Esqueçam a Mariana Mortágua e a Sofia Aparício naquela estrambólica viagem marítima para Gaza aonde nunca quiseram chegar e olhem para Rui Tavares durante a discussão no parlamento do projecto de lei que proíbe a ocultação do rosto nos espaços públicos em Portugal.

Rui Tavares, em tom exaltado (parecia um Pedro Pinto em ponto pequeno), grita que é contra as burcas e não só. Também é, vocifera ele, “contra os gajos que são a favor da burca”. Ao ver o estardalhaço é-se levado a pensar: o líder do Livre percebeu, finalmente, a armadilha a que o islamismo-esquerdista conduziu as sociedades ocidentais em geral e a esquerda em particular. Ou então anda insone com o futuro do Livre, um partido que existe em função do PS mas o PS não sabe ao certo qual é sua função, o que manifestamente é de tirar o sono qualquer um. Mas eis que o mesmo homem que gritava que é contra as burcas e “contra os gajos que são a favor da burca” votava pouco depois contra o projecto de lei que proibia precisamente o rosto oculto nos espaços públicos, o que tanto é válido para a burca como para as balaclavas, capacetes e demais trapologia e artefactos para tapar o rosto (chamar-lhe lei da burca é por isso mesmo um erro mas é nesta desfocalização dos problemas que vivemos!)

Voltemos portanto a Rui Tavares a gritar que é contra as burcas para logo em seguida votar a favor delas, uma contradição que, sublinhe-se, está longe de se restringir a um partido de nicho como é o Livre: na passada sexta-feira, do BE ao PS, a esquerda votou em peso contra o projecto de lei que proíbe o rosto oculto nos espaços públicos. Porquê? Porque a lei “está feita com os pés” (Livre); “viola o princípio constitucional da liberdade de consciência e religião” e “Num país livre, o Estado não deve impor modos de vida” (BE); porque o debate sobre a “utilização da burca “não é um debate sobre um problema emergente na nossa sociedade” e problemas como a precariedade das mulheres no mercado de trabalho é que importam (PCP).

Todos estes argumentos soam a falso porque são falsos: se a lei está mal feita (e admito que estará) melhora-se na especialidade como aconteceu a tantas outras leis quiçá até pior concebidas. Quanto à violação da liberdade de religião subjacente à proibição da burca alegada pelo BE é uma falácia e um erro. Falácia porque aquilo que a tolerância face ao uso da burca revela é antes uma cedência excepcional face a um determinado grupo. Na verdade não podemos tolerar alguém com o rosto oculto na rua por razões alegadamente religiosas pela mesma razão que não toleraríamos quem invocasse as suas crenças religiosas para andar nu ou para ver reconhecidos os seus casamentos polígamos. Este argumento lavra também num erro politicamente perigoso (ou será uma opção consciente?) pois ao tolerarmos o uso da burca e do niqab estamos a privilegiar os sectores mais fundamentalistas do Islão.

Depois temos a velha técnica da extrema-esquerda de questionar os direitos e deveres: “Num país livre, o Estado não deve impor modos de vida” diz a deputada bloquista que está a substituir Mariana Mortágua, um argumento de absoluta má fé  pois não só o Estado é precisamente a instituição que organiza e enquadra num conjunto de regras comuns o modo de vida dos seus nacionais, como aquilo a que a tolerância face ao fundamentalismo islâmico tem conduzido é precisamente à imposição por parte dos radicais de regras que atentam contra a liberdade e os modos de vida dos estados. Por exemplo, quando o estado espanhol excluiu, como aconteceu este ano, a carne de porco dos menus dos refeitórios das escolas públicas de Ceuta e obriga também que seja halal a carne dos outros animais consumidos nessas escolas espanholas — e sublinhe-se que são espanholas — não só não está a defender o modo de vida dos seus cidadãos (e entre eles há certamente quem coma carne de porco e quem não coma) como a deixar que outros imponham os seus modos de vida.

Já sobre o argumentário do PCP de que a utilização da burca “não é um debate sobre um problema emergente na nossa sociedade” nem vale a pena escrever, mas ainda acrescento que se o PCP quiser perceber o porquê da sua presente irrelevância  pode começar por fazer o levantamento de tudo aquilo que considerou não emergente na sociedade portuguesa e depois falamos.

E assim chegamos ao PS. Pedro Delgado Alves declarou que é sua convicção que não há ninguém no Parlamento “que se sinta confortável com a utilização de burca”. para logo em seguida votar contra a lei que a proíbe no espaço público. Portanto Pedro Delgado Alves “tavarizou”: é tão contra a burca que não consegue votar a sua proibição! Neste caso não por a lei estar mal feita mas sim porque o debate catapultado pelo Chega só pretende “atacar estrangeiros”. Se Delgado Alves queria evitar que o Chega catapultasse o debate podia ter levado o seu partido a apresentar um projecto de lei sobre este tema. Porque não o fez?

Mas vamos à outra observação de Delgado Alves. Para o parlamentar socialista esta lei pode ter o efeito contrário com “as poucas mulheres que estão obrigadas à utilização da burca em Portugal” a ficarem “trancadas em casa”.  Sim, é um risco que algumas mulheres evitem sair (ou saiam de máscara como se fossem eternas doentes de Covid) mas é um risco menor que permitir que usem burca. Porquê? Porque não podemos deixar que os serviços públicos portugueses se transformem num campo de batalha com mulheres que não se identificam, acompanhadas por homens que exigem servir de intermediários.

Temos de ser absolutamente claros nesta matéria sob risco de vermos acontecer nos nossos hospitais, escolas, juntas de freguesia, tribunais… o mesmo que em várias zonas de França. Nos serviços públicos portugueses não pode haver lugar para burcas, nem para atendimentos por equipas só de mulheres, nem homens a falar pelas mulheres. Quanto ao argumento político do vice-presidente da bancada socialista — o debate catapultado pelo Chega só pretende “atacar estrangeiros” — só falha no alvo. Sim, o debate foi catapultado pelo Chega, não tanto para atacar estrangeiros mas sobretudo para explorar as debilidades da esquerda. Afinal esta geringonça islamo-esquerdista vai estraçalhar a esquerda e Ventura não só não o ignora como o explora.

Tal como a sem vergonha da flotilha dita humanitária ficou exposta quando chegaram as imagens da barbárie grassando pelas ruas de Gaza após a saída das tropas de Israel, com aqueles a quem os flotilheiros chamavam resistentes exibindo-se no seu esplendor facínora, o desastre político desta flotilha que agora atracou no parlamento sobressai na contradição insanável entre a liberdade que as suas palavras defendem e a opressão que os seus votos legitimam.  É a chamada flotilha da esquerda a pique.