Vamos às leituras nacionais das eleições de ontem. O ponto não é se é possível fazer leituras nacionais. A questão central é quais são as leituras nacionais relevantes e irrelevantes. Vamos começar pela irrelevante, o número de autarquias ganhas, o que curiosamente é a que a maioria dos comentadores faz. Em termos nacionais (ou seja, indicações sobre como está o país em relação a eleições legislativas), o número de autarquias é irrelevante (e estou à vontade aqui porque a AD ganhou o maior número de concelhos). Por uma razão simples: os sistemas eleitorais nas eleições autárquicas e nas eleições legislativas são muito diferentes. Em Portugal, as eleições legislativas obedecem ao sistema proporcional. Ora, se aplicássemos o método eleitoral das autárquicas às eleições legislativas, seria um sistema eleitoral oposto do que existe. Não seria um sistema proporcional. Seria, para dar um exemplo, um sistema eleitoral igual ao britânico, os círculos eleitorais elegem quem fica em primeiro, não elegem mais deputados. Ou seja, fazendo a analogia com as eleições autárquicas, os presidentes das câmaras seriam deputados. Nada disso acontece nas eleições legislativas em Portugal. Por isso, o número de vitórias faz do PSD o vencedor das eleições autárquicas, mas não permite leituras nacionais para eleições legislativas.

Há, no entanto, a leitura nacional relevante: a expressão dos votos nacionais. Aqui, há duas conclusões. A direita continua com mais votos do que a esquerda. Isto é indiscutível. Depois, o PSD e a AD são as forças políticas com mais votos no plano nacional. Ganharam, além disso, nos cinco concelhos mais populosos do país. Isso significa que, em caso de legislativas, a AD teria ganho de novo as eleições. Grande parte dos deputados são eleitos nesses cinco concelhos.

Hoje, apesar do resultado ficar longe das ambições de André Ventura, o Chega tornou-se um partido autárquico. É o primeiro partido não fundador do regime político a eleger presidentes da câmara. Politicamente, é significativo. Além disso, foi o terceiro partido mais votado. Além dos presidentes da câmara, elegeram muitos vereadores. Esses vereadores serão indispensáveis para construir maiorias autárquicas. Será a morte definitiva das linhas vermelhas na política portuguesa. Essa também é uma leitura com implicações nacionais.

Por fim, Carlos Moedas voltou a ganhar em Lisboa. Não conseguiu uma maioria tão grande como pretendia, mas melhorou os resultados de há quatro anos. Por vezes, a consolidação política demora tempo. O PS e as esquerdas foram hegemónicos em Lisboa durante uma década e meia. Foi Carlos Moedas que acabou com essa hegemonia. Uma vitória podia parecer um acidente. Duas vitórias significam uma viragem política em Lisboa para a direita.