Em abril de 2016, no tradicional jantar que congrega a elite política e jornalística de Washington, Barack Obama dirigiu uma crítica profética aos meios de comunicação social americanos, ainda antes da vitória eleitoral de Trump. Durante a campanha das primárias Republicanas, o ainda Presidente sublinhou a desproporção flagrante entre a seriedade substantiva da candidatura de Trump e o volume de cobertura mediática que lhe era dispensado, rematando com uma observação carregada de ironia: “espero que estejam orgulhosos”.
A dinâmica actual, entre uns media em crescente agonia de receitas e de audiências, especialmente com a concorrência das redes sociais, e uma direita radical com necessidade de palco não oferece margem para dúvidas. Existe uma relação simbiótica entre estes dois actores que é benéfica e proveitosa para ambos. Os partidos de direita radical foram um bálsamo para televisões, cujo modelo de negócio já não assenta em notícias propriamente ditas, até porque fazer bom jornalismo é caro, mas em colocar comentadores e políticos em estúdio.
O jogo é simples. Os partidos de direita radical ganham cobertura mediática e legitimidade. As televisões produzem conteúdos com audiências que, mais tardem, fazem furor nas redes sociais. Aqui, não há inocentes. Sob a alçada de uma pretensa indignicação – com o Chega a queixar-se de ser atacado e as televisões a queixarem-se do comportamento inaceitável dos seus convidados – ambas as partes ganham. Todos nós, os moderados democratas, assim como a salubridade do debate político, perdemos.
Vem isto a propósito do episódio absolutamente lamentável do último Sábado na CNN. A CNN decidiu convidar os candidatos presidenciais para serem entrevistados por André Carvalho Ramos, um jornalista francamente engajado politicamente e com posições políticas notoriamente anti-Chega, e, sem qualquer motivo aparente, por Francisco Rodrigues dos Santos e Pedro Costa. O motivo da inclusão destes dois últimos é um mistério para mim. Sem qualquer carreira profissional ou académica que os destaque, a inclusão de um líder político falhado e do ex-presidente da Junta de Campo de Ourique (juro) é um mistério. Todos cumpriram meticulosamente o número que tinham preparado. O jornalista fez perguntas a Ventura que nunca teria coragem de fazer a outro líder político. Rodrigues dos Santos e Costa foram os pantomineiros de serviço. Ventura foi igual a si próprio e, quando percebeu que a baliza estava aberta, atirou para golo, saindo do estúdio depois de quase uma hora a destilar ódio.
Ao proporcionarem cobertura jornalística aos movimentos populistas, mesmo quando essa cobertura é efectuada num tom crítico ou francamente adversarial, os media estão objectivamente a servir os interesses destes actores políticos, ao contribuir para a disseminação e legitimação das suas narrativas. Existe um elemento estrutural na mensagem populismo que funciona de forma óptima nas televisões. Em primeiro lugar, as narrativas simplistas, com apelos emocionais e em conflito constante, por exemplo, entre a elite corrupta e as pessoas de bem têm muitos mais sucesso mediático do que entrevistas longas, com nuances e complexas, que rapidamente se tornam aborrecidas para os espectadores e não têm grande capacidade de criar conteúdo nas redes sociais. Em segundo lugar, estes partidos compreendem como poucos as lógicas de mediatização contemporâneas. Dominar o ciclo noticioso deixou de depender da substância das ideias ou da coerência programática. Depende, pelo contrário, da capacidade de produzir choque, emoção e conflitol. A política transformou-se em entretenimento, e os populistas de direita são, neste novo ecossistema, os intérpretes perfeitos. A sua retórica inflamável e o uso deliberado da provocação funcionam como isco num mercado mediático saturado de estímulos e faminto de cliques, partilhas e polémicas instantâneas.
A cobertura constante de figuras como Ventura não decorre apenas de um interesse jornalístico, mas de uma dependência económica e simbólica: são eles que garantem o conflito, o ruído e, por conseguinte, a atenção. O resultado é um ciclo vicioso em que o populismo alimenta as audiências e as audiências alimentam o populismo. O episódio da CNN é, por isso, menos uma anomalia do que um sintoma. Mostra como o jornalismo televisivo se deixa enredar num jogo que não pode ganhar: tenta disciplinar o populismo, mas apenas o reforça. Cada momento de indignação, cada confronto em directo, cada saída teatral de estúdio confirma aos olhos do eleitorado populista que o seu líder é um outsider perseguido pelo sistema.
Ao ironizar sobre a cobertura desproporcionada de Trump, Obama anticipou muito bem o dilema contemporâneo: como resistir à tentação de transformar o populismo em espectáculo, como fizeram o pivot da CNN e os seus apaniguados, sem deixar de o escrutinar? Enquanto os meios de comunicação persistirem em tratar a política como um produto mediático e os populistas como actores de um drama rentável, a erosão do debate público continuará a aprofundar-se. E, nesse processo, quem verdadeiramente perde é a democracia.