Estas eleições presidenciais são as primeiras desde 1995 em que não há, à partida, um vencedor previsível, e as segundas, na história do regime, em que poderá haver uma segunda volta. Infelizmente, nada disso tem chegado para as tornar interessantes. Porque os principais candidatos parecem ter decidido, de modo concertado, reduzi-las a uma repetição de cenas já vistas. É assim: primeiro, André Ventura faz o que os sábios do regime nos explicam ser uma “provocação”, calculada para provocar reacções histéricas e colocar-se no centro das conversas; depois, os outros candidatos reagem histericamente à “provocação” e colocam André Ventura no centro das conversas.

Como interpretar isto? A primeira hipótese é que os outros candidatos não ouvem os seus próprios sábios ou, ouvindo-os, são estúpidos. A segunda hipótese é que não é só André Ventura que está interessado em ser o tema das conversas. Também aos restantes candidatos interessa que André Ventura seja o tema das conversas. O motivo deve ser o mesmo em ambos os lados. André Ventura pensa que ganha votos se os outros falarem dele. Os outros pensam que ganham votos se falarem de André Ventura.

André Ventura faz o que lhe convém, mas os outros nem tanto. Por duas razões. Primeiro, porque este anti-venturismo primário sugere que não acreditam ter melhor argumento para levar os eleitores a votarem neles a não ser assustá-los com a tese de que Hitler não morreu, mas está vivo, mudou-se para Lisboa como qualquer reformado do norte da Europa, e adoptou o nome de André Ventura. Não lhes ocorre mais nada, no Portugal do ano de 2025, senão convidar-nos a fingir, com muitos arrebatamentos de teatro antigo, que estamos na Alemanha de Weimar em 1933?

Segundo, porque neste jogo em que todos parecem ganhar, Ventura ganha muito mais do que eles. É que através das suas “provocações”, Ventura fala de problemas. Há quem possa lamentar o estilo, mas pouca gente deixa de reconhecer que a imigração descontrolada ou a insegurança são problemas. Ao atacarem Ventura, os anti-Venturas não se limitam a deplorar-lhe o estilo: tendem, por uma lógica fatal, a negar os problemas. É assim que os vemos a pedir ainda mais imigração. Acreditam mesmo que a salvação do país está no caos migratório? Estão assim tão apostados em fazer André Ventura parecer o único candidato consciente do que se passa e suficientemente corajoso para o dizer?

Luís Marques Mendes e Henrique Gouveia e Melo foram os mais desesperados compères de André Ventura na última rábula dos Salazares e dos cartazes. Que se passa? Não compreendem que este anti-fascismo de papelão apenas os está a pôr ao nível pobre dos candidatos da agonia comunista, Catarina Martins e António Filipe? Ventura disse que o país precisa de três Salazares. A oligarquia política parece que precisa de três Venturas, porque um só Ventura já não chega para disfarçar a falta de visão, a falta de ideias, e até a falta de bom senso de que os oligarcas tão manifestamente sofrem. Lembram-se do poema de Kaváfis sobre os bárbaros? Pergunto apenas: que seria do regime sem Ventura?

Mas não quero acabar numa nota tão céptica. Talvez um dos candidatos perceba que o país está a começar a ficar farto de anti-Venturas de pacotilha, sempre a descobrirem Hitleres por todo o lado. Ou por outras palavras: talvez um dos candidatos compreenda, finalmente, que o país está disponível para apreciar alguém que mostre a sensatez que convém a um presidente da república, sem pantomimas de antifascismo, e consiga falar dos problemas do país em vez de simplesmente os negar. Será esperar demais?