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Um percurso rápido pelo LinkedIn dá-nos essencialmente seis dimensões/áreas/tópicos de posts que vão criando segmentos e que vão alimentando visualizações e gostos. Todos somados, são uma espécie de “trabalho” de nurturing e self-nurturing de uma comunidade. E são, de certa forma, um “trabalho” que uma comunidade vai fazendo para alimentar e alimentar-se, motivar-se, procurar desenvolver-se, aspirar à resiliência, não baixar braços e não desistir.

Esses grupos, mais coisa menos coisa, e retirando todos os informativos, comunicativos e comerciais, tal como os de objetivos alcançados, centram-se em:

  1. “O chefe versus o líder”, talvez o mais postado, fazendo alusões às mais variadas formas de expressão da dita dicotomia;
  2. “A superação e o vencer limites”, muito inspirado em deficiências físicas, handicaps e no desporto;
  3. “A equipa e o trabalho de equipa”, depositando orgulho em pertencer a uma equipa e revelando a grandeza do sentimento de pertença;
  4. “O espírito de resiliência”, i.e., o desenvolvimento de esforços próprios de auto-conhecimento, de luta diária, de disciplina, para não desistir, para ser capaz de, apesar das derrotas, voltar a tentar, apresentando-se como guerreiro resiliente (ligeiramente diferente do ponto 2.;
  5. O desenvolvimento de inúmeras “causas sociais” (e não só) e, frequentemente, de responsabilidade social;
  6. Finalmente, mas não menos importante, “o tema da felicidade” e os múltiplos happiness posts isolados ou pertencendo a muitas das categorias supra ao promoverem pontes para a felicidade.

É precisamente este último o tópico que me importa hoje trazer a texto, porquanto se sabe que, em isolamento, a menos que com grande preenchimento espiritual (onde pontuam muitíssimo poucos e que optam, deliberadamente, por essa via e vida), se torna quase impossível apresentar um bem-estar subjetivo percebido interessante.

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O bem-estar subjetivo percebido é o que se pode designar por qualidade de vida.

Nível de vida é dinheiro, é posse.

Bem-estar subjetivo percebido não é nível de vida, mas qualidade de vida. E qualidade de vida é a diferença entre as expetativas que temos em relação a amigos, família, casa, trabalho, entre vários outros, e a realidade vivida. É isso, no fundo, a felicidade. Se a diferença for pequena, i.e., se se conseguir gerir bem a diferença entre as expetativas formuladas e a realidade vivida é-se tendencialmente mais feliz. O que significa que se torna mais simples gerir uma diferença mais pequena entre expetativas e realidade. E não, não é uma apologia à frugalidade. É uma apologia ao verdadeiro conceito de felicidade.

Se não se consegue gerir bem a diferença entre expetativas formuladas e realidade vivida é-se tendencialmente mais infeliz. E isto é mensurável por inquérito. É mais ou menos objetivo, tanto quanto estas coisas podem ser objetivas.

Ora dentro das expetativas, ou a contribuir para elas, estão as relações sociais, os amigos, a família e todos aqueles que connosco fazem esta caminhada de vida. E, não menos, gente, pessoas, ilustres desconhecidos com quem nos cruzamos e que povoam os nossos cenários e as nossas paisagens em tempos ditos normais.

O LinkedIn proporciona-nos muitas coisas boas, sem dúvida. Mas contribui fortemente para que, no geral, as pessoas tenham tendência a elevar expetativas, aumentando a diferença entre essas mesmas expetativas e a realidade vivida. Por isso, embora postados por bem, os happiness posts, e em benefício da comunidade, podem acabar por ter o efeito exatamente contrário. Podem frustrar e criar ainda mais infelicidade. Pior, as comparações com os achievements de terceiros distantes podem trazer ainda mais expetativas por realizar e agudizar a diferença entre expetativas criadas/formuladas e realidade vivida.

Isto dito e tudo somado, há que perceber que o confinamento, qualquer que seja a idade, ao retirar as componentes sociais reais, que ajudam a atenuar a diferença entre expetativas e realidade vivida, apenas aprofundam os níveis de infelicidade. E ao fazê-lo, e ao frustrar cada vez mais e mais pessoas, está-se a retirar-lhes o prazer de viver, o ânimo, a vontade de se superarem, de se tornarem resilientes e de terem força para aguentar. A procrastinação pode ser, e é frequentemente, um plateau onde se vegeta. Neste contexto, os happiness posts deviam ser banidos.

Assim, se é importante sair da crise, é igualmente importante sair dela com saúde mental e um equilíbrio que tem que ser conseguido com natureza, passeios, exercício físico, pequenos divertimentos e distrações, aspetos completamente opostos aos estupefacientes tecnológicos que se nos apresentam dia após dia através da bondade fofa dos happiness posts. E, por isso, o seu uso contido deve tornar-se uma praxis se se quiser fazer uma travessia saudável da crise que, infelizmente, está para durar.

Seria demais pedir algum refreio nos múltiplos posts sobre felicidade (happiness posts).  Antes de postar é mesmo preciso saber o que se adequa aos tempos que correm e o que deve estar fora de equação. Sob pena de se andar a comunicar para frustrar e não para construir. E, do outro lado, sob pena de se andar a ler (e acreditar) o impossível e a criar expetativas que jogam mal com a realidade.

Neste momento há aspetos bem mais compensatórios do que os suprarreferidos posts e que assentam antes na dádiva, na ajuda, na partilha, na construção conjunta, enfim, na humanização real que estas redes precisam para a situação que vivemos.

Não, pois, às frases feitas e aos slogans repetidos das mais diversas fontes (os happiness posts) e que, se bem-intencionados, não contribuem em nada para os níveis de felicidade. Sim às partilhas mais próprias, mais pessoais, trazendo mais os casos de insucesso e as provações pelas quais se passa. Sem dramas. E isto é importante: casos reais sem dramas! Mas banhos de realidade. Esses banhos de realidade, sem dramatismos, ajudam a baixar expetativas. Porque a ilusão da felicidade, nomeadamente a que se vê em muitos posts, não tem preocupações humanas. A ilusão da felicidade não é a felicidade, além de que mata.