O PS nunca consegui governar mais de seis anos seguidos. Mário Soares foi duas vezes PM, mas nunca passou dos dois anos. Guterres esteve pouco mais de seis anos em São Bento. E o mesmo se passou com Sócrates. António Costa seguramente quer ser o primeiro chefe de governo socialista a passar os seis anos no cargo e, se possível, a concluir duas legislaturas. Na democracia portuguesa, só Cavaco foi PM mais de seis anos, durante dez anos.

No caso dos Presidentes da República, são sempre reeleitos. Foi assim com Eanes, Soares, Sampaio, Cavaco e será, certamente, com Marcelo. Há um lado monárquico na política portuguesa. Os Chefes de Estado duram. Mas o poder executivo desgasta. Conseguirá Costa resistir ao desgaste que derrubou os seus camaradas no passado?

Há quem note uma diferença importante entre o governo de Costa e os governos de Guterres e o segundo de Sócrates: o actual tem o apoio do PCP e do Bloco, o que lhe dá uma maioria parlamentar. Não é um argumento forte. Desde logo, não é uma maioria parlamentar sólida; quando é maioria, é frágil e precária. Aliás, as maiorias parlamentares de mais de um partido, em Portugal, não tendem a ser estáveis nem duradouras. Mário Soares fez um governo maioritário com o CDS, e nem um ano durou. O Bloco Central, outra maioria liderada por Soares, durou dois anos. Dos cinco governos de coligação maioritária entre o PSD e o CDS, só um, o último, liderado por Passos Coelho, fez toda a legislatura (o primeiro acabou por causa das mortes trágicas de Sá Carneiro e Amaro da Costa).

Há outro argumento mais válido. O PS precisa de dinheiro para governar e, mais, gosta de ter dinheiro para distribuir. O pobre do Soares foi PM em tempos de penúria. O Guterres fartou-se do partido (inteiramente compreensível) e percebeu que o dinheiro começava a escassear. Muito mais teimoso do que Guterres, Sócrates só se foi embora quando o dinheiro acabou, pelo menos o público. No caso de Costa, vem aí dinheiro fresco da Europa.

A “bazuca europeia” pode dar uma nova vida ao governo socialista. O partido, pelo menos, não quer abandonar o poder sem gastar e distribuir os milhões de Bruxelas. O problema é que ainda ninguém sabe quando começa a chegar o dinheiro. Nem se chega a tempo de evitar uma grande crise económica e social. Já sabemos que no próximo ano, Portugal só receberá 10% das doações que foram atribuídas. Os socialistas tudo farão para evitar que Costa abandone o poder antes dos restantes 90% chegarem. Para o PS, pior do que um PM que gastou mal o dinheiro (como Sócrates), só um PM que se vai embora antes de gastar o dinheiro.

Apesar do incentivo financeiro europeu e da domesticação das extremas esquerdas, há sinais claros de divisões no governo e no PS. A candidatura presidencial de Ana Gomes demonstra essas fracturas. Aliás, o facto de Ana Gomes se candidatar contra a vontade de António Costa mostra fraquezas que não deveriam existir pouco mais de um ano depois da reeleição do PS.

Os ministros já discordam do PM em público, discutem entre eles acerca das eleições presidenciais, e começam a preparar-se para o day after. Os militantes de um partido como o PS cheiram ao longe os primeiros sinais de desgaste de poder. Começa a cheirar a ar de fim de festa mesmo antes de começar a festa dos milhões europeus.

Terá António Costa paciência durante mais três anos para continuar a aturar as birras do Pedro Nuno dos Santos e as exigências da Catarina Martins? Esta será uma das questões decisivas da política nacional. A presidência europeia de Portugal, entre Janeiro e Junho do próximo ano, ainda o vai afastar mais da política portuguesa. Quanto mais tempo passar com Merkel, Macron e Von der Leyen, menos paciência terá para os Pedros e as Catarinas das esquerdas. Em política, a natureza humana é irresistível.

Não sei quando, se no fim do próximo ano, se em 2022, mas chegará um dia em que António Costa vai decidir que está farto e que se quer poupar para as eleições presidenciais de 2026. Não é evidente que seja Costa a acabar com a maldição socialista dos seis anos.