Aníbal Cavaco Silva tomou posse, pela primeira vez, como Primeiro-Ministro de Portugal em 6 de novembro de 1985. À altura, com 46 anos, o recém-eleito Presidente do PSD, consagrado líder no célebre Congresso do PSD na Figueira da Foz, venceu as eleições legislativas de 1985 com pouco mais de 25% dos votos: estava dado o tiro de partida para a era do Cavaquismo, que aparece na história da política portuguesa como uma era própria, quase autonomizável da própria II República em si.

À altura, nos tempos idos de 1985, pouco se esperava de Cavaco Silva como Primeiro-Ministro, e não se augurava longa vida ao seu Governo. Como Cavaco Silva bem recordou no seu discurso no passado dia 5 de novembro “o deputado Manuel Alegre disse que se tratava de um governo com data para morrer”.

Em 6 de novembro de 1985 começava, então, o X Governo Constitucional, que sucedeu ao Governo de Bloco Central liderado por Mário Soares, entre 1983 e 1985, com Carlos Mota Pinto, líder do PSD, como Vice-Primeiro Ministro (a quem sucedeu, por um breve período, Rui Chancerelle de Machete). Um período de paralisia política, crise financeira, estagnação económica e total ausência de um espírito reformista.

De referir que Cavaco Silva não era um desconhecido ou um total outsider da política portuguesa, sendo que havia já sido Ministro das Finanças e do Plano no governo da AD de Sá Carneiro, entre 1980 e 1981. Mas era, no mínimo, um improvável, e, por isso, foi grande a surpresa com a sua eleição para Presidente do PSD, quando tudo fazia crer que o vencedor seria João Salgueiro, um motapintista (do chamado Grupo de Coimbra), que defendia a realização de acordos com o PS, bem ao jeito do Bloco Central que até então tinha vigorado.

Cavaco Silva era contra esta ideia de acordos de Bloco Central e foi decidido a quebrar com esta linha que o PSD havia seguido desde 1983, o que, juntamente com o anúncio de que havia acordado com Freitas do Amaral o apoio à sua candidatura presidencial de 1986, lhe valeu a vitória no célebre Congresso onde tinha ido só “fazer a rodagem” do seu novo Citröen BX.

Apoiante hesitante de Cavaco na Figueira, Marcelo Rebelo de Sousa chegou a adivinhar à altura que “se vem o Cavaco, fica lá 10 anos”. A reação de Mário Soares à eleição de Cavaco Silva como Presidente do PSD foi bem mais interessante “Esse professor? Quem pensa ele que é, vindo não se sabe de onde?”, e que acusou de “não ter currículo”. Já o derrotado João Salgueiro veio dizer que “[d]e Napoleões falsos estão cheios muito hospícios”.

Em 1985, com um governo minoritário, sob grande turbulência política causada, também, pelo recém-criado PRD, partido que tinha como figura maior Ramalho Eanes. Tanta turbulência política levou a uma moção de censura ao seu Governo em 1987, aprovada pela oposição, que o fez cair. O que é certo é que este cartão vermelho ao primeiro governo cavaquista saiu melhor que a encomenda, e Cavaco Silva vence as legislativas de 1987 com maioria absoluta, de forma absolutamente retumbante: 45,8% dos votos, um aumento de 20% da sua votação em relação às eleições de 1985. Em 1991 é reeleito, de novo com maioria absoluta – 45,3% dos votos.

O Sr. Silva – como a certa altura lhe chamou Alberto João Jardim, que em 1985 o instigou a ir ao Congresso da Figueira da Foz e que nesse Congresso lhe arranjou as assinaturas que faltavam para formalizar a sua candidatura ao PSD – foi Primeiro-Ministro durante 10 anos, dos quais 8 foram com maioria absoluta.

Esses 10 anos foram os anos de maior fulgor económico do país. Cavaco fez algo que, na altura, o Partido Socialista não era capaz de fazer: reformas. Foi mesmo com esse intento que Cavaco Silva desde o início disse que dispensava acordos com o PS. Cavaco reformou o país, em diversas áreas: nas Infraestruturas, na Saúde, na Educação, na Fiscalidade, claro, na Economia. Em 1987, Portugal cresceu 6,8%, tendo mantido valores próximos desses até 1990.

