Pedro Nuno Santos vagueia pelo país como um Messias em liquidação, a pregar em abril a redenção  que negou em novembro. E negou, sublinhe-se, não por incompetência — mas por excesso de  experiência. Governar, afinal, é aquele exercício incómodo em que os sonhos colidem com a folha  de Excel, os discursos se desfazem como papel húmido, e os ministros acabam a perguntar-se:  “Quem me empresta uma metáfora para disfarçar esta asneira?” Agora, libertado do peso dos factos,  Pedro Nuno abraçou a sua nova missão: vender utopias em débito direto.

Nos palcos, é um shapeshifter político. Num minuto, é Robin Hood, roubando dos ricos para dar  promessas aos pobres; no seguinte, é Steve Jobs, a apresentar o “novo PS” como se fosse um iPhone  25 — idêntico ao anterior, mas com um emoji de bandeira socialista. É o mesmo homem que, durante  anos, assinou orçamentos como quem assina autógrafos, que geriu ministérios com a urgência de  um funcionário público a contar os minutos para o café, e que assistiu ao colapso da habitação como  quem vê um filme em câmara lenta. Agora, reinventa-se: é o profeta do “desta vez vai ser diferente”,  o influencer da política que apaga o passado e faz refresh ao futuro.

A sua proposta para salvar Portugal? Um copy-paste com fonte maior. Mais Estado (sempre mais  Estado), mais impostos rebatizados de “solidariedade criativa”, mais centralismo vestido de  “democracia participativa”, mais empresas públicas — porque a TAP foi, claramente, um sucesso a  repetir. Habitação? “Construímos cidades inteiras em dois mandatos!” (Esqueçam os detalhes: os  municípios, as licenças, os custos, a burocracia, o tempo, a física…). Transportes? “Temos um  comboio de alta velocidade!” (Rota: Lisboa-Promessas, partidas diárias às 00h00). Saúde?  “Garantimos consultas em 48 horas!” (No calendário maia). É a esquerda alquímica, que transforma  o chumbo da má gestão no ouro da retórica.

Mas o passado é um stalker implacável. Pedro Nuno ordena: “Apaguem as stories antigas!” Apaguem  a TAP e os 3,2 mil milhões evaporados — um buraco tão fundo que dava para enterrar a credibilidade  do PS. Apaguem a habitação, esse thriller de terror onde o Estado foi o vilão e os portugueses, os  figurantes. Apaguem a maioria absoluta, esses dois anos em que o partido podia ter mudado o país,  mas preferiu mudar de ministros. Pedro Nuno é o chef que queimou o jantar e reaparece com o  mesmo menu, agora chamado “Nouvelle Cuisine Socialista”.

O segredo? Ele não mente — ele reencena. É um produto 100% PS: criado em laboratório partidário,  alimentado a discursos e banhado em autoilusão. Para ele, o Estado é a resposta para tudo, até para  perguntas que ninguém fez. Falham os hospitais? “Mais Estado!” Falham os comboios? “Mais  Estado!” Falha o Estado? “Mais Estado!” É a lógica do vício: se uma dose não resolve, triplica-se. A  realidade é um spoiler chatíssimo que ele insiste em ignorar.

A campanha é um blockbuster de escapismo: gritos, números inventados, inimigos imaginários (olá,  “neoliberais”!), e a trilha sonora certinha para evitar que alguém ouça o rufar dos tambores da  História. Porque se ouvirem, lembrar-se-ão: Pedro Nuno Santos foi governo quando os professores  envelheceram nas ruas, quando os enfermeiros emigraram em massa, quando os jovens desistiram  do país como se fosse um match do Tinder falhado. E o que fez? Assinou despachos, deu entrevistas,  e esperou que a poeira baixasse. Agora, a poeira é o seu álibi.

Portugal está esgotado de netflixes políticos. De séries em loop onde o herói é sempre o mesmo, o  guião é previsível, e o final feliz está sempre “na próxima temporada”. Pedro Nuno não é um novo  episódio. É um reboot cansado. Não traz soluções — traz fan service para militantes. Se em maio ele aparecer de barba branca e um saco de truques, lembrem-se: o Pai Natal teve oito  anos para distribuir presentes. Preferiu guardá-los no sótão. Agora, diz que os duendes sabotaram a  chaminé.

Resta aos portugueses escolher: continuar a acreditar em contos — ou exigir um contrato assinado,  sem margem para fake news.