Para se juntar às inúmeras ocasiões em que Donald Trump falou da Covid-19 sem parecer ter todos os detalhes necessários, o presidente norte-americano garantiu recentemente que a OMS tinha concordado com ele e que os confinamentos impostos durante a pandemia estariam a “matar os países”. As declarações acabaram por se tornar virais no Facebook, mas esta interpretação não corresponde à realidade

Tudo começou com um tweet, na segunda-feira, 12 de outubro. “A Organização Mundial da Saúde acabou de admitir que eu estava certo. Os confinamentos estão a matar os países pelo mundo inteiro. A cura não pode ser pior do que o problema em si. Abram os vossos estados governadores democratas. Abram Nova Iorque. Uma longa batalha mas finalmente fizeram o que estava certo!”, publicou Donald Trump na rede social.

No mesmo dia, num comício em Sanford, na Florida, o presidente insistiu no mesmo assunto. “[…] a Organização Mundial da Saúde, viram o que aconteceu? Apareceram há pouco a admitir que o Donald Trump estava certo. Os confinamentos estão a causar danos tremendos a estes estados governados por democratas, onde eles [a população] estão fechados, confinados. Taxas de suicídio, taxas de toxicodependência, alcoolismo, mortes de tantas outras formas. Não podem fazer isso. […]”, disse aos 17 minutos de um discurso que durou uma hora.

Os dois momentos, que transmitem a mesma ideia, juntaram-se e propagaram-se nas redes sociais. Apesar de a sua administração ter deixado o poder de decisão nas mãos de cada estado, há meses que Trump insiste na reabertura de escolas — chegou a usar o exemplo do filho, Barron, que teve o novo coronavírus “durante uns dois segundos”, para dizer que o vírus mal afeta os mais jovens —, eventos religiosos e inúmeros setores.

A plataforma de fact check “Politifact” tentou contactar os representantes da Casa Branca para perceber de onde tinham surgido as supostas declarações da OMS que comparariam os confinamentos à morte dos países, mas não obteve resposta.

Em contrapartida, na página de Twitter “Trump War Room” (uma conta que se descreve como “dando destaque às promessas cumpridas de Donald Trump e combatendo fake news”) foi publicado um vídeo com declarações de David Nabarro, um dos enviados especiais destacados pela OMS para lidar com a pandemia atual. O excerto, com cerca de dois minutos (retirados de uma entrevista de 20), pretende dar razão a Donald Trump, mas as palavras por ele referidas nunca são usadas.

“Nós, na OMS, não recomendamos os confinamentos como primeira medida para travar este vírus. O único momento em que acreditamos que se justifica o confinamento é para ganhar tempo para reorganizar, redistribuir recursos, proteger os profissionais de saúde que estão exaustos”, explicou o médico.

Nesse momento estava a responder a uma questão sobre as consequências económicas dos confinamentos e não a falar em termos gerais. “Os meus comentários foram totalmente tirados do contexto. A posição da OMS é consistente”, afirmou David Navarro ao “Politifact”.

Também a Organização Mundial da Saúde se pronunciou, através do gabinete de imprensa. “A nossa opinião sobre os confinamentos e outras restrições severas de movimentos tem sido consistente desde o início. Reconhecemos que têm um custo elevado para a sociedade, economias e indivíduos, mas podem ter de ser usados se a transmissão de Covid-19 estiver fora do controlo”, esclareceu a entidade em comunicado. Também não há qualquer declaração da OMS que dê razão a Donald Trump, como garantiu o presidente dos Estados Unidos da América.

Conclusão

Não é verdade que a Organização Mundial da Saúde tenha dado razão de Donald Trump e muito menos que tenha dito que os “confinamentos estão a matar os países”. Declarações de um especialista da OMS, nas quais o médico analisava os efeitos do confinamento na economia, foram retiradas do contexto. Entidade diz que mantém a mesma opinião desde o início da pandemia: o confinamento tem consequências negativas na economia e na sociedade mas pode ser obrigatório quando a propagação de Covid-19 está descontrolada.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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