Passava pouco das 5h de domingo quando o som de tiros ecoou na Rua Artur Aires, no centro da Póvoa de Varzim. Quando os agentes da PSP chegaram ao local, pouco depois, já só encontraram o corpo de Rafael Lourenço, um homem de 35 anos que estava em fuga às autoridades do Brasil após uma megaoperação da Polícia Civil. O “velho conhecido da polícia” brasileira, que chegou a ser detido múltiplas vezes, incluindo numa festa de aniversário, liderava, segundo a imprensa do país, uma rede de tráfico de droga que nasceu num dos maiores bairros da cidade de Curitiba, no Paraná. Nos últimos meses, confirmou a Polícia Judiciária ao Observador, tinha-se refugiado em Portugal.
O traficante foi morto com cinco tiros — quatro nas costas e um na nuca —, segundo avançou o Jornal de Notícias. Mas terá havido mais disparos: 13 no total, refere o Correio da Manhã. Uma execução como esta, que aconteceu numa zona muito movimentada, particularmente no verão, é algo “raro” em Portugal, sublinhou ao Observador Hugo Costeira, especialista em segurança interna: “Não é comum termos este género de ajustes de contas a céu aberto”.
Hugo Costeira nota, no entanto, que devido à sua posição como “porta de entrada na Europa”, Portugal tem atraído vários grupos e indivíduos envolvidos no tráfico de droga, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) — a maior organização criminosa do Brasil, com origem em São Paulo — ou o Comando Vermelho — grupo que nasceu no Rio de Janeiro. “Temos aqui grupos mais pequenos, maiores, mais organizados, menos organizados, alguns até de forma temporária a vir operar em Portugal”, refere.
O ex-presidente do Observatório de Segurança Interna (OSI) não considera que atualmente a presença destes grupos seja um “problema grave”, mas sublinha a importância de estar atento a esta tendência, analisá-la e combatê-la para que não alcance outras proporções. Hugo Costeira destaca que nesta frente a PJ tem tido um desempenho positivo e lembra, a esse propósito, recentes operações de sucesso, como a “Squid”, que em março deste ano resultou na apreensão de mais de 1.300 quilos de cocaína, dissimulada em peixe congelado.
Costeira nota, no entanto, que as forças como a PSP podem não estar tão preparadas para lidar com este tipo de violência, nem possuem os equipamentos necessários, como bodycams ou coletes balísticos. “Imagine-se o que era na Póvoa de Varzim dois ou três patrulheiros surpreenderem um grupo a fazer aquele trabalho. Já imaginou o tiroteio que seria ali numa zona turística? Porque são pessoas que, obviamente, iam responder a tiro contra as polícias, que não se iam deixar prender, porque não estão habituadas a isso”, aponta. “Temos de olhar para os nossos polícias e perceber que para enfrentarem aquilo que está a acontecer no século XXI precisam pelo menos de mais equipamento e de mais formação”, defende.
O “velho conhecido” da polícia que se transformou num dos maiores traficantes do Cajuru
Rafael Lourenço, mais conhecido como “Rafinha”, estava na Avenida do Repatriamento dos Poveiros quando foi baleado pela primeira vez na madrugada de domingo. Um dos disparos, escreveu o JN, atingiu e partiu o vidro de uma paragem de autocarro próxima. Segundo a descrição do jornal, o homem de 35 anos conseguiu fugir para uma viela que desemboca na Rua Artur Aires, junto ao Póvoa Arena, um espaço de eventos que nasceu da reconversão da antiga praça de touros local. Percorreu cerca de 200 metros antes de ser atingido na cabeça, quando se aproximava do carro, estacionado cerca de 20 metros à frente, numa zona destinada ao carregamento de carros elétricos.
Ao todo, acrescenta o Correio da Manhã, terão sido feitos 13 disparos — sete tiros atingiram o traficante. Nesta fase, diz o mesmo jornal, as autoridades acreditam que havia pelo menos dois atacantes, que fugiram do local de carro, como também disseram ao JN ter testemunhado alguns moradores. No veículo de Rafael Lourenço foi encontrado um dispositivo GPS, que se desconfia ter sido colocado pelos executores.
Ao Observador, a PJ confirma que Rafinha estava há alguns meses a viver em Portugal, remetendo mais esclarecimentos para uma fase posterior para não prejudicar o decorrer da investigação. O registo criminal do traficante era extenso.
