Num país moldado por revoluções e contrarrevoluções, onde a história se escreve muitas vezes em ciclos de esperança e desilusão, Portugal assiste hoje a um fenómeno politicamente revelador, a inversão de papéis entre as elites e o povo. Como numa valsa em que os pares trocaram de lugar, a música continua, mas poucos parecem notar que quem hoje conduz a dança já não é quem ontem dava o tom.
A palavra “patuleia”, com raízes no século XIX, designava pejorativamente a plebe, o povo comum. Foi essa mesma patuleia que, em 1846, se insurgiu contra o autoritarismo e a centralização do poder, numa guerra civil que opôs setembristas e cartistas, povo e elites. Hoje, o espírito da patuleia regressa, não com armas, mas com votos, e com uma raiva silenciosa acumulada por décadas de promessas traídas.
Curiosamente, a esquerda que durante tanto tempo se afirmou como defensora das classes populares parece ter perdido esse vínculo. A sua agenda, progressivamente focada em temas identitários e ambientais, relevantes, sim, mas muitas vezes comunicados com arrogância ou em linguagem distante, criou um fosso entre discurso e realidade. O quotidiano das pessoas que vivem com salários baixos, pensões mínimas ou dificuldades em aceder à habitação, raramente encontra eco nos grandes debates da esquerda contemporânea. A nova elite progressista ocupa cátedras, tribunas e editoriais, mas raramente os bairros sociais ou as filas do centro de saúde.
Este afastamento abriu caminho a uma transformação do mapa político nacional. O Chega, partido que muitos se apressam a classificar como “extrema-direita”, tem conquistado terreno em zonas historicamente dominadas pela esquerda, Setúbal, Alentejo, periferias industriais de Lisboa. Não por uma súbita conversão ideológica do eleitorado popular, mas porque passou a haver quem lhes fale diretamente. Quem reconheça o seu desconforto com o sistema e com o Estado.
Esse Estado, percecionado como intrusivo, burocrático e ineficaz, é hoje uma figura paternalista que exige cada vez mais ao cidadão, mas retribui cada vez menos. Cobra impostos elevados, mas presta serviços públicos cada vez mais débeis. Regula, fiscaliza, controla, mas falha em proteger. Os portugueses sentem-se frequentemente tratados não como cidadãos adultos, mas como crianças sob tutela. E quando o Estado falha, cresce a tentação de escutar quem promete “devolver o poder ao povo”.
O Chega capitalizou esse descontentamento com um discurso direto, simplista em muitos casos, mas eficaz. Fala de insegurança, de impostos sufocantes, de favoritismos e de desigualdades sentidas, mesmo quando os factos não sustentam totalmente a narrativa. Ao contrário da esquerda institucional, que muitas vezes responde com tecnicismos ou moralismo, Ventura oferece indignação em estado puro. E há um público vasto para quem isso basta.
Reduzir este fenómeno a uma “onda reacionária” é um erro estratégico. O crescimento do Chega não é um surto ideológico, é um sintoma. E como qualquer sintoma, não se combate ignorando, mas compreendendo a causa. O voto popular neste partido não é, na sua maioria, um voto por ódio, é um voto por frustração. É um grito contra o silêncio a que foram votados pelos partidos tradicionais.
Perante este cenário, a esquerda tem de decidir o que quer ser. Continuar a alimentar uma superioridade moral que rejeita quem discorda, ou fazer o trabalho difícil de escutar, compreender e representar. Isso implica sair das trincheiras identitárias e voltar a falar de salários, rendas, saúde, transportes, dignidade no trabalho, não como abstrações políticas, mas como realidades vividas.
A nova Patuleia – os trabalhadores precários, os reformados com pensões exíguas, os jovens sem horizonte habitacional, os pequenos empresários esmagados pela máquina fiscal – não quer retórica, quer soluções. Não exige revoluções, exige respeito. E, sobretudo, quer voltar a acreditar que a política serve para representar os seus interesses, e não para encenar guerras culturais de elites desfasadas da realidade.
Talvez seja tempo de parar a música, mudar o compasso e trocar os passos. Porque se a valsa se mantiver inalterada, os dançarinos de sempre acabarão por dançar sozinhos.