Numa recente e bem-disposta conversa sobre Inteligência Artificial, Mobilidade e  Transição Energética, surgiu um paralelo curioso: enquanto EUA e China aceleram na adoção de IA, a Europa, em matéria de inovação e disrupção, parece ocupar-se com  medidas simbólicas e de impacto limitado — como obrigar as tampas das garrafas a  permanecerem presas ao gargalo.

Importa ser justo: o objetivo é legítimo — reduzir o número de tampas que acabam soltas  na natureza. Mas a questão central não é o mérito da medida em si. A questão é o  desalinhamento entre o investimento feito e o impacto real obtido, especialmente quando  alternativas mais eficazes — como a limpeza de rios na Ásia ou na América do Sul, a  educação ambiental ou a criação de infraestruturas de recolha de resíduos — permanecem  subfinanciadas, e o que isto revela sobre as prioridades de uma Europa mentalmente  agrilhoada.

De facto, numa Europa que tarda a reagir à maior disrupção tecnológica do século — a  Inteligência Artificial —, o foco obsessivo em micro regulação tornou-se quase caricatural.  Regulamos a embalagem com zelo extremo, enquanto ignoramos a avalanche que nos  vem por trás: os algoritmos, os chips, os robôs, os sistemas que já estão a transformar o  mundo em que vivemos — mas que não vêm com tampinha.

Nos EUA, a Tesla substitui linhas de código por decisões aprendidas diretamente com os  condutores — carros que “aprendem” a conduzir como os humanos, mas sem os seus  erros. O sistema Full Self Driving já opera em piloto real. Na China, serviços como o  Pony.AI oferecem robotáxis autónomos em várias cidades, e empresas como a Xpeng  desenvolvem chips capazes de traduzir imagens em decisões em milissegundos. Esta é a  revolução em marcha.

Na Europa, o AI Act é celebrado — mas impõe barreiras antes de as soluções sequer  chegarem. O iOS 26, da Apple, será lançado amputado no mercado europeu uma vez que  por cá não poderemos usar as novas ferramentas de IA incluídas no sistema operativo  porque a legislação não permite. Ironia: enquanto o resto do mundo acelera, a Europa  preocupa-se com os termos de uso da função “copiar e colar inteligente”.

Regulamentar é preciso. Mas regular com medo, antes de compreender, é  autossabotagem. Um exemplo: um carro de car sharing não pode ser localizado durante  a viagem — mesmo se for roubado. O regulador europeu considera que isso seria uma  intrusão na privacidade do condutor. Resultado: a empresa que alugou o carro não pode  saber para onde ele foi, até que pare. Protege-se o eventual infrator, não o legítimo  proprietário. Este tipo de pensamento, profundamente enraizado na cultura europeia,  prejudica a inovação sem proteger verdadeiramente ninguém.

A inteligência artificial não é uma moda — é uma mudança de paradigma. Vai transformar  a forma como nos movemos, como decidimos, como trabalhamos. E, como toda a  tecnologia, tem riscos. Mas o papel da política não pode ser o de colocar barragens na  montanha. O papel da política é canalizar a água para que chegue ao mar com propósito,  eficiência e segurança. Ainda na conversa animada que mantinha com o meu interlocutor  sobre este tema, este, profundamente conhecedor da realidade fruto de muitos anos de  experiência na área, sintetizava de forma lapidar: “A IA vai sempre chegar. A questão é se  queremos que passe por nós.”

A Europa tem 400 milhões de utilizadores de automóveis. Um mercado gigantesco. Mas  em vez de usar a IA para melhorar o serviço, prever necessidades, otimizar fluxos e apoiar  a sustentabilidade, preferimos limitar a recolha de dados — mesmo que o utilizador  consinta — e manter o status quo. Pior: a obsessão com o “opt-out” e a burocracia dos  consentimentos faz com que os próprios cidadãos europeus fiquem privados de serviços  que, em qualquer outro lugar do mundo, já são norma.

Estamos a regular o passado, enquanto o futuro se faz noutros continentes. É legítimo  defender valores, princípios, privacidade. Mas é irresponsável ignorar o impacto que a  inércia regulatória tem na competitividade, na inovação, no bem-estar futuro da sociedade  europeia. Estamos a proteger-nos de um risco estatístico enquanto abrimos mão da  oportunidade histórica.

A IA é inevitável. A escolha é como a queremos: alienados ou protagonistas. Podemos  continuar a legislar tampas de garrafas. Ou podemos decidir que é tempo de criar algo  que não se perde com o vento.