“Na série, por sua vez, o assassino é representado como um adolescente branco e de ‘perfil conservador’, conforme a descrição da própria produção”, refere-se ainda no post, que chega mesmo a citar uma suposta entrevista de Stephen Graham, um dos atores principais da minissérie, da qual também é argumentista.

“Ele afirmou que Adolescência se propõe a ‘examinar a influência das redes sociais sobre os jovens e como essas plataformas os expõem a visões extremas'”, lê-se por fim na publicação.

As especulações que associam a série a episódios concretos da vida real não têm, no entanto, fundamento.

Quem o diz são os próprios criadores — negam que a peça de ficção seja baseada numa história real específica, embora a base da narrativa revele aspetos fundamentais da sociedade atual, que se repercute no comportamento dos mais jovens. Nomeadamente, a atração de vários jovens (rapazes) pela ideologia incel e da “manosfera”, propagadas online, em que se promove o discurso contra as mulheres, vistas como objetos.

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Jack Thorne, um dos argumentista de “Adolescência”, rejeitou as alegações de que a série se baseia num crime real cometido por uma criança negra. Uma teoria que acabou por ser amplificada por Elon Musk nas redes sociais, que tem partilhado e reagido a publicações que continuam a defender esta ideia, mesmo depois de serem os próprios criadores a recusá-la.

Questionado diretamente sobre as acusações de uma alegada “troca de raça” do protagonista da série no podcast “The News Agents”, Thorne garante que as mesmas não poderiam “estar mais longe da verdade”.

“É absurdo dizer que [os crimes com facas] são cometidos apenas por rapazes negros. É absurdo. Não é verdade. E a história mostra muitos casos de crianças de todas as raças que cometem estes crimes. Não marcámos um ponto sobre a raça com isto”, defendeu o argumentista britânico, citado pela Variety.

Thorne garantiu mesmo: “Não há nenhuma parte disto que seja baseada numa história real, nem uma única parte”. “Estamos a marcar um ponto sobre a masculinidade. Estamos a tentar entrar num problema. Não estamos a dizer que isto é uma coisa ou outra, estamos a dizer que isto é sobre rapazes“, acrescentou.

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Desde o lançamento da série em quatro episódios, os seus criadores insistem que a história foi inspirada em incidentes ocorridos no Reino Unido nos últimos anos, mas não baseada num crime individual.

Stephen Graham, que tem sido citado nas redes sociais, e que interpreta o pai de Jamie, Eddie Miller, na série explicou que a inspiração para “Adolescência” veio de um conjunto de notícias trágicas que envolvem adolescentes agressores e vítimas no país.

Numa recente entrevista à Radio Times, Graham refere “um incidente em Liverpool, com uma jovem rapariga, que foi esfaqueada até à morte por um jovem rapaz”. “Só pensei, porquê?”, refere.

Depois, menciona um caso com outra “jovem no sul de Londres que foi esfaqueada até à morte numa paragem de autocarro”.

“E houve esta coisa no norte, em que aquela jovem Brianna Ghey foi atraída para o parque por dois adolescentes, e eles esfaquearam-na. Eu só pensei, o que é que está a acontecer? O que é isto que está a acontecer?”, questionou novamente.

“Adolescência”: uma tragédia familiar devastadora em quatro episódios

Ou seja, refere-se a vário casos que serviram de inspiração, pela repetição dos crimes — assassinatos –, pela tipologia de vítimas — mulheres — e sobretudo pela tipologia de autores — todos eles jovens rapazes.

Conclusão

É portanto falso que a série “Adolescência” da Netflix tenha sido inspirada numa história real de um jovem assassino negro “que foi transformado em branco”, como se alega nas redes sociais há várias semanas. Os argumentistas da série começaram por referir, logo nas entrevistas após a estreia, que a obra de ficção não tinha uma inspiração específica, mas que se referia, sim, a um tipo de crimes cometidos por jovens rapazes contra jovens raparigas.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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