As datas históricas têm o poder de fixar no tempo alguns acontecimentos que moldaram a identidade de um país, de uma comunidade ou de um colectivo. E, justamente por carregarem esse peso simbólico, tornam-se muitas vezes objecto de disputa, que se consolida ou atenua com o passar do tempo.
O 25 de Abril e o 25 de Novembro inscrevem-se nesse território da memória colectiva e partilhada, onde cada um empresta a sua visão e interpretação às respectivas datas.
O que deveria ser um espaço de memória partilhada transforma-se assim num campo de apropriação política, onde as diferentes forças procuram reivindicar um significado exclusivo para aquilo que, à partida, pertence a todos.
Esta apropriação não é nova nem exclusiva de Portugal. É quase inevitável que datas com forte carga histórica, como foram o 25 de Abril, o 25 de Novembro ou outras marcantes, sejam lidas à luz das sensibilidades e narrativas políticas de cada época, e como tal também evoluam.
O problema surge quando essa leitura deixa de ser uma interpretação legítima e se transforma numa tentativa de monopolizar o sentido da história, apagando complexidades, silenciando memórias e instrumentalizando o passado para servir interesses presentes.
As recentes disputas sobre as cerimónias evocativas de cada uma dessas datas, e a que agora aqui nos traz, a do 25 de Novembro, são prova disso.
Cada data contém múltiplas experiências: foi resultado de circunstâncias diversas, decorreu da conjugação de uma miríade de acontecimentos, as vividas pelos protagonistas, as sentidas pela população, as registadas pelos historiadores e as reinterpretadas pelas gerações seguintes. Quando um acontecimento histórico é capturado e fixado por uma só visão política, a memória perde profundidade, complexidade, e o país perde a oportunidade de crescer sobre uma compreensão mais matizada do seu percurso colectivo.
Por outro lado, também a sociedade, através da opinião pública e dos meios de comunicação, participa nesta disputa simbólica. Muitas vezes, simplificamos datas densas e contraditórias para as encaixar em narrativas confortáveis. Outras vezes, reagimos apenas aos discursos mais visíveis, esquecendo que a história raramente cabe em slogans, e que a realidade é complexa e plural.
Reconhecer a pluralidade das memórias não significa diluir o significado das datas, pelo contrário, significa enriquecê-lo.
Uma democracia madura não teme debates sobre o passado, acolhe-os. O confronto de perspetivas não diminui a história, ilumina-a, clarifica a nossa visão, depura a nossa compreensão.
Quando aceitamos que acontecimentos como o 25 de Novembro comportam várias leituras, estamos a construir um espaço público mais honesto, mais informado e mais capaz de compreender a complexidade do percurso democrático. A diversidade dos caminhos para a liberdade.
As datas históricas pertencem ao país, não às suas facções. E só ganham verdadeiro sentido quando conseguimos celebrá-las com respeito pela diversidade das memórias que as compõem, afinal, a história não é propriedade de ninguém, é património de todos.
25 de Novembro, 50 anos depois, a liberdade reencontrada, ontem como hoje, um caminho a percorrer
Cinquenta anos após o 25 de Novembro de 1975, Portugal volta a olhar para uma das datas mais decisivas da sua história contemporânea. Meio século passou desde o dia em que o país, numa encruzilhada política e social, conseguiu reafirmar o caminho democrático iniciado em Abril e garantir um futuro assente na liberdade plural, no respeito pelos direitos fundamentais e na convivência pacífica entre diferentes visões de mundo.
Recordar o 25 de Novembro não é um exercício de nostalgia, é um gesto de memória responsável. É reconhecer a lucidez, a coragem e o sentido de missão de todos quantos, em circunstâncias complexas, ajudaram a evitar a deriva autoritária que se instalava, e a consolidar a democracia que hoje consideramos um bem adquirido, mas que nunca pode ser dado por garantido.
É com este espírito que surge “50 VEZES 25 de NOVEMBRO – 32 olhares sobre o caminho da liberdade”, uma obra que reúne trinta e dois autores de várias gerações, percursos e sensibilidades. Cada contributo oferece um olhar próprio, pessoal e refletido, compondo um mosaico amplo de memórias, interpretações e emoções sobre aquele momento decisivo.
Fruto de um sobressalto interior, convoquei um grupo alargado de amigos a darem o seu contributo em modo de depoimento escrito para uma obra colectiva a ser publicada aquando da passagem dos 50 anos do 25 de Novembro, o que acontecerá na próxima terça-feira.
O livro representa um gesto de gratidão e de responsabilidade cívica: lembrar para compreender, compreender para valorizar e valorizar para defender.
Coordenar esta obra foi reencontrar uma memória viva, feita de episódios, inquietações e esperanças que continuam a inspirar o presente.
Este livro não pretende fechar debates, mas sim abri-los, não pretende fixar uma única narrativa, mas dar espaço à pluralidade de vozes que fazem parte da história de Portugal. Algumas memórias ali estão, outras permanecem ausentes: todas são parte de uma realidade maior, que nos precede e nos transcende, que perdura no tempo, no espaço e na consciência colectiva de um povo com mais de nove séculos de história.