Homem com cerca de 30 anos morto a tiro no centro da Póvoa de Varzim
À SIC, Victor Loureiro, Delegado Chefe do Núcleo da Região Metropolitana de Curitiba – Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc), detalhou que Rafael Lourenço esteve preso pela primeira vez em 2009, por crimes que iam do tráfico de droga à corrupção passiva. Teria 19 anos. O agente também o implicou pelo crime de homicídio mas, ao mesmo canal, a advogada explicou que Rafael Lourenço não tinha sido condenado por este crime por falta de provas. O agente da polícia relatou que “Rafinha” fugiu da prisão, não tendo cumprido esta primeira pena até ao fim.
Em 2014, o jornal Tribuna do Paraná noticiou a sua detenção, por tráfico de droga. As autoridades descobriram que estaria presente numa festa de aniversário no Cajuru e foi lá que o intercetaram. “Ele é um traficante velho conhecido da polícia”, comentou na altura o delegado Matheus Laiola do Cope ao Tribuna. Em 2017 o homem já era descrito por outro delegado, Rodrigo Brown, como um dos maiores traficantes do Cajuru“. Nesse ano foi novamente preso, dessa vez sob suspeita de ter assassinado dois anos antes um casal num restaurante: segundo o delegado Victor Loureiro, Rafael Lourenço acabou alvo de um novo processo, mas por porte ilegal de arma de fogo.
O homem pertencia, segundo uma série de investigação da televisão brasileira RicTV, a uma organização criminosa suspeita de tráfico de droga, lavagem de dinheiro e homicídios. A rede foi investigada pela Polícia Civil durante a chamada “Operação Fantasma”. Denominação que seria utilizada pela RicTV para nomear as reportagens sobre o grupo: “Fantasmas do Cajuru”.
O último capítulo da vida do traficante, sobre o qual pouco se sabe, foi passado em Portugal, onde estaria a viver desde abril, segundo o JN. Estava a fugir à polícia brasileira na sequência da grande operação da Polícia Civil e, continua o JN, já tinha sido sinalizado pelas autoridades portuguesas por tráfico de droga. No entanto, na altura ainda não existiam provas que justificassem a sua detenção.
Do tráfico de droga e homicídios ao vazio na liderança. Quem são os “Fantasmas do Cajuru”
O atirador está disfarçado. São 14h23 e as câmaras do parque de estacionamento do centro comercial Pátio Altiplano, em Paraíba, mostram-no a aproximar-se da caixa de pagamento vestido de funcionário da recolha de lixo. Na cabeça traz um chapéu de palha, que lhe oculta a maior parte do rosto. Cerca de 20 minutos depois, uma outra câmara capta o momento em que aponta uma arma ao líder de uma organização criminosa que opera há mais de vinte anos desde a cidade brasileira de Curitiba. Entre ele e o cúmplice são feitos 20 disparos contra a vítima, Bruno Gustavo Felisbino, de 36 anos. O parceiro, Rafael Lourenço, também estava no centro comercial, mas ainda não tinha descido para o estacionamento: foi isso que o salvou.
As imagens, captadas a 28 de abril de 2024, foram obtidas pela televisão brasileira RicTV para a série de reportagens emitidas sobre o grupo, investigado pela Divisão de Narcóticos da Polícia Civil do Paraná ao longo de quatro anos por tráfico de droga, lavagem de dinheiro e homicídios. Em 2024, a “Operação Fantasma” permitiu desvendar “um dos maiores esquemas de tráfico já registados no Paraná”, noticiou a RicTV em abril deste ano.
▲ A rede a que Rafael Lourenço pertencia foi investigada pela Polícia Civil do Paraná
Polícia Civil do Paraná
“Eles eram muito inteligentes, tinham uma estrutura muito bem definida para ocultar património e dados pessoais em vários sistemas. Usavam documentos de terceiros para constituir empresas, para registar cadastro em diversos tipos de companhias estatais”, disse na altura à televisão Victor Loureiro.
A execução de Bruno Felisbino, conhecido como “Negão”, criou um vazio de poder na rede de tráfico de droga, que nasceu no bairro de Cajuru, o terceiro mais populoso da cidade de Curitiba — com mais de 90 mil habitantes — e também um dos mais perigosos. “Ele deixou sim pessoas muito fortes ligadas a ele ainda operando pelo grupo e as investigações vão conseguir definir de facto se esses mesmos traficantes continuam dominando a região ou não”, chegou a sublinhar o delegado Victor Loureiro.
