É frequente ouvirmos, por parte de variadíssimas personalidades, que a democracia está sob ataque de movimentos catalogados pelas próprias como extremistas. Parece-me, no entanto, que o tempo verbal está parcialmente mal empregue e que os atacantes não estão todos devidamente identificados. A democracia tem estado sob ataque ao longo das últimas décadas por parte da sociedade civil e dos ditos partidos do sistema. Não quer dizer que os chamados movimentos extremistas não procurem corroê-la. Porém, penso ser mais importante reconhecê-los como uma das mais graves consequências da agressão contínua perpetrada previamente ao seu despertar.

Uma sociedade civil provinciana, com uma escassa maturidade cívica, pobre capacidade crítica, diminuta literacia e um desinteresse atroz por vários atropelos ao coração da democracia, tem perpetuado uma cultura de pouca exigência e de “chico-espertismo”, que obstaculiza a edificação de um regime transparente, culto, livre, solidário e meritocrático. Por sua vez, os denominados partidos “clássicos”, em maior ou menor grau, delapidados da confiança popular desejável, ensombrados por uma percepção generalizada de serem antros de corrupção e nepotismo e propensos a práticas eleitoralistas inconsequentes, não têm conseguido corresponder integralmente aos anseios dos povos. Alguns, inclusive, continuam a insistir na defesa de modelos socioeconómicos obsoletos e desajustados à natureza humana! Desta forma, de uma sociedade civil com as características enunciadas é difícil brotarem escolhas reformistas e quando por uma particular e circunstancial reunião de condições favoráveis elas surgem, logo enfrentam inúmeras resistências para implementarem as medidas necessárias (muitas vezes impopulares) à construção de um sistema lúcido e responsivo às necessidades da população. Acresce que a não reeleição dessas forças reformistas, ou a interrupção/reversão das mudanças por elas operadas, considerando a impossibilidade de concretizar mudanças profundas no curto prazo, impedem a consolidação da transformação de um aparelho decano caduco num sistema próspero. Assim se tem perpetuado um país frágil e rapidamente ultrapassado em vários índices de desenvolvimento socioeconómico (por exemplo, rendimento per capita ou desigualdades sociais) por nações que aderiram mais tarde ao projecto europeu.

Outra das premissas fundamentais para elevar a eficiência da sociedade, dos partidos políticos e dos órgãos de soberania é a existência de um jornalismo isento e exigente. Contudo, infelizmente, salvo devidas e honrosas exceções, a (in)ação da generalidade da Comunicação Social, sobretudo da mainstream, tem sido desoladora. Tem-se revelado pouco obstinada no escrutínio dos vícios sistémicos, demasiado passiva e permissiva a atropelos democráticos gravíssimos perpetrados por quem é suposto zelar pela integridade das instituições, e focado de forma excessiva, rude, crispada e parcial nos novos partidos políticos. Nesta sua deriva irracional relativamente às novas forças políticas, acaba por mediatizar em demasia as ideologias extremistas/populistas, engrandecendo-as, e não dispor o espaço e o tempo suficientes às correntes democráticas para explanarem as suas ideias e propostas. Palermices, ideias gastas e discursos vazios bradados aos sete ventos continuam a despertar mais interesse e a serem mais noticiados e debatidos do que um assassinato de um cidadão pelo Estado, dezenas de mortes de idosos num lar por aparente negligência grosseira, ou interferências inconcebíveis de um executivo em órgãos “estatutariamente” independentes.

A miscelânea entre uma sociedade civil apática (veja-se, por exemplo, as percentagens da abstenção eleitoral) e acrítica, um sistema político cronicamente amorfo e um jornalismo pobre e faccioso perpetua a cepa torta civilizacional e socioeconómica em que nos vemos atolados, engrandece forças populistas e explica que, apesar da incapacidade demonstrada pelos protagonistas, fenómenos como este sejam possíveis: “A popularidade do Primeiro-Ministro cresceu.” Neste contexto, parece-me também importante referir que as proclamações chauvinistas bacocas demasiadas vezes proferidas, como “somos o melhor povo do mundo”, escamoteiam deficiências sociais e caracteriais relevantes, em nada contribuindo para identificar e promover as indispensáveis mudanças culturais que se impõem. A democracia tem estado, pois, sob ataque há décadas e uma das consequências mais graves está aí: o florescimento de partidos oportunistas, extremistas e divisionistas que nada acrescentarão de valor ao regime. São verdadeiros sinais de alarme que, como a febre, nos alertam para a necessidade de identificar as causas da doença e “tratá-las” devidamente, antes que seja tarde demais…