O diálogo surge em forma de meme numa publicação de Facebook entre o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, e o primeiro-ministro, António Costa. Jerónimo aparece como se estivesse a discursar e diz: “Nem mais um euro para a banca!!!” Num segundo plano, como se estivesse a falar atrás de Jerónimo, aparece uma imagem do primeiro-ministro com a frase: “Então não vai haver festinha do avante.” Uma segunda imagem em baixo mostra um Jerónimo de Sousa mais resignado e a resposta: “Ok… mas só estes 850 milhões.”

O banco a que se refere esta publicação será o Novo Banco, que recebeu, de facto, uma transferência de 850 milhões de euros do Fundo de Resolução, num processo que suscitou várias críticas da oposição (apesar de se tratar de um empréstimo previsto). Mas essa transferência aconteceu em maio — numa altura em que ainda se aguardavam as conclusões da auditoria feita àquela entidade bancária.

A publicação que sugere um “favor” de Jerónimo ao Governo só surgiria três meses mais tarde, em meados de agosto, já muito próxima da altura em que se realiza a Festa do Avante, o maior evento político e cultural promovido pelo PCP, que decorre no primeiro fim de semana de setembro e que este ano esteve envolvido em polémica por ocorrer em plena pandemia da Covid-19. Muitas vozes se ergueram contra a sua realização e muitas outras contra a posição pública de Costa, que disse sempre que nunca iria proibir um evento político, embora defendendo que o evento fosse sujeito às regras definidas pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

O primeiro-ministro, António Costa, disse, ainda em maio, não lhe passar “pela cabeça proibir a atividade política”, em resposta a uma pergunta sobre a polémica à volta da possibilidade de realização da Festa do Avante. O PCP manteve sempre que a evento não era “um simples festival de música”.

Foi também nesse mês, recorde-se, que o PCP questionou o ministro das Finanças sobre a injeção dos 850 milhões de euros no Novo Banco — criado para ficar com os ativos bons do Banco Espírito Santo (BES). Nos dias que se seguiram, aliás, o secretário-geral do PCP criticou várias vezes a transferência daquele montante para o Novo Banco, afirmando mesmo que este valor daria para “resolver metade dos problemas sociais que, neste momento, existem”.

“Tantas vezes nos dizem que não há dinheiro para acudir aos problemas dos trabalhadores do nosso povo, mas a verdade é que nunca falta para acudir à banca, como aconteceu há dias, com a transferência para o Novo Banco de mais de 850 milhões de euros”, chegou a dizer Jerónimo de Sousa, considerando mesmo a “situação inaceitável”.

No final desse mês, o PCP avançou com um projeto lei de integração do banco na esfera pública. Foi a quarta vez que o partido apresentou essa proposta, sustentando que o banco, depois de nacionalizado, deveria ser reorientado para o retalho e para o apoio às empresas mais pequenas.

Desde a decisão de resolução do banco, em 2014, decidida pelo Governo de Pedro Passos Coelho e pelo Banco de Portugal, o Estado, chegou a argumentar Jerónimo de Sousa, já pagou quase 8 mil milhões de euros “por um banco do qual não retira dividendos e sobre o qual nada pode decidir, apesar de deter, através do Fundo de Resolução, 25% da instituição”. O secretário-geral do PCP defendeu, inclusive, a ideia de que, “se é o Estado quem paga as contas do Novo Banco, deve ser o Estado a controlar os seus destinos.” Esta é a “única solução para o controlo de uma instituição financeira que desacredita a justiça, o sistema financeiro e a vida democrática”.

Já durante o mês de agosto, o PCP reuniu-se com a DGS para definir as regras para a realização do festival. E, no final do mês, foi o próprio António Costa quem anunciou que as regras estabelecidas por aquela autoridade de saúde já estavam estipuladas. Ainda assim, a lotação fixada pelas autoridades de saúde não era aquela que o partido de Jerónimo pensava vir a ter. A DGS determinou que fosse reduzida a metade do habitual, passando dos 33 mil participantes para os 16.563 pessoas, a par de outras regras às quais já nos habituámos, como o uso de máscara, o distanciamento social e a higienização constante das mãos.

Conclusão

A injeção de 850 milhões de euros no Novo Banco foi feita em maio e o PCP manifestou-se imediatamente contra, com várias manifestações públicas a demonstrá-lo e com a apresentação de um projeto lei, no final desse mês, a pedir a nacionalização do banco. António Costa nunca proibiu a realização do Avante por, como disse, ser um evento político, e deixou nas mãos da DGS essa decisão, assim como a definição das regras que teriam de ser cumpridas, caso o evento avançasse. O PCP pensou sempre que poderia ter 33 mil pessoas no recinto e acabou por ter que receber apenas metade, por decisão das autoridades de saúde.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com o sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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