A suposta relação entre imigração e segurança continua a ser um tema de debate nas redes sociais. A esse propósito, no Facebook, algumas publicações partilham a notícia da morte na Póvoa de Varzim de um cidadão brasileiro. Mas com um senão: as publicações falam de um “tiroteio entre imigrantes brasileiros legais e trabalhadores“.
Será verdade? Quanto à morte não há dúvidas. As notícias do dia 10 de agosto (mesma data da publicação) de vários meios de comunicação confirmam que um homem com 30 anos, de nacionalidade brasileira, foi morto na Póvoa de Varzim. Fontes da investigação detalham o caso ao Diário de Notícias: a vítima foi morta com “cinco tiros à queima-roupa”, o caso “estará relacionado com o tráfico de droga” e “poderá ter-se tratado de um ajuste de contas dentro de uma organização criminosa”.
Ainda assim ao DN, a Polícia Judiciária não confirma o número nem a nacionalidade dos suspeitos.
Avançamos na cronologia deste caso. Um dia depois, o Jornal de Notícias partilha a identidade da vítima que foi morta nas ruas da Póvoa de Varzim: Rafael Lourenço, tinha 35 anos e era procurado pelas autoridades brasileiras. De acordo com o JN, as autoridades portuguesas também já tinham sinalizado Rafael Lourenço por “tráfico de droga”.
Nenhum suspeito foi detido, e a notícia volta a não mencionar a nacionalidade dos suspeitos. E no dia 16 de agosto, o JN voltava a escrever que a PJ já tinha identificado dois suspeitos da morte do cidadão brasileiro Rafael Lourenço, dois cidadãos de nacionalidade brasileira.
Mas há várias imprecisões na forma como a informação é apresentada. Nada indica que os cidadãos de nacionalidade brasileira sejam de facto imigrantes (e nenhuma notícia utiliza esse termo, apenas as publicações nas redes sociais). Ou seja, a imagem partilhada é verdadeira assim como a morte de Rafael Lourenço. Tanto a vítima como os suspeitos têm nacionalidade brasileira. Mas isso não significa que sejam imigrantes ou trabalhadores brasileiros.
Aliás, Rafael Lourenço, nascido na cidade de Curitiba, no Paraná – e descrito pelas autoridades brasileiras como um dos maiores traficantes do bairro onde nasceu a organização criminosa a que pertencia – tinha-se refugiado em Portugal nos últimos meses, confirmou a Polícia Judiciária ao Observador.
As imprecisões não ficam pelo estatuto da vítima e dos suspeitos do seu homicídio. Também o contorno da morte, não pode ser classificada como um tiroteio quando, na verdade, apenas a vítima foi atingida por vários tiros à queima-roupa, sendo na prática executada.
Conclusão
A publicação tem informação verdadeira e informação enganadora. É verdade que houve uma morte, mas decorrente de tiros à queima-roupa e não de um tiroteio, nas ruas da Póvoa de Varzim. Além disso, a vítima era um criminoso brasileiro que estava a fugir das autoridades do Brasil em Portugal. A informação enganadora decorre da forma como o conteúdo é apresentado nas redes sociais, ao indicar que tanto a vítima como os homicidas são “imigrantes brasileiros legais” e “trabalhadores” sem nacionalidade mencionada, quando suspeitos e vítima na verdade têm apenas uma nacionalidade estrangeira e são ligados a entidades criminosas internacionais.
Quanto à relação entre o crime e a imigração, tem sido desmentida pelos factos e por personalidades como o diretor nacional da Polícia Judiciária.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ENGANADOR
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.