Descobriu-se, entretanto, que para se ser candidato em democracia já não basta ter ideias, percurso ou coragem política. É agora aconselhável ( quase obrigatório) apresentar uma lista comentada de clientes, preferencialmente com notas de rodapé, declaração de intenções e, se possível, fotografias de grupo. Transparência, dizem. Higiene democrática, insistem. Chama-se a isto progresso.
A política, que durante décadas tolerou carreiras inteiras feitas de nada, resolveu de súbito tornar-se hiperexigente com quem trabalhou. O cidadão que ousou ter uma profissão antes de pensar em candidatar-se passa a ser um suspeito por definição. Advogados, consultores, gestores, médicos: todos convocados para um ritual de purificação pública, como se o simples contacto com o mundo real fosse uma forma de corrupção em estado latente.
Confunde-se deliberadamente transparência com confissão geral. Não se pedem conflitos de interesses concretos, atuais e verificáveis – isso seria demasiado sério e demasiado simples. Exige-se, em vez disso, a arqueologia moral de uma vida profissional inteira, à procura de um cliente inconveniente, de uma coincidência embaraçosa, de um pretexto para a indignação.
O mais curioso é que esta pulsão moralizadora raramente se aplica a quem nunca teve clientes, nunca prestou serviços, nunca respondeu perante ninguém fora da política. Esses surgem imaculados, virginais, politicamente assépticos. A ausência de experiência transforma-se em virtude. A irrelevância passada converte-se em certificado de idoneidade.
Há também um detalhe menor mas apenas para quem nunca trabalhou seriamente: os clientes existem. São pessoas, empresas, contextos, histórias. Muitos protegidos por deveres legais de confidencialidade que agora se sacrificam alegremente no altar da transparência performativa. A democracia exige luz, dizem. E alguém acende o holofote diretamente na vida dos outros.
No fundo, esta obsessão pela lista de clientes não protege o interesse público. Protege apenas a má-fé. Alimenta o insinua-se-que, o talvez-haja-qualquer-coisa, o “fica a dúvida”. É uma política feita de sobrancelhas levantadas e frases incompletas, onde a suspeita substitui o argumento e a devassa ocupa o lugar da lei.
A democracia precisa de regras claras, proporcionais e aplicáveis. Não precisa de voyeurismo moral, nem de listas expiatórias. A democracia não precisa de políticos escolhidos não por aquilo que defendem, mas por aquilo que nunca fizeram.
Quando a política começa a desconfiar sistematicamente de quem viveu fora dela, o problema já não está nos candidatos. Está no regime que, incapaz de exigir seriedade, prefere distribuir humilhação preventiva.
É o sinal inequívoco de uma democracia que já não confia nos seus próprios mecanismos e, por isso, substitui regras por rituais, direito por encenação, escrutínio por espetáculo.
O que se perde, antes de mais, é densidade democrática. Uma democracia madura vive de critérios claros, de instituições que funcionam e de responsabilidade posterior , não de suspeitas genéricas lançadas antes de qualquer ato. Quando tudo é antecipadamente suspeito, nada é verdadeiramente controlado. A devassa generalizada não torna o sistema mais exigente; torna-o apenas mais ruidoso e mais pobre.
Perde-se também a diversidade real da vida pública. A política fecha-se sobre si própria e passa a recrutar sobretudo quem nunca saiu dela, quem não teve clientes, não tomou decisões fora do abrigo partidário, não correu riscos num mercado imperfeito. Em nome da moralização, constrói-se um espaço político esterilizado, onde a experiência concreta é vista como defeito e a abstração como virtude.
Mas talvez a perda mais grave seja outra: perde-se a noção adulta de democracia. A ideia de que a democracia não é um concurso de pureza, mas um sistema imperfeito gerido por regras igualmente imperfeitas. Exige-se agora aos candidatos uma inocência retroativa que nunca foi condição do regime democrático. Como se a política fosse um mosteiro e não um lugar de conflito regulado entre interesses legítimos.
E aqui surge a pergunta incómoda: será que ainda não somos suficientemente maduros para perceber o que é a democracia? Talvez não. Talvez ainda confundamos vigilância com moralismo, transparência com exposição total, ética com linchamento simbólico. Talvez precisemos de suspeitar de todos porque ainda não aprendemos a confiar nas instituições nem a responsabilizar seriamente quem falha depois.
Uma democracia madura aceita que as pessoas tenham passado, profissão, clientes, contradições. O que exige é que, no exercício do poder, respeitem limites claros, declarem conflitos relevantes e respondam por abusos concretos. Tudo o resto é infantilização cívica: uma política feita para plateias indignadas, não para cidadãos adultos.
No fim, esta obsessão não revela um excesso de zelo democrático. Revela o seu oposto: insegurança institucional. Um regime que, não sabendo governar a complexidade, prefere simplificar pessoas. E que, incapaz de produzir confiança, opta por fabricar desconfiança em série — como se isso fosse virtude. Não é. É apenas o sintoma de uma democracia que ainda não decidiu se quer ser adulta ou apenas barulhenta.