Segundo a RicTV, após a morte do traficante emergiram três figuras-chave na liderança da organização criminosa. Uma delas era Romulo Alves Faria, conhecido pela alcunha “Bem Bom”. Suspeito de assassinato, esteve largos meses fugido à polícia brasileira. Acabou por ser detido a 26 de fevereiro de 2025, depois de ser detetado por um sistema de reconhecimento facial em São Paulo.
Helder Felisbino dos Santos, ou “Mãozinha”, irmão de Bruno Felisbino, também ganhou proeminência. O Metrópoles noticiou que o jovem, de 26 anos, foi morto a tiro em São Paulo a 7 de março deste ano quando esperava para fazer um exame de condução, no qual se tinha inscrito com documentos de identificação falsos. O mesmo jornal refere que a execução foi atribuída pelas polícias de São Paulo e do Paraná a uma disputa entre gangues de Curitiba por pontos de venda de drogas na cidade. Os suspeitos viriam a ser detidos precisamente nessa cidade.
Além de Romulo Faria e Helder dos Santos, também Rafael Lourenço ganhou destaque, mais ainda depois da prisão e execução dos traficantes. Foi pela altura da mudança na liderança que, diz a RicTV, a Polícia Civil descobriu que a organização criminosa já estava envolvida no tráfico internacional de droga, “sendo um grupo com grande participação de exportação de cocaína para outros países, como Portugal e Itália”.
O tráfico de droga era apenas parte do negócio. O grupo terá promovido a lavagem de 275 milhões de reais (cerca de 43,5 milhões de euros) só entre 2019 e 2024 “por meio de empresas de revenda de veículos de luxo, lojas no ramo alimentício e barbearias localizadas em Curitiba, Santa Catarina e São Paulo”, indicou a Polícia Civil do Paraná num comunicado divulgado no ano passado a propósito da detenção de 21 elementos da organização criminosa.
▲ Os traficantes tinham mansões e casas luxuosas
Polícia Civil do Paraná
“Pessoas físicas e jurídicas eram utilizadas por esses traficantes para dar uma falsa aparência de legalidade nas movimentações financeiras de todos os investigados. Eles viviam uma vida de luxo, mas tudo era permitido a partir dessa movimentação financeira através de empresas de revenda de veículos, mercados, lanchonetes e barbearias”, lia-se na nota, que citava o delegado Victor Loureiro. “Tendo poder financeiro, eles conseguem se reerguer depois de eventual ação da polícia. Justamente descapitalizando o grupo, eles ficam sem poder de negociação para continuar negociando o transporte de drogas. Sem o poder financeiro eles não conseguem financiar armas e dar a magnitude de uma organização criminosa e a periculosidade para se manter atuante”, acrescentava.
A Polícia Civil também apontou o envolvimento do grupo em homicídios, nomeadamente de narcotraficantes rivais, motivados pela disputa pelo controlo do tráfico de drogas no bairro de Cajuru. Suspeita-se do envolvimento de elementos da rede em pelo menos sete homicídios em Curitiba.
O comunicado não especifica os casos em questão, mas, segundo a RicTV, as autoridades têm indícios do envolvimento do grupo na morte de dois ex-polícias militares, ambos afastados da corporação: Anderson Lobrigatte, de 38 anos e expulso por desvios de conduta; e Marcelo Saladini, por estar a ser investigado por tráfico de droga e homicídio. O primeiro foi morto quando conduzia um carro de luxo semiblindado. Foram disparados mais de 140 tiros de um fuzil ou espingarda de assalto contra o automóvel, escreveu o Globo em fevereiro. Menos de duas semanas antes tinha sido assassinado Marcelo Saladini, morto com mais de 40 tiros quando chegava a casa, em Curitiba.
A morte de Rafael Lourenço poderá agora voltar a criar um vazio de poder na organização criminosa, que a Polícia Civil tem procurado abalar através de detenções e a apreensão de bens e tem vindo a perder vários elementos, assassinados por rivais e detidos pelas autoridades. Para já nada se sabe sobre quem poderá suceder na liderança ou qual será o futuro do grupo.
[Um homem desobedece às ordens dos terroristas e da polícia e entra sozinho na embaixada. Momentos depois, ouve-se uma enorme explosão. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto a embaixada turca em Lisboa e uma execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o quarto episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]