O treinador de futebol Jorge Jesus foi condecorado no passado dia 30 de dezembro pelo Presidente da República com a Ordem do Infante D. Henrique. A decisão foi anunciada logo após terminar a final do campeonato de mundo de clubes numa nota publicada no site da presidência da república.

Muito se tem dito, efetivamente, e escrito, sobre tal privilégio, mormente, por o seu recipiente ser um treinador de futebol, pois há quem lhe reconheça mérito e, portanto, justeza na sua condecoração, mas, por outro, há quem, recordando as inúmeras tiradas da mais eloquente loquacidade do agraciado, lhe negue ipso facto tal graça.

É a Lei n.º 5/2011, de 2 de março o diploma que estabelece o elenco e os fins das ordens honoríficas portuguesas, define a sua orgânica interna, o processo de concessão e investidura dos seus membros e respetivos direitos, deveres e disciplina. Do catálogo de ordens honoríficas existentes (Antigas Ordens Militares: Da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito; De Cristo; De Avis; De Sant’Iago da Espada/Ordens Nacionais: do Infante D. Henrique; da Liberdade/Ordens de Mérito Civil: do Mérito; da Instrução Pública; do Mérito Empresarial) a Jesus caberá a nacional do Infante D. Henrique.

Prescreve o n.º 1 do art. 3.º da citada Lei que «As Ordens Honoríficas Portuguesas destinam-se a galardoar ou a distinguir, em vida ou a título póstumo, os cidadãos nacionais que se notabilizem por méritos pessoais, por feitos militares ou cívicos, por actos excepcionais ou por serviços relevantes prestados ao País.»

Ora, será o cidadão Jorge Jesus merecedor da condecoração? Isto é, terá o cidadão Jorge Jesus assim tanto mérito pessoal, por feito civil ou ato excecional, ou terá o mesmo prestado serviço relevante a Portugal? Confesso a minha dificuldade em enquadrar os feitos de um treinador de futebol nestes termos e, assim, considerá-lo merecedor de uma ordem honorífica. Não se nega o mérito do cidadão Jorge Jesus, à semelhança de outros treinadores agraciados no passado, mas, na minha opinião, a condecoração de pessoas ligadas ao fenómeno do futebol representa uma vulgarização do que não deveria ser vulgarizado. Enquadro e comparo isto, de certa forma, à concessão de privilégios de panteão a futebolistas ou fadistas. A mim, choca-me, com sinceridade, que figuras como Almeida Garrett, Guerra Junqueiro ou Teófilo Braga partilhem o eterno descanso na Igreja de Santa Engrácia ao lado de futebolistas e fadistas.

A questão tem sido colocada de forma errada. Não se nega o mérito do cidadão Jorge Jesus. O que se questiona é se, tal indiscutível mérito, é merecedor de tamanha distinção. Todo o mérito deve ser exaltado, é evidente, mas, com a devida vénia e respeito por quem pense de outra forma, as ordens honoríficas deveriam estar reservadas aos portugueses de exceção. E aqui, exceção, entendendo-a à luz de um feito que exorbita a dimensão do quotidiano como é o futebol; um feito que exorbita largamente a dimensão do normal espírito humano. Espírito humano, esse, que, por ser – precisamente – excecional, é merecedor e tributário de honra (confesso que compreendo mais facilmente a condecoração de Jorge Jesus como cidadão honorário da cidade do Rio de Janeiro do que a condecoração que o mesmo vai receber das mãos do Presidente da República).

Parece-me que este tipo de cerimónias, com este tipo de intervenientes, não é que uma oportunidade de promoção de um espetáculo de circo, de aproveitamento político, de oferecimento às gentes de pão e circo à boa maneira romana. Uma metonímica condecoração, como observou Juvenal – panem et circenses – no Século I após Jesus… Cristo.