Entre 2004 e 2006 coordenei um projeto de investigação comunitário designado de “Logística da Prevenção e Combate a Fogos Florestais: A Mobilização de Recursos”.

Entre 2004 e 2006 e à medida que íamos avançando com o projeto fizemos, com relevo principal para a Graça Martins (a quem não posso deixar de agradecer o esforço e o empenho por tanto quanto deu ao projeto e à nobre causa do combate a fogos florestais, no terreno e lado a lado com todas as forças de intervenção), uma quantidade de aparições em público e de sensibilizações nada despicienda. Produzimos tantas aparições e tantos avisos e tantas palestras e tantas chamadas de atenção que presumo que já ninguém nos pudesse ouvir na altura.

Entre 2004 e 2006 sentámos à mesma mesa as várias sensibilidades e os vários stakeholders que Portugal conhecia para os fogos florestais. Da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais à Associação Nacional de Freguesias, da Associação Nacional de Municípios Portugueses ao Centro de Requalificação, Validação e Certificação de Competências da Escola Nacional de Bombeiros, da Direção Geral de Recursos Florestais à Guarda Nacional Republicana, das várias Corporações de Bombeiros Municipais a Centros de Operações e Socorro, de várias Câmaras Municipais ao Serviço Nacional de Bombeiros e Proteção Civil, da Federação dos Produtores Florestais de Portugal às universidades, peritos, autores e pessoas ilustres que publicavam sobre fogos. Enfim, uma lista dos participantes não caberia num A4 e todos, mas mesmo todos, partilhavam da mesma preocupação e das conclusões que foram sendo retiradas ao longo do tempo e do estudo. Pudera: na altura vínhamos de um anus horribilis que era o de 2003 que tinha vitimizado 17 pessoas e feito arder perto de 430 mil hectares de terreno em Portugal.

Entre 2004 e 2006 chamámos a atenção para factos complexos mas também para factos notórios e simples, nomeadamente os que comparavam duas realidades distintas: enquanto nos países do Sul da Europa (Espanha, França, Grécia e Itália) as médias das áreas ardidas e o número médio de ocorrências de fogos florestais (variáveis críticas e de fácil análise) foram sendo sustentadamente contidas entre 80 e 89 (primeira década de análise), entre 90 e 99 (segunda década de análise) e entre 2000 e 2005 (seis anos de análise) por aqueles países, em Portugal, a média da área ardida e o número médio de ocorrências veio sempre a aumentar nos mesmos períodos. Na década de 80-89 arderam em média perto de 75 mil hectares por ano em Portugal. Na década de 90-99 arderam em média quase 105 mil hectares por ano. Nos 6 primeiros anos da década de 2000, entre 2000 e 2005, este valor subiu, em média, para cerca de 215 mil hectares ardidos por ano. Grosso modo, o dobro do valor apresentado em termos médios em toda a década anterior.

Mais, nesta última série temporal, de 2000 a 2005, apresentámos um valor de área ardida que representava cerca de 80% da área ardida equivalente à soma dos demais quatro países do sul da Europa no mesmo período temporal.

Em 2005 e a meio do projeto viemos a ter uma fatura em perdas a rondar os cerca de 760 milhões de euros por danos provocados pelo fogo. O valor da área ardida tinha sido menor que em 2003 mas as perdas materiais muitíssimo superiores. E se o valor dos prejuízos foi enorme, nada conseguia apagar as 17 mortes de 2003.

Fora do projeto e no ano passado (2016) chegámos a meio de Agosto (o mês dos fogos) com mais de metade da área ardida de toda a Europa. Ou seja, tinha ardido mais área em Portugal do que tinha ardido em toda a Europa junta.

E ainda mais: em Portugal e no ano passado, 2016, ardeu uma área quatro vezes superior à média da área ardida na série temporal que abarca os anos entre 2008 e 2015.

Este ano, 2017, não sabemos ao que vamos e que áreas iremos contabilizar. É um facto, porém, que já batemos o mais terrível dos records: há mais de 60 vítimas mortais e o Verão ainda só chega amanhã. Imagine-se!

Temperaturas superiores a 30 graus centígrados, valores inferiores a 30 por cento de humidade no ar e ventos com mais de 30 km/hora têm sido o mote para todas as desculpas em todos os anos. Do fenómeno de aquecimento global ao fogo posto e à criminalidade vale tudo para afastar responsabilidades sobre uma desastrosa política urbanística, sobre uma ruinosa política de reflorestação e de limpeza e sobre uma enormidade de erros que se têm cometido por entre as inúmeras entidades intervenientes nestes processos. Quando temos um 30 | 30 | 30 basicamente paralisamos, desresponsabilizamo-nos e desculpabilizamo-nos.

A verdade é só uma e há muitos e muitos anos a comprovar-se. E são cada vez mais visíveis as três dimensões dessa verdade (já nem falo no desinvestimento):

  1. Continuamos sem comando único e sem centralização do comando e visibilidade para todas as operações (básico em cadeias de comando e em logística quer de prevenção quer de combate);
  2. Continuamos a combater mal o fogo pois andamos atrás dele até à exaustão. Salvar vidas é a prioridade. Fechar áreas, fazer contenção em pontos específicos e deixar arder o miolo atá às zonas de contenção é também um básico mas que não interiorizamos. E é tanto mais básico quanto se sabe que não se corre atrás de um fogo sem meios. Acaba-se extenuado e incapaz de recuperar o que seja. Pior: a cometer erros atrás de erros;
  3. Continuamos a não perceber quem são os nossos parceiros naturais e principais aliados: as populações são e serão sempre, porque são quem tem os poucos recursos válidos e com atuação mais importante na prevenção e no combate. Formem-se, ensinem-se as populações (e todos os demais intervenientes(*)). Serão as melhores vigilantes e as melhores combatentes desde que devidamente apetrechadas com as bases do combate e prevenção ao fogo florestal.

Poderíamos discorrer por entre muito mais argumentos e texto. Porém fixem-se 3 palavrinhas apenas quando se quiser uma explicação para além do 30 | 30 | 30: Comando, forma de Combate e Formação. Com estes três ingredientes combateremos os mortos e os fogos florestais. No dia em que o comando for único, no dia em que o combate for por contenção (ausência de meios) e no dia em que a formação não for tomada como um custo no qual não se deve incorrer então os fogos poderão diminuir. A criminalidade diminuirá e as populações serão os primeiros recursos a utilizar. Até lá…

… até lá esperamos por mais um ano de desresponsabilização? Por mais um ano 30 | 30 | 30 para matar qualquer argumento consistente? Quantas mais pessoas precisam de morrer? E quantos mais hectares terão de arder?

(*) Curioso o facto de até passarem pelas televisões comentadores de futebol a opinar sobre fogos florestais. Se não é risível é mesmo, e só, Portugal no seu melhor.

Professor Catedrático, NOVA SBE – NOVA School of Business and Economics, crespo.carvalho@novasbe.pt