O contraste com o norte da Europa
Enquanto nos países do norte da Europa é natural ver seniores a pedalar, caminhar ou frequentar centros comunitários com rotinas diárias de exercício físico, em Portugal a realidade é diferente: os anos de vida acumulam-se, mas também as comorbilidades. A hipertensão, a diabetes, a obesidade ou a insuficiência cardíaca surgem demasiado cedo e alastram com o passar da idade. O problema não está apenas na genética — está no estilo de vida, muitas vezes marcado pelo sedentarismo e pela ausência de políticas públicas consistentes de promoção da saúde ao longo da vida.
Na Noruega, Suécia ou Dinamarca, a atividade física é entendida como um pilar da cidadania. Não se trata apenas de desporto para atletas, mas de movimento diário para qualquer idade. As cidades estão adaptadas: ciclovias, transportes acessíveis, espaços verdes que convidam a caminhar. O idoso nórdico não “sobrevive”: participa, mantém-se ativo, preserva a autonomia.
O epidemiologista britânico Sir Michael Marmot, conhecido pelos seus estudos sobre os determinantes sociais da saúde, lembra que “o ambiente em que vivemos é determinante na forma como envelhecemos”. Da mesma forma, a Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio de relatórios liderados pela Dra. Margaret Chan e, mais recentemente, por Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus tem reforçado que sociedades que investem em estilos de vida saudáveis desde cedo têm cidadãos que envelhecem com menos doenças crónicas e maior independência.
Em Portugal, por outro lado, a prática desportiva é frequentemente vista como um luxo ou um passatempo de juventude. Pouco ou nada é feito para garantir que o idoso tenha programas de acompanhamento regulares, acessíveis e adaptados às suas necessidades. O resultado é um envelhecimento acelerado, marcado por limitações físicas e pela dependência precoce.
A importância da alimentação
O professor Walter Willett, de Harvard, um dos maiores especialistas mundiais em nutrição, tem defendido que a dieta é o fator isolado mais importante na prevenção de doenças crônicas. No entanto, em Portugal, sobretudo entre os jovens, a dieta mediterrânica — património imaterial da humanidade e símbolo de saúde — está a ser rapidamente substituída pela fast food, bebidas açucaradas e produtos ultraprocessados.
Os jovens portugueses consomem níveis alarmantes de refrigerantes e comidas rápidas, o que, segundo relatórios da OCDE, já está a traduzir-se em taxas crescentes de obesidade infantil e juvenil. Se não houver uma intervenção séria — desde a escola até à família —, estaremos a preparar adultos com maior risco de hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares precoces.
Check-ups: uma prática ausente
O Dr. David Katz, especialista em saúde preventiva, sublinha que “a medicina deveria ser sobretudo prevenção e não apenas reação”. Nos países mais desenvolvidos, é habitual que as pessoas façam check-ups de rotina desde cedo, permitindo identificar fatores de risco antes de surgirem sintomas.
Em Portugal, ir ao médico ainda é visto como uma resposta à doença, não como um investimento na saúde. Os exames de rotina são raros e muitas vezes desvalorizados. Esta ausência de cultura preventiva conduz a diagnósticos tardios, tratamentos mais caros e maior mortalidade precoce.
O caso de Odivelas: envelhecer e crescer à margem
Na cidade de Odivelas, a percentagem de população idosa tem vindo a crescer, tal como sucede em muitas outras áreas do território nacional. Muitos idosos passam os dias sozinhos, com reduzido acesso a centros de convívio ou programas de atividade física organizada. As infraestruturas públicas não são suficientes, e o apoio social chega, muitas vezes, tarde ou de forma insuficiente.
Faltam espaços de proximidade que incentivem o movimento diário, desde simples caminhadas acompanhadas até ginástica adaptada. O que existe depende demasiado do voluntariado ou de iniciativas pontuais, sem continuidade. Para muitos destes “velhotes”, a cidade não oferece estímulos para viver com dignidade, saúde e autonomia.
Mas Odivelas não é só terra de idosos: é também um dos concelhos mais jovens e populosos da Área Metropolitana de Lisboa. Esta dualidade — muitos jovens e muitos idosos — deveria ser encarada como uma oportunidade única.
Se houvesse uma estratégia integrada, o concelho poderia vir a ser modelo nacional de envelhecimento ativo e de educação para a saúde. Imaginemos programas intergeracionais, em que jovens praticassem atividade física e o culto de alimentação saudável ao lado de idosos; centros comunitários que unissem check-ups gratuitos, aulas de nutrição e apoio psicológico; ciclovias e parques desenhados para todas as idades.
Autores como Dan Buettner, criador do conceito das “Zonas Azuis” (Blue Zones) — regiões do mundo onde as pessoas vivem mais tempo e com mais saúde — defendem que a chave está em integrar saúde no dia a dia da comunidade. Odivelas poderia inspirar-se neste modelo, tornando-se uma verdadeira “zona azul portuguesa”.
Educar para envelhecer melhor: a escola como ponto de partida
O Dr. Hans Kluge, Diretor Regional da OMS-Europa, defende que “o envelhecimento saudável começa na infância”. De facto, os países que melhor lidam com o envelhecimento são aqueles que introduzem desde cedo nas escolas a valorização da saúde, da atividade física e da alimentação equilibrada.
Na Finlândia, por exemplo, programas de educação física e hábitos de vida saudável fazem parte do currículo obrigatório, com impacto comprovado em níveis mais baixos de obesidade e doenças cardiovasculares na idade adulta.
Em Portugal, ainda que existam aulas de educação física, estas são muitas vezes vistas como secundárias e facilmente substituídas por outras disciplinas. Não há uma verdadeira integração entre escola, comunidade e sistema de saúde que ensine às crianças que cuidar do corpo e da mente é tão essencial como aprender matemática ou português.
Não é a morte que assusta, é o envelhecimento sem qualidade
Talvez por isso o medo maior não seja o da morte, mas o de viver demasiados anos sem qualidade. Envelhecer em Portugal significa, muitas vezes, perder independência, multiplicar consultas médicas e depender do apoio dos filhos — quando o têm.
Mas envelhecer poderia ser diferente. Se o país investisse num verdadeiro “culto da saúde”, começando desde a infância, poderíamos aspirar a um envelhecimento ativo e saudável. Menos comorbilidades, menos custos para o Serviço Nacional de Saúde, mais dignidade e menos solidão.
A morte é um processo inevitável para todos, não mete medo. O que mete medo é a ideia de chegar lá demasiado cedo, cansado, limitado e esquecido.
Envelhecer não precisa ser um processo doloroso, isolado e triste, mas o apoio dos nossos governantes é essencial para uma política de proximidade em prol do envelhecimento ativo e saudável da população nacional.