No outro dia, a Dra. Graça Freitas declarou na Assembleia da República, a propósito das críticas aos números da Covid divulgados pela DGS: “É altura de deixarmos de pôr o país nas bocas do mundo, dizendo que a informação não é boa. Isso até nem é patriótico”. Há toda uma mundividência nesta frase. As críticas põem-nos nas “bocas do mundo”, quando o melhor é, em matérias desagradáveis, passarmos desapercebidos, colados às paredes, não vá o mundo falar de nós e proceder a mais uma humilhação ritual da pátria. Porque o mundo conspira malevolamente para nos rebaixar, não tenhamos dúvida. A inferioridade convive muito bem com a ilusão da importância própria. E colaborar com o mundo no capítulo, pô-lo a dizer mal de nós, do que se passa cá em casa, é trair Portugal, é “antipatriótico”. É muito curioso como esta mundividência cola na perfeição com todo o estilo da Dra. Graça, que podemos observar desde há vários meses, e com a configuração mental que se pode deduzir desse estilo. Sem trocadilho, é uma desgraça. É Portugal dos Pequeninos e patriotismo dos pequeninos. Ela é pequenina e trata-nos – incluindo os cachopos e cachopas da AR — como pequeninos, como uma professora primária do tempo do Dr. Salazar. É tudo pequenino. Ponto.

Não tenho a mínima ambição de pôr Portugal nas “bocas do mundo” por más razões, e, infelizmente, duvido que tenha a capacidade de o fazer por bons motivos. Mas quero falar de uma experiência pessoal que partilho com muitos, mas mesmo muitos, portugueses e cuja menção a Dra. Graça não hesitaria por um só instante em qualificar de antipatriótica. A experiência diz respeito ao funcionamento do meu Centro de Saúde, no Porto.  Há já vários meses recebi um SMS que me aconselhava vivamente a não pôr lá os pés: o que houvesse a ser tratado, sê-lo-ia por telefone ou mail. Obedeci, é claro. Acontece que, a certa altura, precisei de uma receita para vários medicamentos que tomo para um número desrazoável de doenças crónicas. E telefonei. Ninguém atendia. Telefonei, telefonei, telefonei. Ao longo de um período de tempo que não ouso sequer mencionar. E enviei emails. Enviei, enviei, enviei. As vezes que enviei, e o tempo que entretanto passou, nem digo. Com o mesmo resultado dos telefonemas: nem uma só resposta. Com o adiamento das minhas consultas hospitalares, que forneceriam uma solução alternativa ao problema das receitas, lá fui comprando, e comprando, os medicamentos de que precisava (um deles, por sinal, bastante caro). Até que uma tarde, farto disto tudo, lá me decidi a apresentar a minha magnífica pessoa no Centro de Saúde, violando o conselho do SMS. Estava, com a excepção visível das funcionárias do atendimento, impecavelmente vazio. Expliquei as minhas tentativas de outros contactos, e o seu flagrante insucesso, para o qual não ofereceram qualquer razão, e deixei a lista de medicamentos de cuja receita precisava. Teria a receita no meu telemóvel em meados da semana seguinte. A esta altura, já não surpreenderá ninguém que não a tenha tido. Nem na semana prometida nem em nenhuma vinda a seguir. Felizmente, a mulher (que é médica) de um amigo a quem tinha contado o meu infortúnio (obrigado, João!), passou-me a receita de que precisava. Como de costume por cá – mas não ponham isto nas “bocas do mundo”! –, as relações pessoais suprem a crónica ineficiência do Estado.

Ao longo de todo este processo, veio-me ao espírito vezes sem conta a horrível palavra com R, que tomou conta do discurso político. O “R” em questão – tremo só de o sequer pensar – é o “R” de “resiliência”. O que eu precisava, horror dos horrores, era de ser “resiliente”. Eu e toda a gente. Dantes dizia-se “paciência e pó para as pulgas”. Agora, a palavra com R substituiu, com proveito cosmopolita (é importada do inglês), os vocábulos do português tradicional.

