Ouvem-se rumores de cismas, fala-se em Papa revolucionário e anti-tradição da Igreja, extremam-se posições entre os que sentem resistências da Igreja ao rumo que Francisco está a promover e os que o consideram um Papa herético. Mas… “nada há de novo debaixo do sol” (Ecl 1,9). A revolução deu-se há 50 anos, no Concílio Vaticano II. Francisco está apenas a implementá-lo. Não é por acaso que as críticas que se ouvem hoje ao Papa são, quase sem tirar nem pôr, as mesmas que D. Marcel Lefebvre (que viria a incorrer em excomunhão) então apresentava: infidelidade à doutrina de sempre e à tradição da Igreja, ensino contrário ao que sempre se defendeu, etc. Se alguma dúvida houvesse, bastava apenas ler as intervenções do fundador da Fraternidade Sacerdotal S. Pio X no Concílio e as críticas que hoje são feitas a Francisco para se confirmar que esta é a Igreja do Vaticano II.

Há dois elementos afirmados no Concílio que causam muita turbulência e que são base da reforma que Bergoglio. São eles a devolução da autoridade competente aos bispos locais e o devido reconhecimento da importância da consciência pessoal dos fiéis na sua vida de fé e de Igreja.

Quanto à autoridade dos bispos e autonomia das igrejas locais, interessa recordar apenas alguns factores históricos. S. João Paulo II chega ao papado uma dúzia de anos depois do Concílio Vaticano II. Encontra uma Igreja desorganizada e desordenada. Entre inércias de algumas igrejas locais à implementação do ensinamento Concílio por um lado, e o surgimento de uma teologia da libertação radical, com laivos de inspiração marxista por outro, o Papa João Paulo II começa a organizar a casa. O modo como o fez foi o de chamar a si o máximo possível de decisões e tomadas de posição da Igreja. E, de facto, deu-se uma centralização, porventura necessária mas profunda, na vida da Igreja em geral. Apostolicamente, o Papa percebe que já não é tempo de ficar no Vaticano, mas que deve ir ele ao encontro das pessoas, como Cristo veio ao nosso encontro. Tira, por isso, proveito das tecnologias de informação que vão surgindo e viaja muito. Estabelece real relação com o Povo de Deus. Dá-se um incremento incrível no diálogo com as outras igrejas cristãs e com as outras religiões, bem como uma abertura real ao diálogo com o mundo secular. Com a sua atitude, João Paulo II devolve uma grande credibilidade ao Papado e à Igreja. No entanto, se para fora a abertura foi revolucionária, a partir de dentro surgiam alguns críticos da excessiva centralização da autoridade.

Depois da inesperada renúncia do Papa Bento XVI, Francisco chega como o Papa que vem do fim do mundo. Não é um académico, é um pastor. Não é tradicionalista, mas é profundamente conhecedor e fiel à Tradição da Igreja. Esta não é mera repetição do passado, mas precisamente o contrário. É traduzir o evangelho no decorrer dos tempos. S. João XXIII punha-o assim: “É nosso dever não só conservar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente com a antiguidade, mas também dedicar-nos com vontade pronta e sem temor àquele trabalho hoje exigido, prosseguindo assim o caminho que a Igreja percorre há vinte séculos” (discurso de abertura do Concílio).

Francisco, claramente nesta linha, tem sido, com razão, chamado reformador. Mas a reforma que o Papa tenta levar a cabo não é apenas a reforma da cúria romana. Nem tão só a reforma da visão da Igreja sobre a família ou a sexualidade. Estes são aspetos de uma reforma maior. Vindo de muito longe, sendo um homem de rua, mais do que de gabinete, Francisco viveu na pele as feridas causadas pelos extremismos das ditaduras e de algumas correntes de teologias da libertação aludidas acima. E também experimentou a ineficácia das respostas da Igreja, as quebras de comunicação e, sim, os jogos de poder, que a excessiva dependência de Roma provocava. Passados todos estes anos desde o pontificado de S. João Paulo II, Francisco entende que é agora tempo de devolver às igrejas locais a sua autonomia, tal como defendera o Concílio Vaticano II.

