Naquela noite de 28 de Setembro de 2014 ninguém acreditaria. Seguro acabara de perder copiosamente as eleições internas contra António Costa. As elites exultavam. Finalmente, António Costa tomaria conta do Partido Socialista, conseguiria derrotar Passos Coelho e, finalmente, cumpriria o seu destino de reformar o país. Lembro-me de assistir na televisão à entrada de Seguro no carro e à sua partida. Parecia o fim da sua carreira política. Costa revelou-se um medíocre, deixando o país em cacos. No Domingo, Seguro tornou-se o Presidente da República de Portugal com maior número de votos absolutos de sempre, superando a marca histórica de Mário Soares em 1991. Tem condições políticas para juntar-se ao panteão das figuras mais importantes do partido, fazendo de Costa uma nota de rodapé.
Importa, contudo, perceber como é que tudo isto aconteceu. Como é que Seguro conseguiu montar uma coligação eleitoral juntando Catarina Martins, Augusto Santos Silva, Cavaco Silva e Paulo Portas? A resposta é fácil e simples: André Ventura como adversário e as instituições óptimas. Sejamos claros. Seguro é o candidato perfeito, e fez a campanha perfeita, para conseguir mobilizar as elites e o eleitorado. Seguro fez uma campanha de mínimo denominador comum, oferecendo um conjunto de promessas vagas e, acima de tudo, não activando quaisquer clivagens que pudessem assustar qualquer moderado. Numa eleição decidida a favor de, claramente, não chegaria para ganhar. Numa eleição decida contra esta postura é perfeita.
O desenho institucional das eleições presidenciais a duas voltas cria condições óptimas para a coordenação eleitoral impulsionada pela rejeição de um dos candidatos e pelo negative partisanship — uma forma de identidade política em que as escolhas eleitorais são motivadas principalmente pela oposição e rejeição ao partido ou candidato adversário, e não por uma identificação positiva ou entusiasmo com o próprio partido ou candidato. Como demonstra o trabalho seminal de Gary Cox sobre voto estratégico, os sistemas eleitorais com duas voltas reduzem os problemas de coordenação ao fornecerem aos eleitores o que se aproxima de informação perfeita sobre a viabilidade dos candidatos entre as duas voltas, permitindo comportamentos tácticos sofisticados que os sistemas de pluralidade simples – como nas eleições legislativas — não conseguem fomentar.
Nestas eleições, os resultados da primeira volta activaram a deserção estratégica de opções menos viáveis em direcção ao candidato melhor posicionado para derrotar a alternativa mais rejeitada. Este arranjo institucional transforma as eleições de competições entre programas positivos em referendos sobre rejeição, onde os eleitores coordenam em torno de um candidato de mínimo denominador comum não por concordância substantiva sobre políticas, mas por antipatia partilhada em relação à ameaça percebida.
A estrutura a duas voltas reduz os custos de construção de coligações ao separar a expressão de preferências sinceras (primeira volta) da coordenação estratégica contra um candidato rejeitado (segunda volta), criando incentivos poderosos para que diversos actores políticos—de antigos presidentes a líderes da esquerda radical—convirjam em torno de quem quer que emerja como a alternativa viável à ameaça. Esta dinâmica muda fundamentalmente a competição democrática, privilegiando candidatos capazes de mobilizar coligações amplas mas superficiais, unidas principalmente pelo que rejeitam e não pelo que propõem.
Estas foram as circunstâncias da vitória de Seguro. No entanto, ao contrário da maioria dos comentadores, acho que André Ventura também teve uma vitória eleitoral bastante consistente e para a qual, daqui a uns anos, olharemos como um ponto importante na sua ascensão políticas. Explico-me. Em primeiro lugar, Ventura teve a maior votação de sempre da direita radical em Portugal. Em termos de votos absolutos está, neste momento, quando ainda faltam votar algumas freguesias que foram afectadas pelo mau tempo, a cerca de 70 mil votos do resultado que, em 2024, levou a AD e Luís Montenegro ao poder. Como diria alguém central em toda esta história, é poucochinho. Em segundo lugar, é necessário considerar as duas voltas das eleições. Fazendo esse exercício, Ventura não pode deixar de ser considerado um vencedor: o simples feito de ir à segunda volta, num campo eleitoral em que estava Marques Mendes, o candidato oficial da AD, que andou anos e anos a fazer comentário televisivo para no fim ter uns humilhantes 12 por cento, é um resultado importante. Todavia, Ventura cometeu um erro fulcral nesta segunda volta: a má gestão das expectativas. Ao invés de assumir a passagem à segunda volta como uma grande vitória – que o é – Ventura tentou utilizar esta segunda volta como um plebiscito à liderança da direita. Para já, falhou. No futuro, em condições institucionais como as legislativas sem os freios das duas voltas, penso que não falará.