O Dia Mundial do Serviço Social, celebrado este ano a 18 de março, tem como tema: “Fortalecendo a Solidariedade Intergeracional para o Bem-Estar Duradouro”. Este tema sublinha a importância de reforçar os laços entre gerações para garantir sociedades mais resilientes e sustentáveis. Joachim Mumba, presidente da IFSW, na sua comunicação, destaca o provérbio africano: “Se você acender uma lâmpada para alguém, ela também iluminará o seu próprio caminho”. No entanto, os assistentes sociais operam hoje em contextos onde as lâmpadas escasseiam, sendo, por isso, essencial construir novas formas de “iluminação”. As sociedades familiares, que suportavam e asseguravam os cuidados e necessidades que iam emergindo das interações sociais transformaram-se em sociedades monofamiliares ou mesmo em indivíduos abraços com a solidão e isolamento. O Estado Social foi tomando conta desse espaço fragmentado a intervenção em silos geracionais.

Os assistentes sociais desempenham a sua ação na interseção entre o cuidado, o controlo, a execução de medidas governamentais e a resistência à redução da sua profissão a uma mera gestão da crise do Estado Social. O desafio é manter a sua missão original: promover a emancipação das populações e melhorar os seus níveis de bem-estar.

Atualmente, os sistemas criados para proteger as pessoas mais vulneráveis acabam muitas vezes por restringir a sua autonomia, funcionando como obstáculos à sua emancipação. Os exemplos são muitos mas deixo-vos apenas dois que me parecem extremamente representativos: Os idosos em lares, hoje designados de Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI). Apesar de receberem cuidados, o elevado custo mensal destas instituições impede muitos de tomarem pequenas decisões sobre a sua vida, como comprar um livro ou fazer algo pelo seu bem-estar pessoal, um mero capricho “matar saudades daquele saudoso manjar num qualquer restaurante”. Assim, uma vida inteira de trabalho acaba por ser entregue a uma estrutura que cuida, mas que também retira grande parte da autonomia e por vezes reprime. Também devo referir os centros de acolhimento ou estruturas residenciais, tanto para jovens como para pessoas em situação de sem-abrigo, que continuam a ser vistos como soluções para problemas complexos. Contudo, estas instituições frequentemente anulam a individualidade dos seus beneficiários, promovendo uma lógica de institucionalização que se assemelha a um modelo industrial. Neste ponto o acolhimento familiar de crianças e jovens tem procurado constituir-se como alternativa.

É fundamental reforçar as políticas de prevenção para evitar intervenções tardias e reativas.

A exclusão social pode e deve ser prevenida, e essa abordagem deve ocupar um espaço prioritário na agenda política, em vez de se limitar a medidas meramente curativas, algumas apenas paliativas dado o atraso na sua implementação.

Em diversas instituições, muitas delas ligadas ao Estado ou ao terceiro setor, os assistentes sociais são direcionados para uma intervenção autoritária e orientada para o controlo. As suas reivindicações éticas e deontológicas, baseadas no apoio e na promoção da inclusão, foram significativamente reduzidas. No entanto, como Michel Foucault salientou, sempre surgem formas de resistência. Existem inúmeros relatos de assistentes sociais que desafiam intervenções restritivas e procuram alternativas mais humanas.

Alguns exemplos incluem:

 Combater ordens de despejo sem a devida intervenção social prévia;

Reafirmar os direitos humanos de requerentes de asilo cujos pedidos foram recusados, tornando-os invisíveis para os sistemas sociais;

Evitar a institucionalização precoce de idosos contra a sua vontade, assegurando que se respeita a sua autonomia e dignidade;

Apoiar as famílias no desenvolvimento das suas competências parentais, sociais e financeiras antes de culminarmos numa institucionalização das crianças e jovens.

Os assistentes sociais continuam a lutar para que a sua intervenção não se limite a um papel de controlo, coerção e perpetuação da ideologia dominante.

Existe uma visão generalizada de que as pessoas só recorrem ao Serviço Social como último recurso, quando outras alternativas falham. Este estigma reforça a perceção negativa da profissão e limita a importância social do seu impacto preventivo.

Muitos estudantes ingressam nos cursos de Serviço Social com um forte desejo de promover a justiça social e fomentar a participação comunitária. No entanto, ao chegarem ao mercado de trabalho, deparam-se com um ambiente carregado de negatividade, onde o idealismo frequentemente esmorece.

Apesar dos departamentos de serviços sociais receberem muitas candidaturas, a retenção de profissionais é um grave problema na administração pública em Portugal. As razões incluem:

 O excesso de burocracia;

Precariedade salarial e carreiras pouco atrativas;

A falta de recursos para uma intervenção eficaz;

O desgaste emocional e psicológico da profissão, sem o devido acesso à supervisão e a uma verdadeira política de saúde mental nas entidades empregadoras.

Como consequência, muitos assistentes sociais sentem dificuldade em afirmar a sua autoridade e em desempenhar um papel mais ativo na transformação social.

Além disso, o número de casos atendidos é apenas a ponta do iceberg. Para cada pessoa que recebe apoio, há muitas outras que não conseguem aceder aos serviços, seja por desconhecimento ou por barreiras burocráticas impostas pelas próprias instituições. Assim, surge uma questão essencial: como pode o Serviço Social alcançar estas pessoas e posicionar-se enquanto profissão num futuro que começa hoje?

Num momento de transformações rápidas, a Inteligência Artificial (IA) apresenta desafios e oportunidades para a intervenção social. Por um lado, a IA pode otimizar processos burocráticos, libertando tempo para uma abordagem mais humanizada. No entanto, existe o risco de desumanização dos serviços, se a tecnologia for utilizada como substituto da intervenção profissional em vez de um complemento. Por outro lado, o impacto da IA no mercado de trabalho pode aumentar o número de pessoas desempregadas e cujas competências carecem de ser ajustadas às novas exigências através de ofertas formativas; num programa de aprendizagem contínua.

Os assistentes sociais devem posicionar-se ativamente neste debate, garantindo que as novas tecnologias sejam utilizadas para fortalecer a dignidade e a autonomia das populações, e não para reforçar dinâmicas de exclusão e controlo.

A ética da profissão não pode ser ambivalente: o dever moral do serviço social é apoiar os mais vulneráveis e garantir que ninguém fica invisível para a sociedade, mas também reinventar-se como profissão assegurando uma prática que responda aos desafios das transformações sociais em contextos de avanços tecnológicos e de conturbados tempos de guerras económicas.