Desde a sua eleição que percebemos que a preocupação de Trump com os fins militares e a segurança nacional iriam fazer parte da sua agenda governativa, numa tentativa de reflorescer a máxima de Ronald Reagan numa ação pouco pacifista e contrária à dos antecessores Obama e Biden, que privilegiaram menos a tomada de força imediata.

Comecemos pelas suas tomadas de decisão em relação à saída dos EUA das principais organizações mundiais, fortemente financiadas por estes, e que rapidamente colocaram velhas alianças em sentido.

Depois, numa rápida análise em relação às atitudes da Administração Trump, verifica-se claramente imposição pela força de todos os mecanismos, ONG e agências que possam atrapalhar o seu plano.

No Médio Oriente verifica-se um ataque sem precedentes às instituições terroristas e países que as financiam, numa tentativa de obrigar a uma negociação definitiva para a Palestina, demonstrando o poderio americano e tentando empurrar Putin para a resolução da situação ucraniana.

Trump parece de facto apostado numa estratégia de antiguerra fria, ao aliar-se à Rússia na tentativa de garantir, não só a paz, mas também uma divisão de esforços, ficando a Rússia com os territórios ocupados e os EUA com parte dos minerais, como forma de pagar a sua ajuda.

Tendo em conta que na questão dos cereais, a atual Guerra resultará na redução das exportações de trigo da Ucrânia, afetando a curto prazo alguns países do sul da Europa, desde Espanha, Portugal e Grécia, o norte de África e alguns países asiáticos, colocando os EUA e a Rússia como grandes vencedores desta situação.

Está à vista a consumação de alguns dos pressupostos da Grand Strategy americana, iniciada pela doutrina de Monroe e que abrange questões políticas, económicas, tecnológicas e militares. A guerra comercial a que assistimos, através da aplicação de taxas e retaliações não só contra China, México e Canadá, mas também à Europa e outros Aliados continua a intensificar-se, afetando setores estratégicos das economias envolvidas, que dificilmente conseguirão combater na totalidade.

Estamos perante uma atitude expansionista a nível internacional por parte de Trump e uma tentativa de voltar a colocar a América como grande produtor e exportador nas mais diversas indústrias, tentando bloquear a China na sua política expansionista e colocando a Europa num beco sem saída em que, ou aposta na defesa militar da Ucrânia, ou aposta na intensificação de assumir um papel tecnológico cada vez maior, fazendo frente a estas grandes potências mundiais.

Estamos perante grandes incertezas ao nível da influência global, com países emergentes a darem sinais da sua modernização militar, perante possíveis conflitos, cujas tensões se agudizam nesta fase do conflito.

A grande questão é saber até que ponto os EUA serão capazes de alterar profundamente a sua política interna e de o tornar novamente uma força motriz da industrialização planetária em mercados cada vez mais dependentes de condicionantes e avanços tecnológicos, que competem entre si, com o Oriente a dar sinais de avanços profundos.

Será Trump capaz de fazer da América “Great Again”, ou estamos perante um ponto sem retorno em que a tentativa de garantir que a multipolaridade atual reduzida se transforme novamente numa escala Bipolar? Será esta estratégia infrutífera e vamos assistir a uma Nova Ordem Mundial com outros players na sua liderança?

Entretanto europeístas convictos, esperemos que o resultado destas convulsões, nesta velha, mas ao mesmo tempo nova, forma de fazer Guerra, não nos façam cair em desgraça e ficar reféns de uma recessão que nos traga maleitas no foro económico, social e político irreparáveis. A EU passa por uma das maiores crises desde que foi constituída, quer pela dificuldade em se tornar comercialmente independente dos EUA, quer pela falta de políticas robustas a médio prazo, que não sejam ad hoc e atrás do prejuízo como temos vindo a assistir. Esperemos que o Velho Continente saiba reinventar-se a tempo de evitar a sua queda.