O assassinato de Charlie Kirk pôs muita gente a lamentar a polarização política nas democracias ocidentais. Como se termos opiniões diferentes e discutirmos com veemência fossem, em si, o problema. Desculpem, mas não é o caso. A democracia existe para nos podermos dividir e exaltar. O problema também não é o estilo deste ou daquele político. Uma democracia abrange muitos estilos. O que a democracia não pode abranger é a violência física, a violação da lei, o crime. É esse o problema. E desse ponto de vista, o problema não é igual em todos os lados do espectro político: é especialmente da esquerda.
Também há gente violenta à direita? Sem dúvida. Mas a direita não tem um problema com a violência como a esquerda. A explicação não é moral: é histórica e política. À direita, as correntes de opinião que associam a política à violência não têm a mesma ascendência. As direitas deploraram quase sempre esses supremos exercícios de violência política que são as revoluções. As esquerdas, pelo contrário, nunca se purgaram completamente da mitologia jacobina da libertação através da violência. No século XX, a influência comunista incrustou na esquerda a visão revolucionária do mundo. Para um revolucionário, a democracia liberal é apenas a “ditadura da burguesia”, e a economia de mercado é a “escravidão dos trabalhadores”. Todas as eleições estão viciadas, todos os debates são inúteis, todas as reformas são uma ilusão, todo o povo está “alienado”, todos os adversários são “fascistas”. A violência é o único recurso. Foi assim que os terroristas dos anos 1970 justificaram os seus crimes. Foi assim, no ano passado, que Luigi Mangione arranjou fãs por abater um homem pelas costas.
Nem toda a esquerda fala ou pensa assim? Certamente. No Ocidente, a esquerda democrática argumentou durante anos contra esse dogmatismo revolucionário. Nas últimas décadas, porém, o seu zelo abrandou. O fim da União Soviética fez-lhe perder o receio do comunismo. Em contrapartida, ganhou muito medo às direitas liberais e nacionalistas, que sentiu em vantagem nos debates sobre finanças ou migrações. Para lhes resistir, aliou-se a comunistas e neo-comunistas, e assistiu com passividade quando não com simpatia às exibições de força do activismo esquerdista, do Occupy Wall Street à “globalização da Intifada”. Julgou, talvez, que o esquerdismo à solta nas ruas, nas universidades e na comunicação social diminuiria o espaço de manobra das direitas. Não foi por acaso que o revolucionarismo, em versão woke, se espalhou tanto. Tinha uma parte do establishment do seu lado, e outra parte demasiado intimidada para reagir.
No ano passado, vimos Kamala Harris chamar “fascista” a Trump. É verdade: também Trump despejou sobre Kamala demasiados nomes. Mas Trump, ao chamar-lhe “burra”, foi apenas grosseiro. Kamala, ao denunciá-lo como “fascista”, apontou Trump ao activismo esquerdista como um perigoso inimigo a abater. Alguém respondeu à chamada. Trump teve apenas a sorte que faltou a Charlie Kirk. É possível etiquetar e criticar Trump de muitas maneiras. Mas a insistência dramática no “fascismo” e na “ameaça à democracia”, ou as comparações histéricas com Mussolini e com Hitler não são polémica política nem análise histórica: são, numa esquerda que nunca se libertou da mitologia da violência política, uma licença passada aos fanáticos e aos desequilibrados para tentarem escrever a história a tiro.
O problema da violência não é universal, nem deriva da intensidade do debate político ou da gravidade das questões. É, neste momento, um problema da cultura revolucionária da esquerda. O assassinato de Kirk deveria pôr aquela esquerda que se quer democrática a reflectir na irresponsabilidade que é acolher a visão do mundo dos sonhadores de guerras civis.