A União Europeia (UE), em 2025, descobriu estar cercada por agentes hostis. Já conhecíamos a ameaça do Este: as ações disruptivas, as medidas ativas, e um estado de guerra híbrida. No entanto, quando as bombas começaram a cair sobre Kiev, ficou claro que os objetivos de Moscovo eram a desagregação da ordem internacional pós-1945. Voltamos a confrontar-nos com o conceito de fronteiras alteradas pela força. Se Putin tiver sucesso e anexar territórios que não lhe pertencem, cada pequena democracia vizinha a uma grande tirania observará a Ucrânia e perguntará se será a próxima.
Os ucranianos pagaram com sangue por esta educação do Ocidente. Mostraram que democracia, liberdade e esperança devem ser defendidas, e são ideais pelos quais vale a pena morrer. Demonstraram que o mal existe e precisa de ser confrontado, que a coragem é possível, que a resistência funciona, e que pessoas comuns podem enfrentar inimigos poderosos e vencer. Por outro lado, as sociedades ricas e confortáveis responderam ao genocídio com comparações sobre o preço da energia, contrapondo a vida dos ucranianos à taxa de inflação. Em última análise, parecíamos dispostos a sacrificar a liberdade dos outros pelo nosso conforto. Passámos do preço dos ovos ser muito alto para discutir se a capacidade da UE em enfrentar a Rússia é muito difícil ou dispendiosa.
E agora temos a Casa Branca, com ameaças, táticas de intimidação e alinhamentos com quem procura degradar, se não extinguir, a democracia liberal ocidental, substituindo-a por um autoritarismo etno-nacionalista. Fomos apanhados de surpresa. Fomos lentos (enquanto alguns avisavam desde o início) a reagir e persiste a certa tendência de querer manter o status quo, feito de elogios e polegares para cima. Só no final do ano começou a mudar-se mentalidades e atitudes, acompanhando os esforços para preparar a UE para os desafios da segunda metade da década.
A UE, os seus líderes, quem governa as suas instituições, os cidadãos nos Estados Membros têm, para 2026 e para os próximos anos, de entender uma necessidade inevitável: não iremos continuar a ter os benefícios e o conforto que temos, ao mesmo tempo que não fazemos frente a quem nos quer arruinar o nosso modo de vida. Essa é uma postura suicidária. Os nossos adversários vão continuar a exigir que abdiquemos dos nossos valores, das nossas conquistas sociais, da capacidade de escolher o nosso futuro, para seu benefício. Continuarão a fazer tudo para nos verem de joelhos, submetidos aos seus pressupostos de como deve ser a nossa democracia, a nossa economia, a nossa segurança, o nosso mundo digital.
2026 será um ano de resistência para a UE, de continuidade nas mudanças de atitude, de ganho de força e coragem. Um período de compra de tempo, até estarmos mais confiantes, mais armados e mais integrados; até ocorrer uma mudança política nos Estados Unidos, ou uma degradação insustentável da máquina de guerra russa. Mas, acima de tudo, será a oportunidade para que todos compreendam o que está em jogo, o que precisa ser feito e quais os sacrifícios envolvidos. E para agir em conformidade. Se os políticos não entenderem, ficará claro que os cidadãos votarão naqueles que o farão.
Esta não é um sprint até eleições intercalares nos Estados Unidos em novembro, ou até a paz, seguramente ténue, que se possa alcançar na Ucrânia. É uma maratona. Uma maratona para criar uma UE mais potente, mais integrada, mais atuante e, acima de tudo, capaz de assumir o seu lugar na ordem mundial como merecedora e digna herdeira da ordem pós-Segunda Guerra Mundial.