1. É muito simples de entender. Já me referi aqui ao assunto várias vezes. Mas um leitor atento pediu-me que fizesse aqui esta síntese sobre a fontes do esquerdismo actual.
São três. A teoria da «hegemonia» de A. Gramsci, o único marxista interessante que viu a luz do sol, o «antifascismo» oriundo da III Internacional comunista e a «teoria crítica» da «escola de Frankfurt». Todas estas fontes já são antigas pois procedem da primeira metade do século XX, tendo cerca de cem anos, mas de então para cá nada de verdadeiramente original saiu do marxismo.
Vertem-se aqueles três ingredientes num copo, agita-se bem e serve-se frio. Está pronto o cocktail. Podem juntar-se a gosto uns aromas tropicais do tipo «epistemologias a sul», uns pós islamistas e mais uns pós wokes mas são facultativos.
Não pensem que há mais. Não há. Mesmo bem remexido o preparado, as marcas das origens lá estão.
2. Gramsci, como hoje muito gente sabe, percebeu perfeitamente que no capitalismo avançado a coisa não ia lá com assaltos a quartéis nem com a destruição do grémio nem com falhadas greves gerais. Só o camarada Cunhal é que sonhava com um «levantamento popular armado» que fez parte da dogmática do pc até ao 25 de Abril e mesmo depois. Gramsci percebeu que o combate era pela «hegemonia» cultural nem que para isso fosse necessário formar «blocos históricos» de alianças sob comando obviamente comunista. O azimute estava virado para a cultura em prol da predominância da esquerda numa «guerra de posição» e não de ofensiva. Daí o papel fundamental dos intelectuais «orgânicos» das massas populares ou seja, dos intelectuais que, vivendo no meio delas, as podiam conduzir pela mão ao bom redil. Gramsci percebeu muito bem e até invejava a importância que a igreja católica dava aos padres na difusão da boa doutrina junto do povo. Foram eles, segundo as suas próprias palavras, os primeiros intelectuais «orgânicos» das massas populares.
A influência directa de Gramsci viu-se bem em Althusser e nos seus discípulos, desde logo em Poulantzas. Foi o segundo que disse em entrevista, pouco antes de enlouquecer, que depois de Marx o melhor, quiçá o único, foi Gramsci.
2. A «escola de Frankfurt» (Horkheimer, Adorno, Marcuse, etc…) também percebeu desde cedo que na Europa o pouco proletariado que restava tinha mais que fazer do que embarcar atrás de greves gerais e revoluções. Estava e está mais preocupado em pagar as prestações mensais e com a segurança da mulher e da filha nos transportes públicos.
Mas se a luta é pela cultura, onde está ela? Não está nas oficinas nem nas fábricas. Está na escola, sobretudo na universidade. É aí que está a juventude, única contestatária nos nossos dias (já muito menos do que no meu tempo). É preciso aproveitar a rebeldia dela característica (sei o que é porque também por lá passei) e semear ventos. Vamos pois «desconstruir» a alienada cultura burguesa. Tudo começou nos anos sessenta do passado século: o proletariado já não tinha qualquer apetência revolucionária, o que não passou despercebido ao mais lúcido intelectual marxista de então, o rico húngaro G. Lukács que ainda esperou, mas em vão, que a consciência (de classe) revolucionária do proletariado surgisse espontaneamente posto que, com o partido ao leme, andava para trás em vez de para a frente, o que não agradou nada aos teóricos oficiais da antiga URSS, o oficioso Suslov à cabeça.
Aos contestatários estudantes, no vigor da juventude, foram-se juntando em décadas mais recentes novos contestatários oriundos das minorias sexuais, dos adeptos do «poli-amor», da imigração e tutti quanti, a arregimentar sempre que possível. E são bem precisos e urgentes porque a contestação estudantil tenderá inexoravelmente a diminuir e a olhos vistos, como já em 1966 previa o Internacional Situacionismo no célebre panfleto com que me deliciei, A Miséria no Meio Estudantil.
