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É sabido que a economia russa não é suficientemente forte para sustentar a política externa revisionista e agressiva de Vladimir Putin, mas resta saber até que ponto é que os países ocidentais estarão dispostos a ir para obrigar a elite russa a encontrar um dirigente mais realista.

No passado dia 6 de Abril, o Ministério das Finanças dos Estados Unidos decretou novas sanções contra a Rússia, desta vez contra sete magnatas russos próximos de Putin, 14 empresas e 17 altos funcionários russos. Estes viram os seus activos nos EUA congelados e as empresas e empresários norte-americanos impedidos de assinar contratos com eles.

Na lista dos sancionados encontramos o director da empresa petroquímica Kirill Chamalov, que alguns órgãos de informação dizem ser genro do próprio Presidente russo, bem como oligarcas novos como Igor Rotenbeg ou saídos da era de Boris Ieltsin, casos de Victor Vekselberg, Oleg Deripaska e Suleiman Karimov.

Não se pode deixar de salientar que numerosos dos figurantes estão ligados aos serviços secretos soviéticos e russos: Mikhail Fradkov, antigo primeiro-ministro e dirigente do SVR (Serviço de Espionagem Externa), Nikolai Patruchev, antigo dirigente do Serviço Federal de Segurança e actual secretário do Conselho de Segurança da Rússia.

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As razões desta nova onda de sanções estão bem patentes no comunicado do ministério norte-americano, citado pela agência russa “Interfax”: “O Governo russo age desproporcionalmente a favor dos oligarcas e das elites governamentais. O Governo russo está envolvido em diferente actividade hostil em todo o globo terrestre, incluindo a ocupação da Crimeia e o atiçamento da violência no Leste da Ucrânia, o apoio ao regime de Assad com o fornecimento de materiais e armas, o que lhe permite bombardear os próprios cidadãos; tenta minar as democracias ocidentais e realiza actividade cibernética hostil”.

O Kremlin já prometeu responder com medidas semelhantes e apoiar as empresas prejudicadas pelas sanções, mas resta saber se terão o mesmo impacto que as sanções norte-americanas provocam na economia e finanças russas. Recordo que a economia norte-americana é quase dez vezes maior do que a russa, situa-se algures entre as economias espanhola e italiana.

Segundo a revista Forbes, só no dia 9 de Abril, os 50 russos mais ricos perderam 12 mil milhões de dólares devido à queda da cotação das suas empresas nas bolsas internas e internacionais.

A Rusal, o gigante russo do alumínio, viu as suas acções na Bolsa de Hong Kong caírem em mais de 50%, tendo o seu dono, o oligarca Oleg Deripaska, perdido quase 30% da sua fortuna (1,6 mil milhões de dólares).  A empresa não exclui a possibilidade de “falência técnica” devido às sanções.

Mas as sanções norte-americanas já estão também a causar prejuízos a oligarcas que ainda não se encontram na lista de sancionados. O oligarca Vladimir Potanin, sócio de Deripaska na indústria do alumínio perdeu, na segunda-feira, mais de mil milhões de dólares.

Esta “segunda-feira negra” provocou também uma forte desvalorização do rublo em relação ao euro e ao dólar. Pela primeira vez depois de 4 de Agosto de 2016, o euro passou a valer mais de 74 rublos e o dólar ultrapassou os 60 dólares, nível que não se registava desde 16 de Janeiro de 2017.

A situação poderá complicar-se ainda mais se os países da União Europeia decidirem seguir o exemplo norte-americano. A polémica em torno do emprego de armas químicas pelo regime sírio de Bashar Assad, apoiado pelo Kremlin, contra a população civil poderá servir de pretexto para um endurecimento de posições. E a discussão sobre a autoria da tentativa de assassinato de Serguei Skrypal pelos serviços secretos russos na Grã-Bretanha ainda está muito longe do fim.

Entretanto, os teóricos do Kremlin fazem projectos para séculos em frente. “A Rússia virou-se quatro séculos para Oriente e mais quatro para o Ocidente. Não ganhou raízes nem num lado, nem noutro. Ambos os caminhos foram percorridos. Agora são necessárias ideologias da terceira via, do terceiro tipo de civilização, do terceiro mundo, da Terceira Roma”, escreve Vladislav Surkov, assessor do Presidente Putin.

Segundo Surkov, a Rússia terá de passar por um período de “cem (duzentos? trezentos?) anos de solidão geopolítica”. Mas, para tanta originalidade, o país deve seguir uma “solidão” original: “Sem dúvida que a Rússia irá comerciar, atrair investimentos, trocar conhecimentos, combater (pois a guerra é também uma forma de comunicação), participar em colaborações, fazer parte de organizações, concorrer e cooperar, provocar medo e ódio, curiosidade, simpatia, admiração. Mas já sem objectivos falsos e auto-negação”.

Resta saber se os russos, desde os oligarcas até às pessoas simples, estão dispostos a participar em mais “cem anos de solidão”, tanto mais que eles já passaram por isso na era comunista, entre 1917 e 1991.

P.S. A situação em torno da Síria está a agravar-se de tal forma que torna cada vez mais prováveis incidentes entre tropas estrangeiras no campo de batalha.