A publicação em análise é extensa, mas o conteúdo replica os argumentos de um vídeo de uma osteopata norte-americana, publicado em junho e já desmentido por vários verificadores de factos e até pela agência de notícias Reuters. Carrie Madej, a osteopata, tem-se dedicado a uma ampla campanha de divulgação de conteúdos nas redes sociais que misturam informações verdadeiras com falsidades, o que tem contribuído para aumentar os receios em torno das vacinas que estão a ser desenvolvidas contra a Covid-19.

Publicação no Facebook com conteúdo falso sobre vacinas que usam tecnologia mRNA

Num dos vídeos publicados por Carrie Madej, a osteopata norte-americana alerta para o perigo de a vacina mRNA poder “alterar o ADN humano” o que, argumenta agora o utilizador do Facebook, permitirá transformar o ADN “literalmente numa linha celular única que pode ser patenteada por empresas”. E acrescenta ainda: “Uma vez injetadas, as linhas de células humanas irão tornar-se propriedade passível de patente das empresas de biotecnologia”. E não fica por aqui: “Esta é a forma definitiva de escravidão humana e atualmente está a ser ordenada através do medo e da coerção.” Argumentos ficcionados? Sim.

Na realidade, o que se passa está bastante longe de poder transformar o ADN do ser humano “numa linha de células humanas que podem ser patenteadas por empresas”. É verdade que, das centenas de vacinas que estão a ser desenvolvidas, segundo a última atualização da OMS, algumas dezenas usam a tecnologia mRNA, entre elas a da Moderna, que já se encontra na fase III, com o objetivo de ser testada em cerca de 30 mil voluntários nos Estados Unidos da América. Mas isso não é sinónimo de alteração do ADN humano. É certo que é a primeira vez em que está a ser testada em humanos uma vacina com recurso a esta tecnologia, mas o código que é modificado é o de uma molécula da bactéria e não do ser humano.

O mecanismo mais tradicional por trás do desenvolvimento de uma vacina é usar o próprio vírus ou bactéria — numa versão não ativa ou atenuada — para que o organismo da pessoa possa reagir e responder à infeção. No caso da vacina que está a ser testada pela farmacêutica Moderna ou pela Pfizer, não é o agente da doença que é introduzido através da vacina, mas sim uma molécula geneticamente modificada que irá produzir uma determinada parte do microorganismo e estimular a produção de defesas contra o agente infeccioso. Essa é, aliás, de acordo com a OMS, uma das vantagens desta vacina. Eliminando a necessidade de inserir o agente infeccioso no corpo humano, é ainda mais fácil de produzir em larga escala que as restantes soluções em desenvolvimento. Ainda que seja a primeira vez que está a ser testada em humanos, este tipo de vacinas já foram utilizadas para conferir imunidade contra outras doenças em animais.

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À Associated Press, Brent R. Stockwell, professor de biologia e química da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, explica que as vacinas com tecnologia MRNA funcionam através da introdução de uma molécula de RNA mensageiro no corpo. Esse processo dá origem à resposta das células, que produzem uma proteína semelhante a uma das proteínas virais que compõem o Sars-Cov-2, responsável pela Covid-19.

“As suas células imunológicas reconhecem a proteína viral e geram uma resposta imunológica contra ela, principalmente pela geração de anticorpos que reconhecem a proteína viral”, explicou o especialista à AP, acrescentando que há preocupações com as vacinas mRNA: “Nomeadamente, o grau, a duração de proteção e possíveis efeitos secundários.” Mas, garante Stockwell, “a modificação do ADN não é uma delas [das preocupações]”.

Já o pneumologista na Cleveland Clinic, Dan Culver, rejeita completamente a ideia de que uma vacina mRNA possa alterar o ADN humano. “Isso não pode mudar a sua composição genética”, afirmou o médico. “O tempo que esse RNA sobrevive nas células é relativamente curto, [apenas] algumas horas. O que realmente faz é colocar uma receita na célula que vai produzir proteína durante algumas horas”, esclareceu.

Já o investigador Mark Lynas, do grupo Alliance for Science da Universidade Cornell, afirmou à Reuters que “nenhuma vacina pode modificar geneticamente o ADN humano”.

“Isso é apenas um mito, muitas vezes difundido intencionalmente por ativistas antivacinação para gerar deliberadamente confusão e desconfiança”, afirmou o especialista. Cornell acrescenta que “a modificação genética envolveria a inserção deliberada do ADN estranho no núcleo de uma célula humana” e que “as vacinas não fazem isso”. “As vacinas atuam treinando o sistema imunológico a reconhecer um elemento patogéneo, quando ele tenta infetar o corpo”, reforçou.

“O ADN [nas vacinas de ADN] não se integra no núcleo da célula, não se trata de modificação genética. Se as células se dividirem, vão incluir apenas o seu ADN natural. Mas esta abordagem é incrivelmente promissora para a Covid-19 porque pode ser ampliada muito rapidamente e é muito versátil. É fácil produzir sequências de ADN sinteticamente que correspondam aos bits necessários do código genético viral”, clarificou Mark Lynas.

Conclusão

É falso que as vacinas mRNA possam alterar o ADN do ser humano. Há várias publicações nas redes sociais que apontam nesse sentido, incluindo a de uma osteopata norte-americana que tem feito uma ampla campanha contra a vacinação — que ainda nem existe — para prevenir a Covid-19, mas vários especialistas já ouvidos negam a hipótese de que as vacinas possam alterar o código genético do ser humano. Ainda que seja a primeira vez que as vacinas mRNA estejam a ser testadas em seres humanos, estas já apresentaram resultados promissores nos animais e a possibilidade de produção em larga escala (caso revelem resultados positivos) é um dos grandes pontos a favor no desenvolvimento de vacinas com esta tecnologia para combater a pandemia que em poucos meses se espalhou por todo o mundo, tendo causado já mais de um milhão de mortos.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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