Estavam a pedi-las. Por um lado, são os “media”, que tanto divulgam o extraordinário trabalho do governo em prol da nação como, ocasionalmente, veiculam notícias que colocam em causa o extraordinário trabalho do governo em prol da nação. Por outro lado, é o povo, que sendo um bocadinho destrambelhado, nem sempre consegue distinguir os factos das calúnias. Estas maçadas, que prejudicam a consolidação de uma democracia sã, têm de ser superadas. Vai daí, nada mais natural e urgente que o anúncio, para o início de 2020, de uma “campanha de sensibilização” que “visa a convivência democrática entre uma comunicação social livre e uma população formada e capaz de exigir e procurar informação séria”. Estou a citar o “Jornal de Notícias”, que, num paradigma de rigor e patriotismo, tomou a informação oficial à letra e transcreveu-a sem aspas, comentários ou críticas.

O anúncio da campanha coube ao secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Propaganda, desculpem, e Media, Nuno Artur Silva, cuja obra e dignidade estão acima de diversas suspeitas – um homem que, desinteressadamente, já apoiava o dr. Costa nos tempos da autarquia lisboeta não carece de provar o seu amor ao bem-estar colectivo. Do alto desse amor, o sr. prof. dr. Artur Silva quer que as pessoas distingam o “jornalismo profissional, com qualidades de investigação, de análise e de crítica, rigor e isenção” daquilo “que não é informação, mas opinião em rede amplificada, ou seja, corrente de opinião desinformada”. Ou seja, que distingam a realidade da boataria destinada a sabotar a prosperidade que temos. Esta necessidade de disciplinar os “media” e educar as massas é essencial a qualquer país moderno e civilizado. A própria Venezuela não a dispensa.

Diz o sr. prof. dr. Artur Silva, prenhe de razão, que “a opinião pública é elemento fundamental da política e administração do país, incumbindo ao Estado defendê-la de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a boa administração e o bem comum.”… Alto! Alto! Alto! Não liguem,  que isto é da Constituição de 1933. O que o sr. prof. dr. Artur Silva diz é que a “desinformação é uma ameaça séria que pode afectar a credibilidade das instituições democráticas, minando a confiança nessas instituições”. E não é?

Imagine-se, por absurdo, que um programa televisivo (por exemplo da RTP) tencionava, dias antes das eleições, transmitir uma reportagem sobre um governante (vamos dizer a rapaziada do Ministério do Ambiente) que atribuiu a concessão da exploração de um minério (talvez o lítio) avaliada em 350 milhões a uma empresa cheia de dirigentes de um partido (o PS, sei lá) com um capital social de cêntimos e sediada numa junta de freguesia (socialista, assim ao calhas). Semelhante peça de desinformação sem dúvida afectaria a credibilidade das instituições democráticas, leia-se o governo, e minaria a confiança nas mesmas, leia-se o mesmo governo: o cidadão incauto seria levado a pensar que o ministério do Ambiente está repleto de trafulhas, que a coisa se resume a uma marosca das grandes e que, quem sabe, o PS não é o modelo de honestidade que nos habituámos a considerar. Num caso destes, continuamos a imaginar, teria de haver uma directora de informação com coragem para suspender o dito programa e, na impossibilidade de o trucidar pelo fogo, chutá-lo para uma data inócua.

Salvo casos hipotéticos como o acima referido, claro que o problema não é a escassez de informação rigorosa. A totalidade das televisões e a quase totalidade da imprensa “tradicional” prestam um valoroso serviço de vassalag…, perdão, de acompanhamento imparcial das fabulosas proezas dos nossos estadistas. O problema é que ninguém, com idade inferior ou Q.I. superior a 85, consome tais produtos, donde a  crise dos “media”, que afecta até a indispensável Lusa de Nicolau do Laço e aflige o prof. Marcelo.

A solução, ainda não explícita na “campanha de sensibilização”, é óbvia, e passa por convencer a ralé distraída a consumir unicamente os “media” a que o sr. prof. dr. Artur Silva atribui “qualidades de investigação, de análise e de crítica, rigor e isenção”. É difícil? Não. Basta uma política articulada de incentivos, quer incentivos fiscais (ou um tipo, atarraxado ao medidor de audiências, vê quatro horas diárias da SIC Notícias ou retêm-lhe na fonte mais 10% do salário), quer incentivos laborais (ou um tipo confirma a contemplação regular de todos os “debates” nos canais “informativos”, incluindo a “Quadratura” e o que tem o prof. Rosas, ou tiram-lhe o emprego), quer incentivos sociais (ou um tipo faz uma assinatura de 12 anos do extinto DN ou vai preso). Quem for apanhado a espreitar o Observador, o “Sol” ou algum “site” infecto de notícias daninhas para o poder que nos abençoa terá de pagar pesada coima ou, em caso de insolvência, a beijar um mupi em tamanho real de Ferro Rodrigues. Se repetir a graça, será forçado a levar o retrato para casa.

O povo educa-se, a bem ou a mal. Normalmente é a mal, mas para o seu bem.