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Eu não vou ao psicólogo (ou ao psiquiatra). O psicólogo vem ter comigo ao museu

05 jul. 2023, 22:00
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Mental

Mental

quarta, 05 jul. 2023
Fotografia de Paulo Farinha
Paulo Farinha
Editor de Inovação
Foto da Newsletter

Museu. Jardim. Esplanada. Rua. Levar a saúde mental aonde é preciso

“Foi a primeira vez que aquela pessoa entrou num espaço para ter uma consulta [de psicologia] e não se sentiu como uma doente.”

Arranca assim a reportagem sobre o projeto Consulta sem Paredes que publicámos este fim-de-semana. É uma história de sucesso sobre uma ideia que nasceu em modo experimental há três anos e que, graças a uma equipa de 26 profissionais de saúde mental, já garantiu cerca de quatro mil consultas.

Os números são interessantes, mas o projeto é muito mais: todos estes atos clínicos – de psicologia, psiquiatria, psicoterapia e terapia familiar – foram realizados fora de consultórios. Fora de hospitais. Fora de clínicas. Fora de enfermarias. Todas estas consultas foram realizadas ao ar livre, em museus ou em espaços de criação artística.

“Houve casos em que a consulta foi mais densa e eu chorei ou fiquei mais emocionada e ter gente à volta funcionou como proteção”, disse Micaela Fikoff à jornalista Catarina Pires, que assina o trabalho (com fotografias do Tomás Silva). Micaela é uma das mais de 400 pessoas que já beneficiou da iniciativa, dinamizada  pelos fundadores do projeto Manicómio, que junta arte, criação e saúde mental e cujas raízes têm mais de vinte anos, primeiro no Hospital Júlio de Matos e recentemente num espaço na freguesia do Beato, em Lisboa (onde têm lugar alguns encontros entre terapeutas e pacientes). “Já tive consultas no consultório mas sinto mais à vontade num lugar aberto. A Consulta Sem Paredes é mais acolhedora para mim do que uma sala, ajuda-me a elaborar melhor as ideias, sinto-me menos ameaçada.”

Para quem não conhece o projeto, a reportagem é uma novidade que funciona como pedrada no charco num conjunto de modos de funcionamento que continuam a contribuir para afastar as pessoas dos cuidados de saúde mental, acrescentando estigma onde está já está muito presente e erguendo muros onde estes já são muito altos. Numa área – a saúde mental – que talvez tenha deixado de ser considerada parente paupérrimo na família dos cuidados de saúde primários graças à pandemia de Covid-19 mas que continua a ser negligenciada quando se fala de financiamento ou contratação de profissionais, encontrar outros caminhos para chegar a quem mais precisa é um sinal de esperança.

“Por que não podíamos ter essas consultas com valores mais acessíveis [as consultas custam 35 euros], num sítio bonito, sem listas de espera, num ambiente mais descontraído e numa relação mais horizontal e próxima entre o técnico e a pessoa”, pergunta Catarina Gomes, co-diretora do projeto Manicómio, em jeito de génese da ideia.

E da ideia nasceu o conceito. A partir do conceito foi montado o projeto-piloto. E deste cresceu uma empreitada que, à sua medida e com dificuldades que foram sendo ultrapassadas aos poucos, contribui para aproximar as pessoas dos cuidados de saúde mental de que precisam.

Além de Lisboa (no Beato e no  MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia) e de Cascais (na Casa-Museu dos Condes de Castro Guimarães), o projeto das Consultas sem Paredes deverá chegar a outras regiões do país dentro de alguns meses, com pequenos núcleos de técnicos de saúde mental espalhados por várias regiões.

Terapia online – entretanto normalizada graças à pandemia –, terapia em caminhadas, terapia ao ar livre, terapia em museus, terapia numa esplanada, terapia num jardim, terapia fora do colete de forças (e a metáfora não é inocente) que prende os pacientes a ideias ultrapassadas e pouco acolhedoras sobre a forma como se pode procurar ajuda. As peças vão-se juntando ao longo puzzle da saúde mental que há cem anos ainda chamava os doentes de “alienados” e que desde então deixou de os isolar em “manicómios”, depois em hospitais psiquiátricos, mais tarde em hospitais centrais para situações agudas e hoje – se tudo correr bem – numa ideia de cuidados comunitários de saúde mental. E – se tudo correr ainda melhor – numa ideia que deixará de considerar a psiquiatria como o lado mais grave de um desafio de saúde mental, abraçando a psicologia e a forma como pode ajudar qualquer pessoa a sofrer menos.

Há “consultas sem paredes” em Espanha, em França, no Reino Unido, na Bélgica, nos Estados Unidos, no Zimbabwe, na Austrália. A pesquisa fácil na internet revela soluções, ideias, projetos, iniciativas que contribuem, um pouco por todo o mundo, para aproximar quem precisa de cuidados dos profissionais que podem providenciar esses cuidados. Sem paredes nem muros pelo meio. Apenas pontes. Como esta que contámos nesta reportagem.

Em breve teremos novos artigos sobre saúde mental. Entretanto, estes são os trabalhos mais recentes:

Reportagens

Fotografia
Saúde Mental

A doente que inventava sintomas para ser tratada

A vontade de ajudar a primeira ("e última") paciente com síndrome de Münchhausen levou o psiquiatra João Carlos Melo a uma dedicação que desafia os limites habituais da relação terapêutica.

Fotografia
Saúde Mental

Tratar a saúde mental sem o peso de um consultório

Ir a um consultório para uma consulta de psicologia ou psiquiatria pode ser difícil, por causa do estigma. Neste projeto, as consultas acontecem até ao ar livre. E são mais baratas do que o habitual.

Fotografia
Doenças

O que é neurose? E a psicose?

Explicador. São dois dos termos mais usados para descrever sintomas de doenças mentais, mas o significado é muito distinto: a separá-los está a presença ou ausência de contacto com a realidade.

Fotografia
Saúde Mental

O que é a depressão pós-parto?

As alterações físicas e emocionais resultantes da gravidez e dos primeiros meses de vida do bebé podem conduzir a uma depressão pós-parto. Que doença é esta? Como se identifica? E como se trata?

Fotografia
Saúde Mental

Noruega. Falar de suicídio é forma de o prevenir

Prevenção, informação e comunidade. São estes os três conceitos-chave para lidar com esta questão, garante o diretor do Centro Nacional para o Estudo e Prevenção do Suicídio, na Noruega.

Fotografia
Saúde Mental

Anorexia. A alimentação como fonte do problema

Admitir que há um problema e aceitar perder o controle total sobre o que se come são passos importantes para tratar a bulimia, a anorexia e a alimentação compulsiva, explica o psicólogo Miguel Ricou.

Opinião

Fotografia do Colunista
Eduardo Sá

A depressão nas crianças

A depressão das crianças existe! E não depende exclusivamente dos falhanços dos pais. Mas a nossa atenção é indispensável para que a infelicidade duma criança não se banalize.

Fotografia do Colunista
Armando Soares

Plantas, psicadélicos, som e meditação

Num país deprimido que se vai deslocando para a cauda da Europa, com baixos salários e um Estado muitas das vezes ineficiente, após uma pandemia, muitos portugueses fazem da medicação um hábito diário

Fotografia do Colunista
Manuel Guimarães

Vamos falar de esquizofrenia?

Receber o diagnóstico de esquizofrenia não é uma “sentença”, embora tenha um impacto negativo na vida. Ter uma doença faz parte de quem somos, mas não nos define por completo.

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