3. Só falta um ingrediente. É o «antifascismo». Recordemos que o termo chegou a ter uma conotação negativa e até estúpida na gíria soviética. Despontou com a estratégia radical de «classe contra classe» adoptada no segundo congresso da III Internacional (Comintern) em 1920 e radicalizada em 1928 no sexto congresso. Mas esta estratégia deu mais resultados porque não impediu a chegada ao poder de Hitler em 1933. Foi, portanto, necessário abandonar a estratégia radical do «antifascismo» no sétimo congresso de 1935 e substitui-la por outra dita da «frente popular», mais moderada, que aceitava a colaboração com outros partidos e forças «democráticas» para barrar eleitoralmente o fascismo. Foi também esta a eficiente estratégia do «austro-marxismo». Deu resultados em França, em Espanha, em Itália mais tarde e, desde mais cedo, na Áustria.
O «antifascismo» radical foi, portanto, abandonado por sectário e por conotado com um «desvio de esquerda», alheio a qualquer compromisso, pois que deu maus resultados eleitorais. Mas o «antifascismo» não morreu. Ressuscitou por ocasião do conflito ideológico sino-soviético nos anos sessenta do passado século. A China de Mao ambicionava a partir dos anos cinquenta ser o farol do comunismo e começou a a pôr-se em bicos de pés, hostilizando os soviéticos, porque estes aceitavam que a transição para o socialismo se podia fazer de forma pacífica e em colaboração com outras forças. Vai daí os maoístas desataram aos pontapés a toda a gente e chegaram a alcunhar de «sociais-fascistas», culpados de «revisionismo» e «oportunismo», os pobres soviéticos, pois que estes aceitavam (timidamente embora), imagine-se, a transição pacífica para o socialismo e até a colaboração de classes, como disse. «Social-fascista» seria todo aquele que se aliasse (mesmo que transitoriamente) aos partidos sociais-democratas e socialistas.
Cá no país, nos finais da ditadura de Salazar/Caetano, a estratégia radical do «antifascismo» herdada dos primórdios da III internacional comunista e ressuscitada pelos chineses era reivindicada nas cantinas universitárias pelos conspícuos maoístas, os mesmos de ontem e de sempre e pelos (minúsculos) trotskistas.
Cunhal tentou equilibrar-se. Começou por ser adepto do esquerdismo, e tinha saído de uma luta contra um «desvio de direita» que pregava demais a colaboração pacífica, a que não deu tréguas desde os anos cinquenta, culminando com a expulsão do seu ideólogo Júlio Fogaça, mas sem resvalar obviamente para o radicalismo «antifascista», a que logo chamou «pequeno-burguês» e outras coisas feias assim, pois tinha de se manter fiel às directivas da URSS, a quem tudo devia, e que era inimiga de radicalismos e esquerdismos maoístas.
Só de pensar que muita gente esteve mergulhada neste palavreado oco bolsado por semelhantes atrasados mentais maoístas, como se de coisa séria se tratasse, dá-me náuseas. Mas, enfim, estavam convencidos que assim é que iam lá porque o insepulto camarada Mao e outros como ele velavam por eles. Ainda hoje para aí andam a destilar ódio a tudo e a todos. Não mudaram uma vírgula desde há cinquenta anos e na primeira oportunidade salta-lhes a tampa, mesmo que disfarçados noutros partidos.
Mas o «antifascismo» tem uma grande vantagem. Como é uma noção obscura serve. Muito mais emocional do que racional, circula bem, não dá que pensar e adere facilmente a espíritos simples e pouco cultivados. A maioria dos jornalistas portugueses fica encantada com este chavão.
4. Apimente-se a receita, como acima dizia, com as reivindicações das minorias sexuais e outras e o cocktail fica explosivo. Apresente-se aos convivas como a última moda em epistemologia, louvada nas perorações de alguns pequenos e médios intelectuais, de preferência com chancela universitária, e está pronto a servir. Voilá.