O título podia ser uma piada, mas não é. Aproximam-se mais umas eleições autárquicas e 4 euros por hora é o valor a receber por cada um dos indispensáveis membros das mesas de voto. As contas são relativamente simples: 60,43 euros pelo dia, informação obtida através do contacto com a Administração Eleitoral da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna. Consultando o portal do eleitor, é possível confirmar que o membro da mesa terá de comparecer pelas 7h da manhã na respectiva mesa. As votações encerram às 19h, logo, se formos optimistas e acreditarmos que pelas 22h tudo estará terminado, o membro da mesa de voto terá exercido o seu dever durante 15 horas. Mesmo retirando uma hora para almoço, a conta dá aproximadamente 4,32 € por hora. Chega a ser ainda menos do que o valor por hora do salário mínimo nacional: aproximadamente 4,94 euros por hora.

Estas contas servem para confirmar uma triste realidade, a de que o trabalho de muitos portugueses vale pouco ou quase nada. Não deixa de ser caricato que o valor recebido pelo cidadão, que nobremente se inscreveu para desempenhar uma função essencial na democracia, represente uma descredibilização dos direitos dos trabalhadores. O trabalho desempenhado nas mesas de voto é apenas um exemplo curioso, até pela contradição entre o desempenho de uma função essencial à democracia e o pagamento, que não poderia representar menos os direitos que se pretendem numa democracia. Mas, na verdade, consultando as fontes mais recentes em relação ao ano de 2024, são 838 000 os trabalhadores que recebem menos de 5 euros por hora, ou seja, o salário mínimo.

É preocupante que assim seja, e é um sinal constante de aviso para o desgaste que se tornará cada vez maior na população. É que o desgaste não é apenas do bolso, e pouco depois de o desgaste se notar no bolso, começa a notar-se nas atitudes, nas crenças, nos pensamentos, nas decisões. Já em 2023, o Eurobarómetro mostrava que o aumento do custo de vida e a pobreza eram os assuntos que mais preocupavam os portugueses.

A vida não será fácil daqui para a frente, já não o era antes, mas o estado de alma dos portugueses vai continuar a sofrer as consequências. Até porque uma das maiores concorrências é aquela que por vezes é ofuscada pela tão badalada temática dos imigrantes do subcontinente indiano. A verdade é que a “imigração de luxo” vai continuar a crescer. Por exemplo, em 2024 já residiam mais 50% de americanos em relação ao ano anterior. Muitos são jovens, nómadas digitais, mas também há famílias e a opinião é quase unânime: “a vida é tão boa, temos o mar, campos de golfe (e casas óptimas e bem localizadas que os portugueses não conseguem comprar).”

No próximo dia 12 de outubro, haverá centenas de portugueses por todo o país a fazer com que as mesas de voto funcionem. Se vivêssemos numa utopia, diríamos que manter a democracia a funcionar é, por si só, um trabalho tão nobre que até poderia ser feito de “graça”, mas a realidade é que a vida de muitos portugueses está longe de ser nobre. A democracia não tem preço, mas seguramente que os direitos pelos quais muitos lutaram para construir as democracias de hoje não se protegem se continuarmos a permitir que a disparidade entre o valor do trabalho e o custo de vida aumente disparatadamente. Como é que se vive nos grandes centros urbanos, Lisboa e Porto, com 4 euros por hora? Não sei, mas sei que não se vive, sobrevive-se. E em quem é que se vota quando se ganha 4 euros por hora? Não sei, mas sei que a margem para o desespero se torna muito maior.