O sucesso do PAN e sua popularidade estão irmanados ao insucesso dos partidos do regime e ao crescimento da sua abstenção. Não generalizo as causas para o insucesso das forças políticas tradicionais – até porque uma delas, o PS, venceu todas as eleições que os governos habitualmente perdem –, nem tão-pouco desvalorizo o feito do partido Pessoas Animais e Natureza. Pretendo, por outro lado, desvendar a sua atratividade. As pessoas gostam do PAN e votam no PAN, não se tratando de um fenómeno isolado. Seria até injusto avaliar o seu sucesso somente com base no demérito das demais propostas. Elas eram tantas – mais conservadoras, mais ideológicas, mais moderadas ou mais mediatizadas –, que ninguém saiu de casa num domingo de praia só por adorar cãezinhos. É mais do que isso. E é tonto achar que não.

Um país com uns escassos quarenta anos de democracia ter 68% de abstenção nas mais polarizantes eleições desde que há Parlamento Europeu é triste, preocupante e desmoralizador. Mas não há isentos de culpa nesses 68%: nem em Portugal, nem em Bruxelas. A ausência de diferenciação entre partidos europeístas (sobre a qual André Ilharco assinou uma belíssima reflexão e de que também aqui falei) é um veneno letal para o centro-direita e para o centro-esquerda que não possuam a vantagem da incumbência. Essa ausência de diferenciação entre moderados não só prejudica eleitoralmente as forças políticas tradicionais, como promove o surgimento de alternativas populistas. O que o sucesso do PAN mostra é que a erosão ao centro não beneficia apenas os extremos mais eurocéticos, mas também outro tipo de alternativas, não necessariamente radicais ou eurocéticas, mas antes inconvencionais e despolitizadas.

Olhando para a história recente, ninguém diria que depois de um resgate financeiro e de uma tribalização partidária generalizada os portugueses seriam imunes às tentações nacionalistas. Quase dá vontade de ironizar: a austeridade foi tão má, tão terrível, tão «fascista» e «neoliberal», que a grande reação eleitoral do povo é votar num partido animalista. Mas passando à frente do humor fácil, não temos outra hipótese que não a de levar o PAN a sério. O seu crescimento, acompanhado pela escandalosa abstenção, mostra que a disputa do espaço europeísta está cada vez mais aberta, logo, cada vez mais exigente.

Nessa disputa, será um erro julgar que a abstenção se deve a uma qualquer inconsciência cívica ou a um desamor lusitano pela democracia. As pessoas não ficaram em casa por desgostarem de votar; as pessoas não foram votar porque não respeitam os políticos. O sucesso do PAN, por sua vez, revela um gozo raro e descomprometido pela participação democrática. E esse é um gozo que escapa, há muito tempo, aos partidos tradicionais fora do seu núcleo de militância. A popularidade do PAN não se explica numa mobilização ideológica ou partidária e será um adversário complicado, precisamente, por não ser nada disso.

Domingo foi a vitória da política sem a política ou, se quisermos, da política despolitizada. Os animalistas participaram na disputa eleitoral, alcançaram representatividade democrática e instituíram-se na arena política, mas não são exatamente políticos – o que faz deles mais difíceis de derrotar, por exemplo, do que os excêntricos de esquerda ou de direita, na medida em que hoje os gatilhos eleitorais estão para lá dessas divisões. A corrida é feita noutras metas. Há mesmo uma política que vive sem a política – sem ter de falar sobre os grandes temas, isto é, sem ter de falar sobre as grandes desilusões. A Europa, a banca, a segurança social, a Justiça, o sistema político, etc. Para eles e, pelos vistos, para bastantes portugueses, a defesa dos animais e do ambiente é suficiente e sem dúvida mais apelativa. Ora, a vantagem do PAN não é ser «o único» a falar sobre ecologia – Costa tem um discurso ecologista, o PSD elegeu uma eurodeputada ecologista e o CDS teve uma campanha ecologista –, a vantagem do PAN é ser «o único» a não ter de falar sobre tudo o resto.

Para o centro-direita, não há maneira de reagir a isso sem duas coisas: uma credibilização e renovação de intervenientes, por um lado, e uma integração gradual de novas causas, por outro. Parafraseando Nuno Markl, o homem tem de morder o cão.