Em 1714 Bernard Mandeville entrou para a história das ideias com a publicação de A Fábula das Abelhas: vícios privados, benefícios públicos. Considerado um dos livros fundamentais da economia política liberal, diz sobretudo muito sobre a moralidade do homem moderno. Partindo da separação moderna entre esfera pública e esfera privada, o argumento de Mandeville passa por considerar que os vícios privados são essenciais para a prosperidade económica, gerando benefícios públicos e coletivos – num argumento mais radical do que o do interesse próprio de Adam Smith. Ao recuperar a dicotomia entre vícios e virtudes e valorizando os primeiros, Mandeville permite-nos uma compreensão particular do espírito moderno. O espírito dos antigos consistia na busca pela vida virtuosa, a partir da comunidade, e o pensamento cristão manteve durante mais de mil anos a mesma ideia numa lógica de pecados capitais a evitar. Mas com a modernidade os vícios adquiriram aceitabilidade, primeiro privada e, mais tarde, pública.

Hoje assistimos ao culminar de uma expansão de vícios privados para a esfera pública. É o caso da ira e a tentativa de sustentar racionalmente discursos de ódio. Embora marque toda a modernidade, esse discurso floresceu com especial ênfase no mundo académico durante os anos 60 do século XX. É o nascimento da nova esquerda e a conceção radical de que o sistema existente é a encarnação de todo o mal, estando para lá da possibilidade de redenção. Todas as aflições públicas e privadas são manifestações desse sistema que é preciso combater ativamente: deve ser totalmente destruído para que seja possível construir um novo mundo. Nos Estados Unidos esse discurso ganhou forma numa espécie de ira provavelmente inédita: contra o próprio país e tudo aquilo que ele representa – capitalismo, imperialismo, guerra, desigualdades, injustiça. Um sentimento que se foi alargando a outras academias e que atinge o seu auge com o 11 de setembro. A professora canadiana Janice Fiamengo refere essa data como o seu momento de rutura com a cultura que dominava a academia e que determinara o seu feminismo radical anterior. Quando viu os colegas manifestarem satisfação com o ataque às torres gémeas percebeu que havia algo de profundamente errado com aquelas pessoas e aquela cultura.

Os últimos vinte anos ampliaram o discurso de ódio. Hoje deve odiar-se tudo e publicamente. O capitalismo, o imperialismo e todos os conflitos com os quais não concordamos. A cultura do patriarcado e todos os homens, pois todos são potencialmente violentos. Mas, em especial, o homem branco. Todos os que não usam as palavras certas.  Todos os filmes e livros que não coloquem a mulher no papel principal e contenham um elenco preenchido de minorias, velhas e novas, mesmo que à custa de erros históricos. Todo o humor, a não ser que não tenha piada. Todos os que não aceitam cegamente a responsabilidade humana nas alterações climáticas. Todos os que não levam a vida a sério. Todos os que comem carne. Todos os que fazem piadas inadmissíveis, mesmo que seja por amizade. As gerações mais velhas, mesmo que se tenham sempre esforçado para que os filhos tivessem uma vida melhor. E tudo isto agravado pela maior de todas as invenções da humanidade, as redes sociais, com o seu destilar de ódio permanente desde as caixas de comentário aos tweets irados, assentes numa lógica de vitimização.

Em algum momento, passamos a aceitar como normal esta cultura de ódio. Pior do que isso, passamos a valorizá-la. E é por isso que aplaudimos os olhos e as palavras iradas da jovem Greta, os comentários daqueles que querem decidir sobre quem pode ocupar o espaço político, os antis de toda a espécie, os cordões sanitários, manifestos e cartas abertas, os que acusam os outros de mil e uma fobias, a absoluta falta de empatia para quem ousa olhar para o mundo com outros olhos.

É fácil de perceber. Como Amos Oz afirma no seu texto sobre o fanatismo (Contra o Fanatismo, Edições Asa, 2007), é da natureza do fanático preocupar-se com o outro, que é sempre a sua obsessão. O fanático acredita que pode salvar o outro, libertando-o pela conversão, impondo-lhe a sua verdade que é a única verdade. E é aqui que reside o perigo: o fanático ativista sente-se moralmente superior porque reivindica um acesso privilegiado à verdade e essa atitude de superioridade impede a valorização do dissenso e a obtenção de consensos. Perder o fanatismo é abrir as portas à ambiguidade, é reconhecer um mundo que não é a preto e branco, é aceitar a diferença e admitir a legitimidade daquele que pensa de forma distinta. É saber ouvir. Mas uma cultura de ódio é surda e é, por essa razão, a maior ameaça a uma sociedade democrática.