A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA (National Security Strategy of the United States of America, no original), foi publicada sem grande alarido, mas naturalmente está a ser alvo de atenção e afronta na União Europeia. No que se trata da Europa, este documento é um ato de hostilidade política declarada, sugerindo simultaneamente que a Rússia seja considerada aliada ou até mesmo um parceiro homogéneo no velho continente.

“Os dias em que os Estados Unidos sustentavam toda a ordem mundial como Atlas terminaram” (página 12). Isto vindo de uma administração que se diz Republicana, o partido que escolheu líderes como Ronald Reagan e Dwight D. Eisenhower, ou num país que apresentou ao mundo doutrinas como o Wilsonianismo dos 14 pontos do Presidente Woodrow Wilson, ou o Economic Recovery Act de 1948, mais conhecido como Plano Marshall. Naturalmente que os Estados Unidos nunca tiveram como principal incentivo o altruísmo internacional, mas a reconstrução da Europa, ou princípios como comércio livre, democracias liberais, segurança coletiva, era algo que era visto por consequentes Administrações como de vantagem para os Estados Unidos. Porém, agora a Casa Branca considera que esse mundo deve acabar.

“O nosso objetivo deve ser ajudar a Europa a corrigir a sua trajetória atual,” através do “fomento de resistência à trajetória atual dentro das nações europeias” e que “a crescente influência dos partidos patrióticos europeus é, de facto, motivo para grande otimismo”. Que trajetória atual é esta? O “minar” de liberdade política e soberania. As políticas de emigração, a “censura” à liberdade de expressão, a queda das taxas de natalidade, a “perda” de identidade. O documento lê-se como uma sequência de tweets de trolls MAGA e das suas fantasias sobre uma União Europeia onde a Lei Sharia é a lei da União, os prisioneiros políticos são aqueles que querem promover discurso de ódio e não o podem fazer, e a identidade é etno-nacionalismo que sabemos que resultou em duas grandes guerras.

Não contentes por atacar a União Europeia, também a Ucrânia é, na perspetiva deste documento, para retalhar, se não mesmo capitular totalmente a Moscovo, e exige que os Europeus não só sejam cúmplices, como participantes entusiastas. “A Administração Trump encontra-se em desacordo com os responsáveis europeus que têm expectativas irrealistas para a guerra, empoleirados em governos minoritários instáveis, muitos dos quais atropelam princípios básicos da democracia para reprimir a oposição. Uma grande maioria europeia quer paz, mas esse desejo não se traduz em política, em grande parte devido à subversão dos processos democráticos por parte desses governos”. Vamos parar por um momento antes de continuar no texto (página 26): a maioria europeia quer a paz, sim, mas esta só é concebível com a derrota, ou pelo menos, a retirada total da Rússia da Ucrânia. É essa a paz que os europeus desejam.

Continuando. “Uma política mais alargada para a Europa deve dar como prioritário, o restabelecimento de condições de estabilidade com a Europa e estabilidade estratégica com a Rússia.” Tirando o facto que esta frase parece ter sido escrita por um grande modelo de linguagem, temos aqui o culminar do que tem sido os desejos, mais ou menos declarados do Presidente Trump, de elevar a Rússia de Putin a um estado de legitimidade e poder que a coloca numa situação de poder determinar os termos do que acontece à Ucrânia, e quem sabe, no futuro aos outros países na sua vizinhança.

Finalmente, e para reforçar aquele que é o projeto da destruição da União Europeia como está constituída neste momento, um projeto de união de democracias e valores liberais e democratas, pode-se ler no documento que os Estados Unidos devem: “Permitir que a Europa se torne autossuficiente e funcione como um conjunto de nações soberanas e alinhadas (…)”, sendo necessário “Cultivar a resistência à trajetória atual da Europa no seio das nações europeias”. A sugestão pela Administração Trump que a Europa é melhor como um “conjunto de nações” é um desejo de Putin, que tem alimentado financeira e ideologicamente muitos dos partidos europeus no Grupo Patriotas pela Europa no Parlamento Europeu onde militam partidos declaradamente pró-russos, como o FPÖ da Áustria, Rassemblement National na França, Fidesz da Hungria, e o Lega de Itália (de notar que o Chega também faz parte deste grupo).

A visão desta “União” Europeia será dos mais poderosos a dominar os mais pequenos, com perdas de direitos para europeus, alinhamento com os dois polos iliberais de cada lado do continente, e o estender da oligarquia que existe na Rússia, e se estabelece nos Estados Unidos, onde não existem regulamentações ambientais, ou digitais, ou oposição ao autoritarismo. E temos o trabalho de casa determinado: combater este “cultivo da resistência”, e termos os europeus e os membros da União Europeia a decidir o seu futuro. Só esperamos que os centros de poder da União Europeia comecem a mostrar que estão do mesmo lado da barricada com os cidadãos.