Algo constante desde que Donald Trump se tornou Presidente, primeiro em 2017 e agora em 2025, é a tendência para lhe atribuir mais mérito do que realmente merece, ou uma aura de poder maior do que aquela que de facto tem. Trump é apresentado como um “grande” negociador, um político “astuto”, um agente “transformador”. É verdade que a presidência dos Estados Unidos confere um poder enorme, que Trump tem usado para chantagear, coagir e ameaçar aliados e adversários. Mas a insistência em descrevê-lo como visionário, estratega e coerente, é francamente exagerada e, muitas vezes, abusiva.
Esse exercício repetiu-se no debate em Portugal e na Europa sobre a publicação da mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Escrevi neste espaço que a secção dedicada à Europa lê-se como uma “sequência de tweets de trolls MAGA e das suas fantasias sobre a União Europeia”, ou como um pinned post de Elon Musk. Não é um documento estratégico no sentido clássico do termo, e deveria ser relativizado logo à partida.
Logo na página i, lê-se que “na Operação Midnight Hammer, obliterámos a capacidade de enriquecer urânio”. A afirmação é manifestamente fantasiosa, incluída para agradar a Trump, que passou dias a insistir nesse termo, mesmo contra a avaliação do seu próprio Departamento de Defesa. Não menos ridícula é a passagem segundo a qual “resolvemos oito conflitos em fúria”, uma descrição absurda quando aplicada a tensões diplomáticas e comerciais como as existentes entre o Egito e a Etiópia, a Sérvia e o Kosovo, ou a Arménia e o Azerbaijão.
Ainda assim, este documento tem sido descrito como transformador, revelador de uma direção estratégica da Casa Branca. Isso não impede que seja visto como aquilo que é: um texto mal escrito, pobre em substância e profundamente incongruente no que diz respeito aos próprios Estados Unidos. Veja-se, por exemplo, a afirmação de que “acima de tudo, queremos garantir a sobrevivência e a segurança contínua dos Estados Unidos enquanto república soberana e independente” (p. 3), algo que não se coaduna com a venda de chips Nvidia (H200) de inteligência artificial à Arábia Saudita, aos Emirados Árabes Unidos e à China, nem com o crescente isolamento dos Estados Unidos na ordem mundial.
O mesmo se aplica à promessa que “queremos proteger este país, o seu povo, o seu território, a sua economia e o seu modo de vida de ataques militares e de influência estrangeira hostil, seja espionagem (…)” (p. 3), quando uma das primeiras decisões da Administração Trump, liderada pela Procuradora-Geral Pam Bondi, foi dissolver a Foreign Influence Task Force do Departamento de Justiça, em fevereiro de 2025.
Ou ainda à ambição que “queremos a economia mais forte, mais dinâmica, mais inovadora e mais avançada do mundo” (p. 3). Isso é incompatível com tarifas que condicionam o livre trânsito de bens, degradam a indústria interna e limitam o acesso a mão-de-obra, matérias-primas e mercados externos.
O mesmo observa-se quando se lê que “queremos manter o soft power inigualável dos Estados Unidos, através do qual exercemos uma influência positiva em todo o mundo que promove os nossos interesses” (p. 5), ao mesmo tempo que desmantela a USAID, condenando centenas de milhares de pessoas à morte em África, ou abandona redes de informação livre essenciais para democratas em regimes autoritários.
Podia-se continuar na pobreza da parte do documento relativo a África, ou a defesa da Rússia, ou apenas o foco em questões comerciais com a China. Esta é uma estratégia que não é mais do que um rescaldar do que JD Vance disse na Conferência de Segurança em Munique, ou que o Presidente diz na sua rede social, ou que a Porta-Voz da Casa Branca diz no pódio. Não é um documento trabalhado, coerente ou produtivo. Porém, como tem o Selo do Presidente dos Estados Unidos, tem de ser levado a sério.