Não por acaso, insistia o Papa no início do seu pontificado em ser chamado bispo de Roma. E quando surge pela primeira vez na varanda de S. Pedro, dirige-se primeiro aos cristãos de Roma e depois aos do resto do mundo. O Papa é Papa porque é bispo de Roma. Uma alteração radical operada pelo Concílio deu-se acerca do entendimento da própria Igreja. O organigrama em pirâmide, com o Papa no topo e os leigos na base, deu lugar a um organigrama representado por um círculo, com a Igreja de Roma e o Papa no centro circundado pelas diferentes igrejas locais. A missão do Papa não é governar de cima para baixo mas a de presidir à unidade e à caridade das igrejas.

Quem “manda” na diocese de Lisboa, Braga, S. Paulo ou Zagreb, são os bispos locais dessas igrejas. O Papa só deve falar “por cima” deles quando está em causa a unidade da Igreja universal. De tal modo assim é que o Concílio Vaticano II afirma sobre os bispos: “A eles está confiado plenamente o ofício pastoral isto é, a solicitude habitual e quotidiana pelas suas ovelhas, e não devem ser considerados como vigários dos romanos pontífices, já que estão revestidos de poder próprio, e são com toda a verdade, chefes dos povos que governam.” (LG 27). Mais claro não podia ser: os bispos não são delegados locais do Papa; são os verdadeiros responsáveis pelas suas dioceses.

A grande reforma é, portanto, a de devolver aos bispos locais o seu devido valor e responsabilidade. Mas esta é a reforma mais difícil. Todos, leigos e padres, religiosos e bispos, habituámo-nos a que tudo deve ser decidido em Roma. Como se fosse mais seguro, como se tivesse mais valor. Não tem. Um pronunciamento disciplinar do bispo local para a sua diocese, desde que em união com a Igreja Universal, tem plena autoridade. Mas já nem as dioceses estão preparadas para esta mudança, que é acima de tudo de mentalidade, mas também de meios. A quantidade de processos e de burocracia que deve ir a Roma para que venha a decisão última é imensa. Voltar a ter que decidir e usar de autoridade local não é óbvio. É muito mais fácil seguir o ditado Roma locuta, causa finita. E todos nós preferimos. É tão mais confortável. Veja-se a confusão causada pelas diferentes Notas Pastorais dos bispos de Braga e de Lisboa acerca da implementação da Exortação Apostólica Amoris laetitia (AL). De facto, não reconhecemos ao bispo local a sua competente autonomia.

Mas o Papa não desiste e, por isso insiste: “Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas (…) em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto, as culturas são muito diferentes entre si, e cada princípio geral (…), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado” (AL 3).

A unidade da Igreja nunca foi uniformidade. E quando se tentou que fosse não resultou. O preço a pagar da descentralização da autoridade eclesial é precisamente o termos que lidar com a diferença. E isso pode causar desconforto e incompreensão no início. Mas é precisamente assim que a Igreja se torna mais fiel a Jesus Cristo, porque mais incarnada e, por isso, mais próxima da realidade concreta das pessoas de uma determinada cultura num determinado tempo da história.

O segundo elemento essencial para reconhecer como este pontificado é perfeitamente consonante com o Concílio Vaticano II, é o reconhecimento do papel da consciência pessoal dos cristãos. Após uma verdadeira lufada do Espírito, operada no Concílio, parece que se estabeleceu um medo radical de que os leigos, deixados à sua consciência, fizessem asneiras. Como as crianças. A Igreja deve reconhecer que durante muito tempo infantilizou os leigos e que o clericalismo ganha espaço renovado nos nossos tempos.

Mas, onde foi parar a sublime afirmação do Concílio Vaticano II que destaca a centralidade da consciência pessoal ao afirmar que ela é “o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (GS 16)?

Bergoglio não está a inventar nada! Apenas quer recuperar a importância da consciência, afirmando que devemos reconhecer que “nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL37).

Pretender substituir as consciências é próprio de uma atitude clericalista. O Papa já afirmou várias vezes que o clericalismo é o pior inimigo interno da Igreja porque tenta “abafar os sopros” do Espírito Santo ao controlar a voz dos leigos e ao promover uma separação radical entre clero e laicado. É próprio dos clérigos, que se sentem superiores, e que, “em vez de oferecer a força sanadora da graça e da luz do Evangelho, querem «doutrinar» o Evangelho, transformá-lo em pedras mortas para as atirar contra os outros” (AL49).

Ora, juntemos a descentralização da autoridade eclesial a uma real importância dada à consciência dos fiéis e temos o fim do clericalismo. Esta é a grande bomba da reforma bergogliana. E é certamente uma das causas escondidas, mas poderosa, das grandes críticas a Francisco.