Luís Montenegro só precisava de ler um livro — apenas um. Em 2010, George W. Bush publicou a autobiografia “Horas decisivas” e contou, com detalhe e minúcia, os efeitos do furacão Katrina na sua presidência. Ao longo de várias páginas, Bush reconheceu todos os erros que cometeu ao lidar com um fenómeno climatérico extremo que devastou uma área do tamanho da Grã-Bretanha na região de Nova Orleães, provocou a morte de 1392 pessoas e causou prejuízos que chegaram a 125 mil milhões de dólares. No livro, Bush assumiu, sem truques de retórica nem desculpas inventadas, que “a resposta” do Estado foi “inaceitável”. O furacão, escreveu, “evocou imagens de desordem, incompetência e a sensação de que o Governo falhou para com os seus cidadãos”.

Tal como aconteceu com Montenegro logo depois da tempestade Kristin, o primeiro falhanço do Presidente americano foi a lentidão. Bush admitiu que “deveria ter reconhecido as deficiências do governo mais cedo e deveria ter intervindo com maior rapidez”. Foi uma dura lição de humildade: “Orgulhava-me da minha capacidade de tomar decisões claras e eficazes. Contudo, nos dias que se seguiram ao Katrina, isso não aconteceu”. Bush insistiu naquela que poderia ser uma aprendizagem para futuros governantes que tivessem de lidar com situações igualmente trágicas: “O problema não foi ter tomado decisões erradas; foi ter demorado demasiado tempo a decidir”. Quando se enfrentam situações de caos e destruição, a rapidez, por si só, transforma-se numa virtude.

Tendo em conta as polémicas depois da tempestade Kristin com o papel, o modo de atuação e o tempo de intervenção das Forças Armadas, Luís Montenegro também se pode reconhecer naquele que George W. Bush escreveu ter sido o seu “maior erro substantivo”. Nem de propósito: “Foi ter esperado demasiado tempo para mobilizar tropas no ativo”.

Nos Estados Unidos, tal como em Portugal, também houve aquilo a que Bush chamou “um problema de percepção”: “Cometi ainda um erro adicional ao não comunicar de forma adequada a minha preocupação com as vítimas do Katrina”. Não se tratava de teatro político ou de sentimentalismo simulado — uma das principais funções de um responsável político é evitar parecer uma estátua de gelo. Nas suas memórias, George W. Bush explica, de forma didática, que “as relações públicas são importantes quando se é Presidente, especialmente quando as pessoas estão a sofrer”. Logo depois da passagem do Katrina, ele não percebeu isso. Quando visitou a zona de Nova Orleães, limitou-se a sobrevoar as áreas atingidas pelo furacão. O objetivo era virtuoso: não queria obrigar as autoridades que lideravam as equipas de socorro em terra a abandonarem situações de emergência só para irem receber, protocolarmente, o Presidente. Mas, ao nunca abandonar o avião, Bush passou a imagem de um político desligado e afastado.

O pai dele, o Presidente George H. W. Bush, tinha cometido o mesmíssimo erro: “Apesar de todos os meus esforços para evitar o problema de percepção que o meu pai enfrentou durante o furacão Andrew, acabei por o repetir”. Se precisava de um modelo alternativo, deveria ter olhado para a forma de atuação de um outro Presidente. No livro, Bush lembra o comportamento determinado de Lyndon Johnson quando o furacão Betsy devastou Nova Orleães em 1965: “Ele voou de Washington para visitar a cidade quando já era noite. Dirigiu-se a um abrigo à luz de uma lanterna. ‘Este é o vosso Presidente!’, gritou ao chegar ao espaço escuro e apinhado. ‘Estou aqui para vos ajudar!’” Olhando para trás, Bush lamentou, melancólico: “Infelizmente, não segui o seu exemplo.”

Na autobiografia de George W. Bush há uma derradeira lição para Luís Montenegro — uma lição para os próximos meses e para os próximos anos em Portugal. O Presidente americano escreve que “tal como o Katrina foi mais do que um furacão, o seu impacto foi mais do que destruição física”. Houve consequências políticas graves. E irrecuperáveis. Segundo ele, os acontecimentos que se seguiram à tragédia “erodiram a confiança dos cidadãos no seu governo” e “exacerbaram divisões na sociedade e na política”. Agora, com os efeitos devastadores da tempestade Kristin, chegou a nossa vez. Ou Luís Montenegro se empenha pessoalmente na reconstrução das zonas afetadas, ou virão aí tempos difíceis para o “sistema” que ele lidera. Não podemos dizer que não fomos avisados.