É certo que nesse período chegaram a Portugal os célebres fundos europeus para a integração europeia, mas Cavaco não se limitou a recebê-los: fez reformas, modernizou o país. Elevou o país para o patamar europeu do cosmopolitismo e da contemporaneidade. Que outro governo português fez sequer um décimo das reformas que fez Cavaco Silva (excetuando o de Passos Coelho, que as fez num contexto político de exceção)?

Não será paradigmático que o único Primeiro-Ministro que chegou perto do tempo de exercício de funções de Cavaco – António Costa, que foi Primeiro-Ministro por 8 anos – tenha até chegado a dizer “não me falem em reformas estruturais”?

Cavaco Silva, contemporâneo de Thatcher, Reagan, Clinton, Bush pai, Mitterrand, Helmut Kohl, Felipe González, trouxe para Portugal para o mundo novo, da Europa, da globalização, do pulsar económico, da abertura de fronteiras (não só as físicas). Mas, para além de catapultar Portugal no seu posicionamento no mundo e na Europa, Cavaco Silva, enquanto PM, cultivou sobretudo uma forma nova de fazer política e de ser (ou não) político.

Cavaco Silva era impenetrável, solitário, distante até. Não ansiava por consensos, antes afirmava convicções. Era Estadista. Não era vulgar, e, segundo o próprio, não era político. Não ligava às elites e aos barões da política nacional, porque não lhes pertencia e não nasceu delas. Não era comparsa da corte lisboeta – era um economista e professor catedrático, filho de um gasolineiro de Boliqueime. Sempre cultivou a imagem de anti-político, de alguém que vinha de fora, que estava apenas numa missão e que não fazia da política profissão.

Não ligando à comoção popular, que, por vezes, se instalou. Não ligando às críticas pantomineiras e à ignomínia da comunicação social do seu tempo. Mas ligando, sim, às suas convicções, às suas decisões, ao sentido de certo e errado de alguém que nunca se enganava, e raramente tinha dúvidas. Esta célebre frase que terá sido proferida por Aníbal Cavaco Silva, embora possa ser demonstrativa de alguma arrogância, simbolizava a personagem política que construiu durante décadas: o decisor impenetrável, imune às novelas da corte política e da comunicação social.

É, por isso, curioso que Cavaco Silva seja, hoje, indiscutivelmente, o maior político da democracia contemporânea portuguesa, como hoje a conhecemos – atenção ao período a que faço referência, pois é para mim inegável que Mário Soares e Sá Carneiro são, sem dúvida, os maiores políticos do pós-revolução.

Se considerarmos apenas o pós-1982, quando se consolidou a democracia com o fim da tutela do Conselho da Revolução, Cavaco Silva é a referência maior. 10 anos Primeiro-Ministro. 10 anos Presidente da República. Reformista. Absolutamente maioritário, e nunca interessado em ser consensual.

Deu azo ao nascimento de uma nova classe política nos anos 80 e 90, com Durão Barroso, Braga de Macedo, Leonor Beleza, Fernando Nogueira, Mira Amaral, Miguel Cadilhe, António Capucho, Manuela Ferreira Leite, Marques Mendes, Álvaro Barreto, Laborinho Lúcio, Pedro Santana Lopes, Luís Filipe Menezes, Castro Almeida. Uma classe política que ainda nos dias de hoje é tida por referência máxima da política portuguesa.

Mesmo como Presidente, ainda que hoje, de forma injusta, muitos não o apreciem, preservou sempre a dignidade do cargo. Não o vulgarizou. Fazia do recato, do silêncio e da sobriedade as suas maiores armas – quando falava, todos ouvíamos. Em sede institucional, aí sim, influenciava e pressionava os atores políticos. Foi com ele que Portugal viveu um dos momentos mais definidores da sua história – a sobrevivência ao descalabro financeiro.

Cavaco Silva é, por isso, uma entidade. Com um peso histórico incontornável. Com uma autoridade política inamovível. Com uma aura de senador que faz com que, aos 86 anos, qualquer sala faça silêncio para o ouvir. Pertence à era dourada da política portuguesa, europeia e mundial.

No passado dia 5 de novembro, o Governo português homenageou estes 40 anos de Cavaquismo, e em boa hora o fez. Portugal deve muito a Aníbal Cavaco Silva, que criou o Portugal europeu, o Portugal moderno do século XXI. Se hoje somos um país desenvolvido, é importante que para a posteridade fique que muito o devemos ao Cavaquismo.