2h15 – Após verificar que os protestos dos coletes amarelos deixaram o governo atento, a GNR atenta, a PSP atenta e a Força Aérea atenta, decido permanecer também atento e acompanhar em pormenor o dia do anunciado Apocalipse. Garanto a mim mesmo que ao longo de 24 horas não pregarei olho, a vigiar a partir do computador o caos que ameaça o meu querido país.

2h25 – Adormeço.

5h20 – Acordo e faço café.

5h30 – Acedo ao manifesto dos coletes amarelos. Infelizmente, a internet destruiu-nos a capacidade de concentração e, logo ao fim de dois parágrafos, dou por mim a desistir da leitura para comprar sapatos num site de vendas. Vale que não preciso de ler o manifesto para compreender no que consiste o movimento. Aos poucos, e sempre entre sites de sapatos, relógios e peúgas desportivas, vou espreitando o que inúmeras pessoas esclarecidas disseram acerca dos prometidos tumultos. O sr. Arménio da CGTP, por exemplo, uma personalidade inegavelmente equilibrada, revela que a coisa não passa de um bando de arruaceiros que “querem instabilidade para dar força à extrema-direita”. Ai, os marotos. Deve a isto que o dr. Ferro Rodrigues, sujeito impecavelmente asseado, chama o “mau cheiro populista que sopra da Europa”. Ainda que figurativo, o fedor incomoda-me. Volto a adormecer.

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