No dia de Ano Novo, o País assistiu à despedida de Marcelo Rebelo de Sousa. Como por cá não temos a tradição do farewell address da república americana, e dado o calendário das eleições presidenciais, a despedida pública do Presidente da República em funções acaba por ocorrer no último discurso de Ano Novo do mandato. E Marcelo tinha 10 anos atrás de si. Não é coisa de pouca monta. Mal o País o ouviu, se alguma expectativa restava nas almas ingénuas, foi imediatamente vaporizada.
Não há outra forma de dizer isto, mas Marcelo pura e simplesmente não teve nada para dizer. Absolutamente nada. Acaba os seus mandatos na presidência como os começou: oco. O vazio de 2016 era disfarçado pelo “novo estilo” de fazer política e a onda de popularidade sentimental cultivada pela “proximidade” e por outros truques menos dignos. Havia a Geringonça, o PS com um grupo parlamentar minúsculo dominava o País com o único intuito de satisfazer o ressentimento político mais rasteirinho, e Marcelo foi atrás. Seguiu o mais forte. Porque os fracos receiam sempre os mais fortes. Esse balanço está a ser feito com mais ou menos discernimento e imparcialidade. Falarei sobre isso noutra altura.
Para a história fica um discurso onde Marcelo mais não deu ao País do que uma medíocre sucessão de “mais”, “mais”, “mais” – ao estilo de um vulgar vendedor de um produto de má qualidade. Não sei se Marcelo contraiu ciúmes com o apelo primo-ministerial à “mentalidade do Ronaldo” à escala nacional. De facto, era coisa para sair da boca de Marcelo. Mas Montenegro antecipou-se. E, pasme-se, de Marcelo não restou mais nada. Como um discurso de despedida não podia ter apenas dois minutos de palavras de ordem que nem uma sessão gratuita de discurso motivacional aceitaria, Marcelo pôs-se a ler uma citação interminável da Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queiroz. Na passagem que o Presidente leu penosamente, João Gouveia diz de Gonçalo Mendes Ramires que ele fazia lembrar Portugal. Marcelo julgou que isto que tinha para dizer aos Portugueses que o elegeram, e a todos que ele representou e cujo Estado chefiou por 10 anos, teria algum sentido político. Mas nada. Apenas reciclou a conversa do costume, em que Marcelo trata o País como uma criança problemática que, no entanto, só precisa de encontrar um “rumo” na vida e sobretudo uma palavra de “conforto”.
Repetiu ainda a referência estafada de que nós, Portugueses, por aqui andávamos no mundo há 900 anos. Mas limitou-se a registar o facto, como se mais nada lhe ocorresse além do lugar-comum mais cansadinho do discurso político nacional. Esqueceu-se de, por exemplo, acrescentar porque é que na opinião dele deveríamos persistir nessa aventura. Porque é que tentar sobreviver na história do mundo com uma identidade própria portuguesa, distinta de todas as outras, é uma tarefa digna, nobre ou indispensável. Nada disse sobre o passado e não se atreveu a dizer uma sílaba sobre o futuro. Não lhe ocorreu que as tiradas gratuitas como “somos [os Portugueses] bons” que comovem a acefalia de alguns e lisonjeiam a população, fazendo jus ao sentido originário de demagogo, seriam indignas de um momento solene com o teor de uma despedida política. É verdade que deixámos de ser “os melhores do mundo”, como o Presidente da República apregoava no auge do delírio demagógico do primeiro mandato. Mas ser chefe do Estado durante 10 anos devia ser suficiente para espremer uma mísera linha que fosse sobre o que significa hoje ser um povo com 900 anos.
Marcelo mantém níveis elevados de popularidade, dizem-nos as sondagens. Foi objectivo cumprido, pois nada o assustava mais do que terminar os seus mandatos como Cavaco. Mas não é de hoje que se gosta daquilo que é oco. O entretenimento também é oco. Gosta-se hoje, esquece-se amanhã. A chefia do Estado é outra coisa. Seria bom que os candidatos às próximas eleições percebessem isso.