O documento engendrado pelo Professor António Costa Silva – “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030” – usa obviamente a palavra com R. No meio de um oceano de muitas outras palavras, que servem praticamente para designar todos os objectos possíveis e impossíveis do universo, com Portugal ao centro, segundo a lógica do “tudo comunica” levada às suas mais grotescas proporções. Por exemplo, é urgente a criação de novos “paradigmas” – invariavelmente uns com os outros articulados – em praticamente todos os domínios que o plano aborda. Quer dizer: em tudo e em mais alguma coisa. O uso da palavra com P é quase sempre sinal de ausência de conteúdo efectivo. Na verbosidade extrema da “visão estratégica” de Costa Silva só falta aparecer aqui e ali o “corte epistemológico”. Esqueceu-se, sem dúvida. Mas aparece o mar, muito mar, e a Europa, muita Europa. Portugal deve olhar – provavelmente com olhar esfíngico e fatal, como, dado à poesia, sem dúvida teria escrito se disso se tivesse lembrado – simultaneamente e com inusitada intensidade nas duas direcções. Esse duplo olhar permitir-nos-á combater a “visão neoliberal do mundo” e restabelecer o primado do Estado sobre o mercado, algo que o Professor Costa Silva coloca no centro do novo paradigma, destinado a consolidar definitivamente o softpower (a sério!) de Portugal. E tudo isto, como disse, abundantemente apelando à palavra com R.

A palavra com R figura com relevo e distinção no título do programa que o governo apresentará a Bruxelas para justificar a pipa de massa – a “bazuca”, como gosta de dizer António Costa (sem “Silva”) – que virá aí: “Plano de Recuperação e Resiliência”. É uma felicidade. Com tanta transição climática e digital como aquela que o Plano nos promete, a palavra com R confundir-se-á doravante com o prazer. Para todos? Idealmente, sim. Mas se esse máximo não puder ser atingido, pelo menos para alguns. Pois o governo, com o prestimoso auxílio do Presidente, já tomou as necessárias iniciativas para que a tal bazuca não caia no vazio e lance pelo menos algo ao fundo. Os últimos movimentos nesse sentido foram sérios e avisados. Primeiro, promover a alteração ao regime dos contratos públicos, para facilitar os disparos da bazuca. Depois, com o apoio também do nominalíssimo líder da chamada “oposição”, proceder à substituição do anterior Presidente do Tribunal de Contas, Vítor Caldeira, um homem excentricamente preocupado com legalidades, por um indivíduo, José Tavares, que tem por ponto máximo do seu currículo ter participado na renegociação das PPP rodoviárias, levando o Estado português a ficar lesado em 3,5 mil milhões de euros. Ora, eis alguém que indiscutivelmente sabe fazer contas e que merece ser presidente. Tudo se conjuga, pois, para que a felicidade, para muitos, se encontre à mão. Ou ao dente, se preferirem. Porque a mim o tiro da bazuca se arrisca a assemelhar-se muito ao espectáculo de uma manada de gnus que atravessa um rio e que é esperada ardentemente por uma pequena multidão de crocodilos que, com o seu sorriso franco e aberto, amorosamente os querem, com suaves carícias dentais, levar para o fundo do rio. A diferença é que com os euro-gnus o espectáculo será sem dúvida mais discreto – Marcelo, entre outros, parece garantir que assim será – e nenhum David Attenborough nos relatará os tropismos desta nossa particular fauna.

Entretanto, não estou excessivamente confiante nos destinos dos nossos Centros de Saúde, nem do SNS em geral. E a palavra com R não é especialmente confortante. Convém lembrar que ela tem duas acepções: uma psicológica, outra física. Na psicológica, significa a capacidade de resistir e de, por assim dizer, sobreviver e aguentar os abalos que a vida nos traz. Na física, ela remete, entre outras coisas, para a capacidade de certos materiais retomarem a sua forma original depois de serem submetidos a uma deformação. Contrariamente ao que se pretende, não é a acepção psicológica que melhor se aplica ao presente uso da palavra com R, é o sentido físico. O dinheiro que aí vier arrisca-se a trazer o corpo social para o seu estado original. Ora, foi esse estado original que permitiu exactamente que chegássemos onde chegámos. Quer dizer: voltaremos, segundo todas as probabilidades, ao princípio de um filme que conhecemos demasiado bem. Como diria a Dra. Graça: viva Portugal! E não falem de nós lá fora, por favor.