A União Europeia (UE) nasceu como um projeto de paz nas décadas após a Segunda Guerra Mundial. Visionários como Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi quiserem unir a França, a Alemanha, e a Itália em processos e instituições comuns, promovendo a cooperação económica e política, prevenindo conflitos e reconstruindo uma Europa devastada. Este projeto envolveu acordos diplomáticos e a criação de estruturas económicas pioneiras, como a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, mais tarde a Comunidade Europeia e agora a EU.
Ao longo de décadas, a UE expandiu-se significativamente, tanto em número de Estados Membros, como na competência institucional. Neste momento, existe uma união política e económica abrangente, um mercado interno robusto, um espaço de circulação de pessoas e capitais, políticas comuns em áreas como agricultura, indústria, ambiente, e uma moeda única que simboliza integração económica. As instituições europeias ganharam poder e visibilidade, transformando a UE numa referência global de integração e estabilidade. Hoje, a UE é muito mais do que apenas um projeto de paz: é uma força de ação capaz de moldar políticas globais e defender interesses comuns num mundo cada vez mais instável.
Este crescimento e consolidação da UE aconteceu, nas últimas décadas, à margem de uma crescente agressividade da Federação Russa sob a liderança de Putin. A aplicação de medidas ativas por parte de Moscovo, no ocidente e no vizinho próximo, vão de encontro a concretizar a visão do presidente russo de corrigir a “maior catástrofe geopolítica do século”: a implosão da União Soviética. Para além das tentativas de destabilização e disrupção houve (e há) também as ações militares na Tchetchénia e na Geórgia, a anexação da Crimeia em 2014, a tentativa de subjugar ou destruir a Ucrânia, e agora a recente violação do espaço aéreo polaco, romeno e estoniano. Estas ações parecem ser parte de uma estratégia de desestabilização, desafiando diretamente a segurança europeia, testando a capacidade da UE de responder de forma coordenada e eficaz.
O fim da pax americana levou a UE a acelerar a criação da sua própria segurança militar, concretizada, entre outras medidas, no plano ReArm Europe Plan/Readiness 2030 (descrito neste espaço). Este plano visa aumentar expressivamente as despesas e capacidades da UE em matéria de defesa, proporcionando aos Estados Membros maior flexibilidade financeira através de cláusulas de derrogação nacionais no Pacto de Estabilidade e Crescimento, e de um novo instrumento de empréstimo de 150 mil milhões de euros, denominado Ação de Segurança para a Europa. O objetivo é mobilizar mais de 800 mil milhões de euros para reforçar esforços conjuntos em defesa, apoiar a indústria europeia de defesa e promover uma autonomia estratégica europeia mais sólida.
Com as ações provocativas de Putin, e com uma óbvia paralisia da NATO por causa da Administração Trump, torna-se óbvio que a UE precisa de ir mais longe. Temos de ser uma união pronta para entrar num conflito dentro do seu espaço para o defender e empurrar o opressor para o seu lugar. Nestas incluem-se, ter uma presença militar na Ucrânia, criação de no fly zones, prontidão para resposta imediata no caso de intrusões nas nossas fronteiras, e tropas em posições defensivas e de contenção. Estas medidas devem ser aplicadas em conjunto com a contínua pressão económica, como é o caso de sanções.
É óbvio que é fácil para um cronista fazer tal apelo, não sendo um líder de governo que tem de lidar com as consequências de tais políticas mais beligerantes. Ações militares mais impactantes podem trazer consequências económicas e políticas, receios de envolvimento em conflito prolongado, esvaziamento da ação da NATO, e maiores dificuldades resultante das dependências energéticas e/ou económicas com Moscovo.
Porém, a falha em evoluir para um projeto de paz que use força proativa não só atrasará a resolução do problema de um vizinho imperialista, como poderá tornar inevitável um confronto com a Rússia dentro das nossas fronteiras.