O Dia Internacional Contra a Discriminação Racial fixou-se a 21 de Março. Em Abril os partidos apresentaram na Assembleia Municipal de Lisboa os seus documentos, a sua retórica, e a sua demagogia. Quais partidos? A esquerda, claro: Livre, PEV e PS. O documento do PS era sofrível: com um esforço patriótico de boa vontade conseguia-se ignorar a menção ao “racismo institucionalizado”; e a mania dos “programas comunitários”, das “campanhas educativas”, dos “educadores” em matéria de costumes, e dos “activistas”. O deputado municipal médio conseguia encher o peito de ar e votar abstenção. O pior veio da extrema-esquerda.
“Pessoas racializadas”, é como a esquerda agora designa as minorias étnicas. Um truque, típico da retórica sofística da seita, que assim recusa a expressão objectiva e já não designa os indivíduos. Designa os outros, os “racistas”, os que destratam as minorias étnicas. Que obviamente, no entender da esquerda, somos todos. Nessa grande medida, a expressão “pessoas racializadas” pressupõe uma atitude discriminatória e estabelece uma acusação generalizada. Eis o “racismo estrutural”: somos culpados porque existimos, porque somos brancos e porque somos ocidentais. A expressão “pessoas racializadas” cai sobre nós como uma sentença transitada em julgado. E serve para levar às minorias étnicas três informações: primeira, elas são vítimas; segunda, não precisam de se esforçar; terceira, toda a vingança está justificada à partida. É assim que a esquerda aborda o capítulo da “paz social”.
Para efeitos de “paz social”, a esquerda organiza batalhões de activistas profissionais distribuídos pelas “organizações”. As “organizações” podem ser “núcleos”, “plataformas”, “colectivos”, “movimentos” ou “comités”, mas o papel dos activistas raramente é recomendável. Ou respeitável. Porquê? Porque os activistas promovem o racismo. Seja através do estereótipo, que se empenham em acentuar, seja através da consequente atitude confrontacional. Os activistas, magnificamente instruídos pela extrema-esquerda, operam provocando o choque e o confronto, para manter impossível a naturalidade e a conciliação. Reservaram para si mesmos este papel e não sabem nem querem viver de outra maneira. O importante é compreendermos que este modo de vida é pensado e aperfeiçoado para favorecer a própria esquerda, à custa dos dinheiros públicos e dos reais interesses das minorias.
Quais são os reais interesses das minorias? Não sabemos exactamente, ninguém sabe, e serão diferentes consoante a minoria e a pessoa a quem se pergunte. Mas suponho que tenham direito a livrar-se das falsas “comunidades” a que a esquerda as limitou. E tenham também direito a associar-se ou detestar-se entre si, conforme partilhem interesses, valores, ou rancores, como qualquer outro mortal. Acima de tudo, as pessoas de todas as etnias têm direito a que a sua identidade individual seja reconhecida como cidadãos, como indivíduos únicos e irrepetíveis; têm direito a que a identidade delas não seja reduzida à instrumentalização das feições, cabelos, ou cor da pele, de maneira a melhor servir a esquerda.
A nossa cultura, que a esquerda quer amolgar com as suas “campanhas educativas”, evoluiu ao longo do tempo para se aproximar da civilização mais livre e desenvolvida de sempre. É a cultura que mais respeita a vida, o conhecimento, a razão, a ciência, a sociedade, a espiritualidade, a ordem, o direito, a segurança, o indivíduo, as liberdades públicas e as liberdades individuais. Algumas culturas promovem comportamentos que a nossa cultura condena; essa condenação custou esforços, anos, e vidas. As conquistas civilizacionais, como a igualdade de homens e mulheres perante a lei, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão ou a liberdade política, não podem ser dadas por adquiridas. Precisamos de as praticar e defender todos os dias, sob pena de elas, a pouco e pouco, ou às mãos de activistas e “educadores”, acabarem por se perder. As pessoas de todas as etnias, desde que abandonaram as sociedades de origem e procuraram viver connosco, devem ver reconhecida essa vontade e respeitados os direitos que reservámos aos nossos. Um país define-se pelo território e pelas pessoas; mais pelas pessoas do que pelo território.
A celebração em Lisboa não terminou sem a maldita apologia das “reparações coloniais”. Faz algum sentido? Não faz. É discutível que uma população no seu todo tenha responsabilidade por acontecimentos históricos remotos. Se essa responsabilidade fosse aceite como princípio, os países andavam todos a pedir reparações uns aos outros. No entender da esquerda, devemos reparações ao Brasil, à Índia, e aos países africanos das nossas ex-colónias. Mas, nesse caso, pediríamos reparações a Marrocos, porque os árabes nos invadiram a nós; e a Itália, pela invasão dos romanos; e a França, pelas invasões francesas; e aos espanhóis, por todas as invasões deles. Por outro lado, não é clara a entidade a quem se devia entregar a reparação: a um governo corrupto? Ao sr. Obiang? Ao sr. João Lourenço, da Sonangol? Ou a uma ONG, controlada pela esquerda radical e empenhada na luta contra o capitalismo?