O nosso Eça, entomólogo moral da burguesia, retratou um dia as suas “duquesas moças, cobertas de diamantes”, que condenavam “a má organização da sociedade, comendo codornizes trufadas em pratos de Sèvres”. Descrição clínica e imperecível de uma elite que, entre garfadas de luxo, descobria o prazer estético da revolta moral. Quanto maior a miséria alheia, maior o deleite estético. Deleite afrodisíaco, inigualável, sádico. E, por isso mesmo, actual.
Os diamantes parisienses foram substituídos pelos lenços palestinianos, as codornizes trufadas por selfies envaidecidas e os salões cintilantes de Paris pelas águas mansas do Mediterrâneo. Mas o essencial, que nunca muda, não mudou. As duquesas de Eça já não citam abertamente Karl Marx e o Comintern, mas, devidamente adaptados ao palato contemporâneo, Francesca Albanese e a ONU. Marx, aliás, previra-o quando, pretendendo corrigir Hegel, disse que as grandes figuras históricas aparecem sempre duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.
Dizem as duquesas que navegam por Gaza, mas, na verdade, é apenas por si mesmas que navegam. O seu destino humanitário termina sempre no ponto em que começou: o espelho. As crianças palestinianas, essas, são apenas figurantes de uma dupla encenação: a propaganda terrorista do Hamas e o teatro narcisista dos seus idiotas úteis. Para as novas duquesas, os palestinianos não existem senão como superfícies reflectoras, espelhos vivos onde a consciência revolucionária, derrotada pela história e corroída pelo tédio, contempla, fascinada, a sua própria inocência reencontrada. O sofrimento dos palestinianos não passa do objecto estético onde ensaiam o eterno papel de redentoras. Como outrora Alcibíades que, segundo Plutarco, cortou o rabo ao próprio cão apenas para que dele, e não do cão, se falasse, com pena, em Atenas, é a sua dor fingida, e não a dor autêntica do povo palestiniano, que ocupa o centro da cena.
Por isso é que, antes mesmo de chegarem a Israel, já o drama não era o sofrimento dos palestinianos, mas o seu próprio: ei-las sem água, sem comida, sem telemóveis, drones no ar, ABBA na rádio, percevejos na cela – juram as duquesas, indignadas com a falta de requinte com que são forçadas, pelos sionistas, a combater o sionismo. Nos relatos fidedignos que extraem da sua imaginação, vislumbra-se um autêntico Auschwitz em plena costa do Levante. É delas, sempre delas, o centro da cena onde decorre a dor humana mais pungente. Não são instrumentos ao serviço do sofrimento dos palestinianos: os palestinianos é que são instrumentos ao serviço da sua vaidade. O sofrimento dos palestinianos não lhes é intolerável: é-lhes indispensável, desde que apropriável.
Jamais as duquesas permitiriam aos palestinianos serem os protagonistas do seu próprio sofrimento: diante da vaidade – sobretudo daquela que se crê virtuosa –, nem sequer o sofrimento pertence a quem sofre.
E como nenhuma causa pode dispensar a sua santa padroeira, a das novas duquesas não é Rosa Luxemburgo, nem Rosa Parks: é Madame Bovary. Como ela, padecem de um excesso de imaginação moral e uma incurável carência de realidade. Desejam o fim da injustiça, mas apenas na condição de que ele possa ser fotografado atrás de si; aspiram à redenção universal, contanto que não seja necessário abrir mão do conforto pessoal. “Ela queria simultaneamente morrer e viver em Paris”, escreve Flaubert.
Emma lia romances para se sentir heroína; as novas duquesas lêem relatórios da ONU para se sentirem redentoras. Emma queria sofrer como se sofria nos livros, Greta e Mortágua querem sofrer como se sofre em Gaza – desde que, ao contrário de quem sofre em Gaza, possam entrar e sair a seu bel-prazer e não serem incomodadas por ABBA e percevejos.
Para umas e outras, o sofrimento humano é uma forma de estilo, uma estética: uma mise-en-scène interior que, para existir, exige plateia. Como Emma, que amava o amor mais do que os amantes, as duquesas contemporâneas amam mais o sofrimento do que o sofredor. Gaza, para elas, é apenas o novo Yonville-l’Abbaye: um microcosmo fictício onde a mediocridade da vida se sublima em ideal romântico. E se Emma se envenenava com arsénico, estas envenenam-se de moralismo – arsénico estético que lhes permite morrer todos os dias de virtude sem nunca viver, quanto mais morrer, de verdade.
Com ou sem consciência disso, este excursionismo da virtude acaba sempre por remar na mesma direcção que o Hamas, que, como um titereiro hábil, o conduz em mar e em terra. Quando as autoridades israelitas abordaram as embarcações, não havia ajuda humanitária digna desse nome. Não foram sequer, na verdade, para furar o bloqueio ilegal, desde logo porque, por uma daquelas ironias do direito internacional, ele não o é. O Manual de San Remo que o rege autoriza tais bloqueios, cumpridos os devidos requisitos: notificação, eficácia, propósito militar. O caso, precisamente, de Gaza.