A celebração do 25 de Novembro é, por isso, uma celebração da liberdade, esse bem tantas vezes conquistado, tantas vezes posto à prova e sempre carecido de vigilância. A liberdade não é apenas herança, é prática diária, construída em cada gesto e em cada palavra.
Convidam-se todos os interessados a participar na apresentação pública do livro “50 VEZES 25 de NOVEMBRO – 32 olhares sobre o caminho da liberdade”, que terá lugar no próximo dia 25 de Novembro pelas 18 horas no Auditório da Biblioteca Municipal de Marvila, em Lisboa. Um encontro aberto, de memória e de cidadania, para que a história continue a ser compreendida, partilhada e defendida, no presente e para o futuro.
Cinquenta anos depois, a liberdade continua a exigir presença, testemunho e envolvimento, participação e empenhamento.
Cinquenta anos depois, o 25 de Novembro de 1975 permanece como uma das datas mais determinantes da nossa democracia. Não apenas porque decidiu o rumo político do país num momento de grande incerteza, mas porque recorda, todos os anos, que a liberdade é um bem escasso que só se valoriza na sua ausência.
É fácil hoje olhar para trás e assumir que o desfecho daquele dia estava escrito, não estava.
A democracia portuguesa, jovem e vulnerável, que seguia desgovernada, num tropel revolucionário dirigido por um plano que tinha como arquitecto o Partido Comunista Português sob a égide da União Soviética, poderia ter tomado caminhos irreversíveis. E o país que hoje conhecemos plural, europeu e aberto ao mundo, talvez nunca tivesse existido, ou, pelo menos, naqueles anos da década de 70 e seguintes.
Ao restabelecer o equilíbrio democrático, o 25 de Novembro permitiu que Portugal seguisse o seu percurso plural, sem hegemonias políticas, sem imposições ideológicas e sem soluções de força. A liberdade que hoje respiramos, e que tantas vezes consideramos garantida, ou mesmo mitigada segundo alguns “radicais da liberdade”, resulta desse difícil reencontro do país consigo próprio.
Comemorar esta data não deve ser apenas um exercício de memória histórica, deve ser também um momento de convocação cívica. Se há algo que o 25 de Novembro nos ensina é que a democracia precisa de cidadãos presentes, informados e envolvidos. A indiferença é sempre terreno fértil para ameaças, ontem e hoje.
Ontem como hoje, houve uma maioria silenciosa que por vezes é necessário fazer despertar.
É com este espírito que surge o livro “50 VEZES 25 de NOVEMBRO – 32 olhares sobre o caminho da liberdade”. Não se trata de uma obra académica no sentido estrito, nem de uma coleção de relatos lineares. É um mosaico vivo de memórias, reflexões, inquietações e interpretações. Trinta e dois autores de gerações e percursos distintos, oferecem visões que, em conjunto, constroem um retrato plural de um momento que marcou Portugal para sempre.
O livro nasce de um gesto de gratidão e de responsabilidade. Gratidão para com aqueles que, em 1975, souberam decidir o futuro num cenário intenso e imprevisível. Responsabilidade para com as gerações presentes, que merecem compreender a densidade do caminho democrático que herdaram. Coordenar esta obra foi reencontrar a pulsação de uma memória que continua viva e que, por vezes, continua também a pedir reconciliação e diálogo. A história não é uma peça imóvel; é um campo de sentidos, de memórias presentes e ausentes, todas parte do país que somos.
E porque a democracia se alimenta de encontros e partilhas, fica aqui um convite claro: no próximo dia 25 de Novembro às 18 horas apareçam no Auditório da Biblioteca Municipal de Marvila, em Lisboa.
Será mais do que uma apresentação de livro. Será um momento de reflexão colectiva, de debate aberto e de reencontro com a dimensão humana, política e emocional de um dos dias mais importantes da nossa vida democrática. Num tempo em que a liberdade volta a ser posta à prova em várias geografias, participar é, também, um gesto de cidadania.
Celebrar o 25 de Novembro é afirmar que a democracia vale a pena. E, cinquenta anos depois, continua a exigir-nos aquilo que a tornou possível: presença.
A propósito da comemoração dos cinquenta anos do 25 de Novembro de 1975 e da publicação do livro: “50 VEZES 25 de NOVEMBRO – 32 olhares sobre o caminho da liberdade”
Prefácio – Pedro Passos Coelho
Contribuições – Alberto Braz, António Leite da Costa, António Tânger Corrêa, António Tavares, Diogo Pacheco de Amorim, Fernando Pedroso, Gonçalo de Melo Bandeira, Isabel Ponce de Leão, Jaime Nogueira Pinto, Jerónimo Fernandes, Joana Amaral Dias, João Maurício Brás, João Soeiro da Costa, Joaquim Jorge, Jóni Cardoso Coelho, José António do Carmo, José de Carvalho, José Luís Andrade, José Luís Tavares, José Meireles Graça, Lourenço Ribeiro, Miguel Côrte-Real, Miguel Nunes da Silva, Nuno Lebreiro, Nuno Simões de Melo, Pedro Cassiano Neves, Ricardo Dias de Sousa, Riccardo Marchi, Rodrigo Costa, Rui de Azevedo Teixeira, Rui Moreira, Vasco Rato