Ironia suprema: as duquesas chegam ao seu destino no preciso instante em que o próprio Hamas se descobre a sós: abandonado até pelos países árabes e muçulmanos da região e pela própria Autoridade Palestiniana. O que sobra é o triste espectáculo de um resto de viúvas do totalitarismo a carpir e a remar pelo que resta de fantasmas do terrorismo – uns, exibindo-se no mar, a acorrer aos outros, escondidos debaixo da terra: destroços a tentar salvar escombros.
Incapazes de aceitar o novo mapa do Médio Oriente e a reconfiguração regional sem precedentes — Gaza, Líbano, Síria, Irão, Iémen –, comportam-se como os que choraram a queda de um certo muro em Berlim há mais de trinta anos, também aí lançando os tijolos derrubados contra os ventos erguidos da História. As duquesas, hoje como ontem, em Gaza como em Berlim, chegam tarde, uma vez mais, a um palco ideológico já deserto, já desertado. Órfãs – e, no entanto, também elas, já defuntas.
Mais inquietante, contudo, é o papel do Estado português, que em poucas semanas conseguiu erodir décadas de prudência diplomática. Primeiro, oferecendo a bênção simbólica – e, como se viu dias depois, totalmente inútil – a uma Palestina sem fronteiras nem governo. Depois, concedendo à excursão da deputada com mandato suspenso voluntariamente o timbre de respeitabilidade oficial, esquecendo que, se ainda há portugueses por libertar, não são os quatro que se passearam, durante semanas, no Mediterrâneo, mas os quatro que permanecem, há dois anos, sequestrados nos túneis de Gaza.
O Governo português deixou-se, objectivamente, condicionar e arrastar por uma aliança entre os irrelevantes e os oportunistas, unidos na aversão comum à NATO, à União Europeia, aos Estados Unidos e, cada vez mais, ao povo judeu. A política externa portuguesa, outrora discreta e prudente, deixou-se secundarizar pelos interesses da esquerda nacional e internacional, na sua expressão mais radicalizada. Esperar-se-ia que um tão experiente povo de navegadores não se deixasse enganar por bússolas tão desorientadas.
Era Churchill que lembrava que “um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo, na esperança de ser o último a ser devorado”. Metáfora que assenta, como um fato inglês, na diplomacia conduzida pelo actual Governo português. Em vez de reconhecer a natureza do fanatismo, o Governo prefere dar-lhe de comer (com notas verbais, recepções protocolares, declarações de reconhecimento) na esperança ingénua de que o monstro, uma vez saciado, se deite a dormir. Mas os crocodilos não dormem: esperam. E quanto mais lhes damos a ilusão de respeito, mais lhes aguçamos o instinto de desprezo.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros tornou-se, assim, num curioso viveiro moral: alimenta crocodilos em nome da paz, enquanto estes, parcialmente submersos, afiam os dentes na margem oposta. Como sempre sucede com os crocodilos da História, quando terminarem de digerir os seus inimigos declarados, começarão a devorar, sem pressa, os seus alimentadores distraídos.
Acresce a isto a questão que ninguém – nem autoridades, nem comunicação social – ousa formular em voz alta: quem financiou a chamada “flotilha”? Terá sido o Bloco de Esquerda, esse partido que, empobrecido de votos e de recursos, tenta agora compensar na teatralidade o que perdeu na substância que nunca teve? E que relações ligam a flotilha ao Hamas, o grupo terrorista responsável pela tragédia actual em Gaza?
O Ministério dos Negócios Estrangeiros deve explicações ao país: explicações urgentes, transparentes e completas. Num Estado europeu e democrático, a diplomacia não pode ser instrumento de facção, nem se deixar confundir com causas de índole terrorista ou anti-semita. A esquerda radical europeia encontra-se, de facto, ao lado do Hamas e do radicalismo islâmico, haja ou não pacto formal. O que, de resto, não constitui nada de novo: sempre marchou, com a mesma fé cega, ao lado de todos os fanatismos sangrentos do século passado e presente: da ETA ao IRA, das Brigadas Vermelhas ao Sendero Luminoso, da utopia revolucionária ao apocalipse teocrático. O Terror está na sua origem, nos seus meios e no seu fim.
Portugal, porém, não tem obrigação nenhuma para com estes vassalos do terror. Nenhuma. A flotilha é uma iniciativa privada, e ideológica, que devia ter ficado à deriva com as suas próprias convicções. Cada euro gasto no seu resgate é dinheiro subtraído às comunidades portuguesas esquecidas pelo mundo, e um tributo involuntário à mais velha tentação da Europa: a de confundir o terror com a justiça e a violência com a virtude.
No fim, as duquesas de Eça e os crocodilos de Churchill pertencem à mesma fauna moral: choram fingidamente enquanto devoram com convicção. Ambos consomem aquilo mesmo de que se dizem solidários: as duquesas, o sofrimento alheio; os crocodilos, a presa viva. Em ambos, as lágrimas não negam nem interrompem o apetite: apenas o disfarçam. Porque, em certas espécies – morais mais do que zoológicas –, a lágrima é a forma suprema da fome: a armadilha do predador.